PGBL e VGBL: o desconto no imposto que cobra fidelidade
A previdência tem a menor alíquota da renda fixa, 10% depois de dez anos, e a maior, 35%, antes de dois. Com o CDI real, o PGBL deixou R$ 50.758 onde a aplicação comum deixou R$ 39.153, e perdeu quando foi resgatado cedo.

Em 1 minuto
- No PGBL, quem declara no modelo completo deduz até 12% da renda tributável e paga imposto sobre tudo no resgate; no VGBL, não deduz nada e paga só sobre o ganho.
- Na tabela regressiva, cada aporte sai a 35% antes de dois anos no plano e a 10% depois de dez.
- Com o CDI real, o mesmo PGBL deixou R$ 11.605 a mais em dez anos e R$ 1.760 a menos resgatado em dois.
Ao fim desta aula você vai saber
- Escolher entre PGBL e VGBL pelo modelo da declaração
- Escolher a tabela regressiva ou a progressiva pelo uso do dinheiro
- Medir quanto a taxa do plano come do benefício fiscal
A tese: na previdência, o que decide o resultado é o calendário, não o fundo
A previdência privada tem má fama, muitas vezes merecida: planos caros, vendidos no balcão, com taxas que ninguém explica. Mas por trás deles há uma das regras de imposto mais generosas do Brasil, e ela é usada errado com a mesma frequência com que é ignorada.
O resultado de um PGBL ou de um VGBL depende menos do fundo escolhido do que de duas datas e duas escolhas: quando cada aporte entrou, quando ele vai sair, que tabela de imposto você escolheu e em que modelo você declara o imposto de renda. Com tudo a favor, a previdência ganha de quase qualquer aplicação. Com uma coisa contra, perde para um CDB.
Os dois planos, as duas tabelas
São dois produtos com lógicas opostas, pelas regras vigentes em outubro de 2026 (Lei 9.532/1997, Lei 11.053/2004 e o Perguntas e Respostas do IRPF 2026 da Receita Federal):
| PGBL | VGBL | |
|---|---|---|
| Na entrada | deduz o aporte da base do imposto, até 12% da renda tributável do ano | não deduz nada |
| Quem aproveita | quem declara no modelo completo e contribui para o INSS ou regime próprio | qualquer pessoa |
| No resgate, o imposto incide sobre | o valor todo (aporte + rendimento) | só o rendimento |
| Na declaração | aportes em Pagamentos Efetuados, código 36 | saldo em Bens e Direitos, grupo 99, código 06 |
A lógica do PGBL é simples: o dinheiro entra sem pagar imposto, então paga tudo na saída. É um adiamento, não um perdão.
A segunda escolha é a tabela de tributação do resgate. Desde a Lei 14.803/2024, ela pode ser feita até o primeiro resgate ou recebimento de benefício.
Tabela regressiva. A alíquota cai com o tempo que cada aporte ficou no plano, e é definitiva: não entra no ajuste anual.
| Tempo de cada aporte no plano | Alíquota |
|---|---|
| até 2 anos | 35% |
| de 2 a 4 anos | 30% |
| de 4 a 6 anos | 25% |
| de 6 a 8 anos | 20% |
| de 8 a 10 anos | 15% |
| acima de 10 anos | 10% |
Tabela progressiva. No resgate, 15% ficam retidos na fonte, e o valor entra na declaração anual somado aos outros rendimentos tributáveis, pela mesma tabela do salário, que vai de zero a 27,5%. O que foi retido a mais volta na restituição.
O mecanismo: três forças que fazem o PGBL ganhar ou perder
1. O imposto adiado fica rendendo para você. Quem está na faixa de 27,5% e põe R$ 24 mil num PGBL deixa de pagar R$ 6.600 de imposto naquele ano. Esse dinheiro, que iria para a Receita, fica aplicado e rende por dez anos.
2. A alíquota de saída pode ser menor que a de entrada. Na regressiva, depois de dez anos, sai a 10%. A pessoa economizou 27,5% na entrada e paga 10% na saída. Nenhuma outra aplicação tributada de renda fixa chega a 10%.
3. O prazo conta aporte por aporte. O dinheiro que entrou há doze anos sai a 10%. O que entrou no ano passado sai a 35%. Quem resgata tudo de uma vez paga uma mistura, e a mistura costuma ser bem mais alta do que se imagina.
O PGBL com o CDI real
Imagine alguém na faixa de 27,5%, que declara no completo e tem R$ 24 mil de renda para guardar, dentro do limite de 12%. Dois caminhos, com o CDI diário de setembro de 2016 a setembro de 2026 e um plano de taxa de administração de 0,5% ao ano:
- PGBL: os R$ 24 mil vão inteiros para o plano. Depois de dez anos, a regressiva cobra 10% sobre tudo.
- Fora: paga R$ 6.600 de imposto e aplica R$ 17.400 num título de 100% do CDI, sem taxa, com 15% sobre o ganho no fim.
| Resgate | PGBL (líquido) | Fora (líquido) | Diferença |
|---|---|---|---|
| Depois de 10 anos (set/2016 → set/2026) | R$ 50.758 | R$ 39.153 | +R$ 11.605 para o PGBL |
| Depois de 2 anos (out/2024 → set/2026), 35% | R$ 20.035 | R$ 21.795 | −R$ 1.760 para o PGBL |
Com o prazo a favor, o PGBL deixou 30% a mais. Com o prazo contra, o desconto de hoje virou multa.
A ideia: A mesma decisão, com o mesmo plano, deu resultados opostos só por causa da data de saída.
Onde o plano come a vantagem: taxas
A vantagem fiscal é grande, mas tem tamanho. Uma taxa de administração alta a consome, e se compõe como a taxa de qualquer fundo (aula 1 deste módulo). No mesmo exemplo de dez anos:
Antes de continuar: Com taxa de 0,5% ao ano, o PGBL deixou R$ 11.605 a mais que aplicar fora em dez anos. Se o plano cobrasse 3% ao ano, quanto sobraria dessa vantagem?
a) Uns R$ 9 mil · b) Uns R$ 5 mil · c) Quase nada
Resposta: Quase nada. R$ 341: com 3% de taxa, o PGBL deixou R$ 39.494 contra R$ 39.153 de quem ficou fora. Todo o benefício fiscal de dez anos sumiu na taxa.
| Taxa de administração do PGBL | Líquido em 10 anos | Contra "fora" (R$ 39.153) |
|---|---|---|
| 0,5% | R$ 50.758 | +R$ 11.605 |
| 1% | R$ 48.273 | +R$ 9.120 |
| 2% | R$ 43.664 | +R$ 4.511 |
| 3% | R$ 39.494 | +R$ 341 |
Com 3% ao ano, todo o benefício fiscal de dez anos sumiu. Há ainda a taxa de carregamento, um percentual cobrado sobre cada aporte (ou no resgate), que ainda existe em alguns planos. Com 2% de carregamento na entrada, o PGBL de 0,5% deixa R$ 49.742 em vez de R$ 50.758: R$ 1.016 a menos sem nenhum serviço em troca.
O VGBL: quando ele bate o título comum
Para quem está no modelo simplificado, ou já usou os 12% do PGBL, a pergunta é outra: o VGBL rende mais que um título comum? A vantagem dele é uma só: pagar 10% sobre o ganho, em vez de 15%, se o dinheiro ficar mais de dez anos. Com R$ 10 mil e o CDI real:
| R$ 10 mil | Título 100% CDI (15% no fim) | VGBL sem taxa | VGBL 0,2% | VGBL 0,5% |
|---|---|---|---|---|
| 10 anos (set/2016 → set/2026) | R$ 22.502 | R$ 23.237 | R$ 22.795 | R$ 22.149 |
| 20 anos (jan/2006 → set/2026) | R$ 67.080 | R$ 70.438 | R$ 67.626 | R$ 63.620 |
A vantagem fiscal do VGBL é pequena. Em dez anos, ela se perde com uma taxa acima de 0,34% ao ano; em vinte, acima de 0,24%, contra um título que nunca vencesse. Na vida real, títulos vencem: um título renovado a cada cinco anos, pagando 15% a cada vencimento, deixaria R$ 60.325 em vinte anos, e aí o VGBL de 0,5% passa à frente. A conta honesta é contra o que você de fato faria com o dinheiro.
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