Por que o S&P 500 é tão difícil de bater
Montamos o S&P 500 com as empresas que saíram dele e fizemos 120 testes de 1991 a 2026. Na prova cega, o índice da casa perdeu por 2,3 pontos por ano, e 46 de 59 regras de fundamentos perderam por mais de 1 ponto.

A ideia
"Nos EUA é mais fácil: empresas melhores, mercado maior, mais informação." Para quem compra o índice, talvez. Para quem tenta escolher ações e ganhar do índice, os dados contam outra história. Quase todo mundo que tenta, perde.
Esta aula mostra o tamanho da derrota com o teste mais honesto que conseguimos montar.
Como montamos o teste
A armadilha dos testes americanos é a mesma da B3: usar só as empresas que estão no S&P 500 hoje. Elas são as sobreviventes, e qualquer regra parece ótima olhando para elas.
Por isso, a pesquisa do Quantor com o S&P 500 reconstruiu o S&P 500 mês a mês desde 1991, com as 1.303 empresas que passaram pelo índice, inclusive as que foram compradas, encolheram ou quebraram. A base foi conferida contra o índice oficial: correlação de 0,9998 (as duas andam praticamente juntas). Nela, 572 empresas deixaram o índice pelo caminho (a maioria compradas por outras) e 77 terminaram praticamente sem valor. Em cima dela, rodamos:
- as regras de preço que funcionam na B3, como as 10 ações de maior índice da casa (IQ, uma nota que o Quantor dá para ações que sobem com constância, sem sustos), com e sem a trava do índice (ir para o caixa quando o índice fecha o mês abaixo da própria média de 5 meses);
- carteiras de momentum (ações que vêm subindo), baixa volatilidade (as que menos sobem e descem), 60/40 (60% em ações e 40% em títulos) e dual momentum (uma regra de tendência que alterna entre ativos, ficando no que vem mais forte);
- 59 testes de fundamentos (regras que escolhem ações pelos números do balanço): Graham, Greenblatt, Piotroski, Buffett quantitativo, Lynch, valor, qualidade, dividendos. Os balanços entram na data em que foram entregues à SEC, o órgão regulador americano.
E a regra de ouro: prova cega. As regras foram fixadas com os dados até 2010 (preço) ou 2018 (fundamentos) e só depois medidas no período seguinte, sem mexer em nada. Custo de 0,05% por ordem, caixa rendendo T-bill, o título curto do governo americano.
O resultado

Leitura: retorno ao ano de 2011 a set/2026, em dólar, com a pior queda (o maior tombo do topo ao fundo) à direita. O que olhar: quase todas as barras ficam atrás da do índice.
De 2011 a setembro de 2026, o S&P 500 com dividendos rendeu +14,3% ao ano. Contra ele:
- As 10 ações de maior IQ, a regra campeã na B3, fizeram +12,0%. Com a trava do índice, +7,7%.
- O S&P 500 com pesos iguais (a mesma quantia em cada ação) fez +12,2%. A baixa volatilidade, +9,4%. O clássico 60/40, +10,3%.
- Com 20 ações de maior IQ, +14,8%: um empate, dentro de 1 ponto percentual.
- Só o momentum puro (as que mais subiram nos últimos meses) ficou claramente acima: +17,8% com 10 ações. Mas com quedas maiores. E sem passar no teste que desconta a sorte de ter testado muitas coisas (quem testa muitas ideias acha alguma ótima por acaso, então precisa exigir mais).

Leitura: retorno ao ano de 2019 a set/2026, carteiras de 20 ações refeitas todo mês. Repare: só o crescimento de dividendos passa da linha do índice; os mestres clássicos ficam todos atrás dela.
Nos fundamentos, o placar foi pior. De 2019 a setembro de 2026, o índice fez +17,5% ao ano. Todos os mestres clássicos perderam: Graham, Greenblatt e Piotroski ficaram entre +8% e +13%; Buffett quantitativo, +13,7%; Lynch, +16,2%. Dos 59 testes, 46 perderam por 1 ponto ou mais.
O que quase ninguém sabe. A única regra que passou no critério foi crescimento de dividendos: +22,2% ao ano contra +17,5% do índice. Parece a vencedora. Mas quase toda a vantagem mora em 2021 e 2022, quando a carteira se encheu de petroleiras que pagam dividendo variável e subiram com o petróleo (+61% e +9%, contra +29% e −18% do índice). Sem esses dois anos, ela fez +18,8% contra +23,1% do índice, e já tinha perdido na parte usada para criar a regra. Outra pista de sorte: os campeões de 2011–2018 afundaram em 2019–2026, e os lanternas viraram campeões. Com oito anos de dados, não dá nem para escolher o fator (o tipo de critério, como valor, qualidade ou dividendos).
Um caso: Buffett contra Buffett
A regra "Buffett quantitativo" compra empresas com alta rentabilidade, pouca dívida e lucro consistente, a leitura mais comum do que Warren Buffett procura. Na prova cega, fez +13,7% ao ano com 20 ações, contra +17,5% do índice. O próprio Buffett, em essência, recomendou por décadas que o investidor comum comprasse um fundo de índice barato. Nos dados, a regra baseada nele perdeu para o conselho dele.
Por que é tão difícil
- O índice é pesado pelo tamanho, e as gigantes dominaram. Qualquer carteira de pesos iguais começou cerca de 4 pontos por ano atrás em 2019–2026. É o assunto da próxima aula.
- O caixa rende pouco. Com o T-bill a +1,6% ao ano de 2011 a 2026, toda regra que sai do mercado paga caro por isso.
- É o mercado mais estudado do mundo. Um padrão que funciona chama dinheiro, e o dinheiro apaga o padrão.
- O custo aparece. Carteiras que trocam 4 a 6 vezes o patrimônio por ano (giro alto) perderam de 1,0 a 1,6 ponto ao ano só com um custo de 0,15% por ordem.
Onde o teste pode enganar
- A prova cega dos fundamentos é curta: 7,7 anos, e coincide com a era mais concentrada do índice.
- Setembro de 2026 é parcial e entra na conta.
- Só o S&P 500. Empresas menores americanas, fora do índice, não entraram.
A versão prática
- Para ter bolsa americana, o índice é um adversário duríssimo. Antes de escolher ações lá, pergunte o que você sabe que o mercado não sabe.
- Desconfie de backtest americano feito só com as empresas de hoje. O viés de sobrevivência infla qualquer regra.
- Uma regra que ganhou em dois anos não ganhou em quinze. Olhe o resultado sem os anos excepcionais.
- Compare com o índice certo: o S&P 500 com dividendos, não o preço.
No Quantor
Em Mundo, o S&P 500 e os outros índices aparecem na régua mensal (a linha dos fechamentos dos últimos 5 meses; acima dela, "em alta"), lado a lado com o Ibovespa. A trilha Investir nos EUA explica os caminhos para ter essa exposição. Os testes desta aula vêm da pesquisa do Quantor com o S&P 500, com base sem viés de sobrevivência e prova cega.
O que fica
- No S&P 500 de 2011 a 2026, a regra campeã da B3 perdeu do índice por 2,3 pontos ao ano.
- 46 de 59 regras de fundamentos perderam por mais de 1 ponto; todos os mestres perderam.
- A única vencedora dependia de dois anos de petroleiras.
Para pensar: se você investe ou pensa em investir nos EUA, o que te faria acreditar que vai ganhar de um índice que 46 de 59 regras testadas não bateram?
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