Quantas ações ter na carteira? O ponto em que mais uma quase não ajuda
Sorteei 2.000 carteiras da B3 por 5 anos. De 1 para 10 ações o risco de desastre despencou. Depois de 20, quase não mudou mais.

Uma ação é pouco. Cem ações é bagunça.
A resposta certa está em algum lugar no meio. A pergunta é onde.
Todo investidor passa por isso. No começo, ou concentra tudo em duas ou três ações que "conhece bem", ou sai comprando um pouquinho de tudo, achando que quanto mais nomes, mais seguro. Os dois erram, por motivos diferentes.
E existe um ponto, bem concreto, em que adicionar mais uma ação deixa de proteger e passa só a dar trabalho.
Por que a cabeça erra para os dois lados
Quem concentra demais está sendo vítima do excesso de confiança. "Eu conheço essa empresa. Eu uso o produto. O setor é sólido." A cabeça confunde conhecer a empresa com saber o que o preço vai fazer. São coisas diferentes.
Quem pulveriza demais está fugindo de outra dor: o arrependimento. Com 40 ações na carteira, nenhuma delas pesa. Se uma afundar, ninguém percebe. A sensação é de segurança. Mas é também uma forma de não decidir. Em vez de escolher, compra tudo. E aí não consegue acompanhar nada.
Os dois extremos têm um custo. Um é o risco de perder muito numa tacada só. O outro é virar dono de uma carteira que você não entende, não acompanha e que, no fim, se parece com o índice, só que com mais trabalho.
De 32% para 15% com cinco ações
Fiz um teste simples. Na base do Quantor (ações da B3 com mais de R$ 5 milhões negociados por dia, de 2006 a setembro de 2026, sem deixar de fora as que quebraram, com dividendos), sorteei 2.000 carteiras de cada tamanho, com peso igual, e segurei cada uma por 5 anos.
Sorteio, de propósito. Sem escolher nada. Para ver o que só o número de ações faz.
| Ações na carteira | Carteiras que perderam dinheiro em 5 anos |
|---|---|
| 1 | 32% |
| 3 | 21% |
| 5 | 15% |
| 10 | 9% |
| 20 | 5% |
| 40 | 2% |
Olha o desenho da coluna.
De 1 para 5 ações, a chance de perder dinheiro caiu de 32% para 15%. Menos da metade.
De 5 para 10, caiu de 15% para 9%.
De 10 para 20, de 9% para 5%.
De 20 para 40, dobrando de novo o número de ações, caiu só 3 pontos: de 5% para 2%.
Cada ação a mais protegeu menos do que a anterior. As primeiras fizeram quase todo o trabalho.
Agora olha o pior cenário, os 10% piores sorteios de cada tamanho:
- Com 1 ação, os 10% piores perderam 68% em 5 anos.
- Com 5 ações, os 10% piores perderam 11%.
- Com 10 ações, os 10% piores ainda ganharam 2%.
Esse é o salto que importa. Com uma ação, o azar podia levar dois terços do dinheiro. Com dez, mesmo o azar dos piores sorteios terminou no positivo.
E o retorno?
Aqui está a parte que muita gente não espera.
A mediana, o resultado da carteira do meio da fila, quase não mudou: foi de +44% com 1 ação para +57% com 40. Diversificar não fez o investidor típico ganhar muito mais.
O que mudou foi o tamanho do desastre possível.
É como cinto de segurança. Ele não faz o carro andar mais rápido. Ele muda o que acontece no dia da batida.
E um aviso honesto: em todos os tamanhos, só de 45% a 50% das carteiras bateram o CDI. Sortear ações não é método. Diversificar diminuiu o risco de catástrofe, mas não transformou carteira aleatória em carteira boa.
Na prática: a faixa de 10 a 20
Juntando os números, o desenho fica claro.
Abaixo de 5 ações, o risco de um único erro destruir a carteira foi grande. Uma em cada três carteiras de uma ação só perdeu dinheiro em 5 anos.
Entre 10 e 20, a proteção já estava quase toda feita. A chance de perder ficou entre 9% e 5%, e o pior cenário deixou de ser um desastre.
Acima de 20, cada nova ação reduziu pouquíssimo o risco. E cobrou caro em outra moeda: atenção. Quarenta empresas são quarenta balanços, quarenta réguas para acompanhar, quarenta decisões de saída.
Para a maioria das pessoas, a faixa de 10 a 20 ações pareceu o ponto em que a matemática e a vida real se encontram. Dá para acompanhar uma por uma. E a carteira não depende de um acerto só.
Quando a maré baixa, todos os barcos descem
Diversificar protege contra o problema de uma empresa. Não protege contra o problema de todas.
Em 2008, 92% das ações líquidas da B3 caíram no ano, e 79% caíram mais de 20%. Em 2024, 81% caíram. Quando a maré baixa, ter 10 ou 40 barcos não impede que todos desçam juntos. Para isso, a resposta não é mais uma ação. É uma regra para reduzir exposição quando o mercado inteiro vira.
Também vale lembrar que dez ações do mesmo setor não são dez ações. São uma aposta repetida dez vezes. Diversificar é misturar negócios que não caem pelos mesmos motivos.
E, por fim, esses números vêm de carteiras sorteadas e seguradas. Quem escolhe com critério e acompanha com regra pode ter resultados bem diferentes, para cima ou para baixo.
Diversificar para sobreviver ao erro
- Menos de 5 ações, para mim, é concentração demais para um erro só.
- Mais de 20, na maioria dos casos, é trabalho a mais por quase nenhuma proteção a mais.
- Antes de contar quantas ações tenho, eu olho de que setores elas são.
- E eu lembro que nenhum número de ações me protege de uma queda do mercado inteiro. Para isso, preciso de regra.
Diversificar é para sobreviver ao erro. Não é para fugir da escolha.
