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Brasil × EUA: o que funciona onde · Aula 2 de 4

A década das gigantes: o índice contra a ação típica

Em 2023 e 2024, o S&P 500 abriu mais de 12 pontos por ano sobre a versão com todas as ações de mesmo peso. Mas em 35 anos, o peso igual ganhou. A vitória das gigantes é recente.

por Vinícius Rosa5 min de leituraatualizada em
A década das gigantes: o índice contra a ação típica

A ideia

"O S&P 500 é a média do mercado americano." Não exatamente. É a média ponderada pelo tamanho: uma empresa que vale 50 vezes mais que outra pesa 50 vezes mais no índice. Quando as maiores sobem muito mais que o resto, o índice sobe junto com elas, mesmo que a empresa típica do índice esteja parada.

Esta aula mostra quando isso aconteceu, e por que muda tudo para quem tenta escolher ações nos EUA.

Duas formas de medir o mesmo mercado

  • Índice por capitalização (o normal): cada empresa pesa pelo valor de mercado, então um punhado de gigantes pesa tanto quanto centenas de empresas menores.
  • Índice de pesos iguais: as mesmas 500 empresas, cada uma com 1/500 do dinheiro, reequilibradas periodicamente. Mede o que aconteceu com a empresa típica.

A diferença entre os dois responde a uma pergunta simples: neste ano, foram as gigantes ou foi o mercado inteiro?

O que comparamos

Usamos os retornos anuais oficiais, com dividendos, do S&P 500 normal e do S&P 500 de pesos iguais, de 1991 a setembro de 2026. Na pesquisa do Quantor com o S&P 500, montamos a nossa própria carteira de pesos iguais, com as empresas que estavam no índice a cada mês. Ela reproduziu o índice oficial de pesos iguais com diferença de 0,3 ponto percentual por ano.

O resultado

Quando as gigantes carregam o índice

Leitura: barra roxa, o índice normal ganhou da ação típica naquele ano; cinza, a ação típica ganhou. O que olhar: as barras roxas enormes de 2023 e 2024, depois de anos que se alternavam.

De 2011 a 2022, os anos se alternaram, com diferenças quase sempre abaixo de 6 pontos. Em 2022, as gigantes caíram mais e o peso igual ganhou por quase 7 pontos. Depois veio a virada: em 2023, o índice normal rendeu 12,4 pontos a mais que a versão de pesos iguais, e em 2024, 12,0 pontos a mais. Em 2025, mais 6,5.

Em 35 anos, o peso igual ganhou

Leitura: retorno ao ano de cada versão, em três pedaços e no período inteiro. Repare: o peso igual vence nos dois primeiros pedaços e no total; só perde no último.

Olhando o período longo, a história inverte:

  • 1991–2001: peso igual +15,9% ao ano, índice normal +14,4%.
  • 2002–2013: peso igual +9,4%, índice normal +6,2%.
  • 2014–2026: índice normal +13,9%, peso igual +11,0%.
  • Os 35 anos: peso igual +11,9%, índice normal +11,4%.

O que quase ninguém sabe. De 1991 a 2013, US$ 1 no S&P 500 de pesos iguais virou US$ 15, contra US$ 9 no índice normal. A ação típica ganhou das gigantes por mais de duas décadas. Só de 2014 em diante é que o índice normal passou na frente (US$ 5,2 contra US$ 3,8), e boa parte dessa diferença saiu de dois anos, 2023 e 2024. Quem aprendeu a investir olhando só a última década acha que "as gigantes sempre ganham". Os dados de 35 anos dizem que isso é um período, não uma lei.

Por que isso importa para quem escolhe ações

Quase todo método de seleção (os mestres, os fatores, o índice da casa) monta carteiras em que cada ação tem mais ou menos o mesmo peso. Por construção, essas carteiras se parecem mais com a ação típica do que com as gigantes. Na aula anterior, todas perderam do S&P 500 em 2019–2026.

O relatório da pesquisa do Quantor calculou que qualquer carteira de pesos iguais já começava cerca de 4 pontos por ano atrás do índice nesse período, só pelo efeito das gigantes: o índice de pesos iguais fez +13,6% ao ano, contra +17,5% do normal. Boa parte da "derrota" dos métodos foi, na verdade, não ter o peso das maiores empresas do mundo.

A prova está no mesmo relatório: contra o S&P 500 normal, 46 dos 59 testes de fundamentos (regras que escolhem ações pelos números do balanço) perderam por 1 ponto ou mais. Contra o de pesos iguais, 23 dos 59 ganharam por 1 ponto ou mais, entre eles valor, as misturas com momentum (a tendência de ações que vêm subindo continuarem subindo), dividendos e Lynch. Contra a ação típica, vários métodos funcionaram. Contra as gigantes, quase nenhum.

Um caso: e na B3?

No Brasil, o mesmo teste dá outro resultado. De 2006 a 2026, uma carteira com todas as ações líquidas da B3 (as que negociam bastante dinheiro por dia), de pesos iguais, rendeu +8,9% ao ano; o Ibovespa, +8,6%. Praticamente um empate. A B3 não viveu uma "década das gigantes" como a americana: nos 20 anos, as maiores empresas daqui não se descolaram do resto como as de lá. Por isso, na B3, escolher ações com pesos iguais não começa atrás do índice. Nos EUA, na última década, começou.

Onde a comparação pode enganar

  • 2026 vai só até 25 de setembro.
  • O peso igual tem custo de reequilibrar, que o índice oficial já desconta em parte.
  • O futuro não precisa repetir nenhum dos dois padrões. Concentrações longas já terminaram antes, e também já duraram mais do que se esperava.

A versão prática

  1. Saiba qual índice você está tentando bater. Contra o S&P 500 normal, uma carteira de pesos iguais aposta, sem querer, contra as gigantes.
  2. Separe a década do século. "As grandes sempre ganham" e "a ação típica sempre ganha" são duas frases erradas.
  3. Se quer o mercado americano, entenda o que o índice carrega. Comprar o índice é comprar, hoje, muito peso em poucas empresas.
  4. Não conclua sobre um método olhando só 2014–2026. Olhe como ele foi nos anos em que a ação típica ganhava.

No Quantor

Em Mundo, o S&P 500 aparece na régua mensal (a linha dos fechamentos dos últimos 5 meses; acima dela, "em alta") ao lado do Ibovespa e de outros índices, e o duelo Ibovespa × S&P 500 mostra quem está ganhando. A trilha Investir nos EUA explica os caminhos para ter essa exposição. Os números desta aula vêm dos índices oficiais e da pesquisa do Quantor com o S&P 500.

O que fica

  • O S&P 500 pesa pelo tamanho; em 2023 e 2024, as gigantes abriram mais de 12 pontos por ano sobre a ação típica.
  • Em 35 anos, a ação típica ganhou; a vantagem das gigantes é da última década.
  • Carteiras de pesos iguais começaram esta década atrás do índice por construção, não só por erro de escolha.

Para pensar: quando você compara a sua carteira com um índice, você sabe quanto dele está em meia dúzia de empresas?

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.

Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.