Custos no backtest: o retorno que nunca chega
Nos 33 setups testados em 437 ações da B3, todos os que operam 5 vezes ou mais por ano ficaram abaixo do CDI. Custo e imposto não aparecem no gráfico do post, mas decidem o resultado.

A ideia
O gráfico do post sobe em escada. Lá embaixo, em letra miúda (quando aparece), está escrito "sem custos". É como anunciar o consumo de um carro descendo a serra em ponto morto.
Toda operação na bolsa custa. Há os emolumentos, a taxa cobrada pela B3. Há a corretagem (zero em muitas corretoras, mas não em todas). Há o spread: a diferença entre o melhor preço de compra e o melhor de venda, que você paga ao comprar a mercado. E, quando há lucro, há o imposto. Cada item parece pequeno. O que transforma o pequeno em grande é o giro, quantas vezes você entra e sai.
A conta de bolso cabe numa linha: custo por ano ≈ operações por ano × 2 × custo por ordem. O "× 2" existe porque cada operação é uma compra e uma venda.
O que testamos
A pesquisa do Quantor aplica 33 setups técnicos (regras de compra e venda com base no gráfico). Cada um roda sozinho, em cada uma das 437 ações que foram líquidas na B3 desde 2006, inclusive as que saíram da bolsa. Toda ordem paga 0,1%. Isso cobre emolumentos, corretagem baixa e metade do spread de uma ação líquida (que negocia bastante dinheiro por dia). Fora da posição, o dinheiro rende CDI, a renda fixa mais simples. Depois cruzamos quantas vezes cada setup opera por ano com quanto ele rendeu.

Olhe o lado direito: os pontos que operam muito ficam abaixo da linha azul, que é o CDI do período. Cada ponto é um setup. À esquerda, os que operam pouco; à direita, os que operam muito.
O padrão é claro. Todos os setups que operam 5 vezes ou mais por ano ficaram abaixo do CDI. Os três que mais giram (123 de compra, NR7 e Setup 9.1, com 10 a 11 operações por ano) renderam entre +2,2% e +4,4% ao ano. A régua mensal, que opera cerca de uma vez por ano, ficou em +9,6%. (A régua é uma linha que acompanha o preço usando os fechamentos dos últimos 5 meses.)
Não é só o custo que derruba esses setups. Regras que giram muito costumam reagir a ruído: o sobe e desce do dia a dia que não quer dizer nada. Mas o custo garante que o ruído sai caro.
Um caso: o IFR2
O IFR2 do Stormer é um dos setups mais conhecidos do Brasil. Ele compra quando um oscilador de 2 dias (um indicador que mede se a ação caiu demais em pouco tempo) diz que a ação caiu demais. E vende no repique, a pequena alta que vem depois. Em 437 ações, ele operou em média 6,2 vezes por ano e rendeu +8,9% ao ano. O CDI rendeu +10,5% no mesmo período.
Faça a conta de bolso: 6,2 × 2 × 0,1% ≈ 1,2 ponto por ano só de custo. E isso com o custo baixo de uma ação líquida. Mais revelador ainda: imagine que o dinheiro parado não rendesse nada. A parte que vem só dos dias comprado daria −0,8% ao ano. Quase todo o resultado do IFR2 é o CDI dos dias em que ele estava fora.
O que quase ninguém sabe. O mesmo setup pode mudar de sinal só com o custo. Pegue uma carteira dos 10 maiores IQ com trava. (IQ é uma nota que o Quantor dá para ações que sobem com constância, sem sustos; a trava do Ibovespa leva a carteira para o CDI quando o índice fecha o mês abaixo da própria média de 5 meses.) Revisar a cada 15 dias, em vez de todo mês, parecia melhor no passado. Na prova cega de 2017 a 2026 (anos guardados para conferir a regra depois), com custo de 0,25% por ordem, rendeu +21,1%, contra +22,7% da versão mensal. O ganho de reagir mais rápido não pagou as trocas extras.
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