Segurar para sempre tem um custo: vigiar a empresa
"Longo prazo sem vender" funciona — para quem acompanha o negócio, o setor e o cenário todo trimestre. Sem isso, é segurar a MGLU3 de 2020 até −88%.

A tese: "nunca vender" é uma estratégia com dever de casa
A frase mais repetida para quem começa é "invista no longo prazo e não venda". Ela tem uma parte verdadeira e uma parte que ninguém conta.
A parte verdadeira: empresas boas, compradas a preços razoáveis e mantidas por muitos anos, costumam compor riqueza, e o giro excessivo destrói retorno. A parte que ninguém conta: quem segura para sempre com sucesso não está parado. Está trocando uma regra de preço por uma regra de análise — acompanhando resultados, margens, dívida, setor, governança e cenário, todo trimestre, para saber se a razão pela qual comprou ainda existe.
Sem esse trabalho, "longo prazo" vira outra coisa: segurar o papel enquanto ele desaba e chamar isso de paciência.
O que os números mostram para quem segura sem regra
Voltamos aos 3.442 casos da B3 em que o papel já tinha subido 20% em 6 meses, e aplicamos a regra "não vender nada por 24 meses":
- Mediana de +15% em 24 meses, já com os dividendos. Abaixo dos cerca de 23% que o CDI pagou, na mediana, no mesmo prazo.
- Média de +45%, puxada pelos casos que explodiram (aula 3).
- Os 10% piores perderam 52% ou mais; os 5% piores, 69% ou mais.
- Menos da metade (46%) terminou acima do CDI dos mesmos 24 meses.
A média é boa. O caminho até ela é que é o problema: para ficar com a média, você precisa aguentar estar dentro dos casos que perdem 69% — e não saber, enquanto está dentro, se o seu é um dos que vão explodir ou um dos que vão desabar.

MGLU3, agosto de 2020. A mesma ação da aula anterior. De novo, +20% em 6 meses; o mercado inteiro apaixonado pelo varejo digital na pandemia. Quem segurou dali, 36 meses depois estava com −88%. A régua tinha saído em março de 2021, perto do topo. O juro subiu, o consumo esfriou, a concorrência apertou a margem — tudo isso apareceu nos balanços trimestre a trimestre, e no preço antes disso.
MGLU3, julho de 2019: +146% nos 12 meses seguintes e −69% em 36 meses. O mesmo investidor ficou rico e pobre no mesmo papel, sem vender uma ação.
LREN3, janeiro de 2020: a varejista de melhor gestão do setor. +20% em 6 meses, e 36 meses depois, −56%, mesmo com os dividendos. Não era fraude nem empresa ruim: era o ciclo do setor e o preço de entrada.
AMER3: a régua virou para baixo em março de 2021. O rombo contábil de R$ 20 bilhões só foi a público em 11 de janeiro de 2023 — com o papel já 91% abaixo. Quem "confiava na empresa e segurava no longo prazo" descobriu a notícia com quase nada sobrando.
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