Os que não pararam nos 20%
MGLU3 em 2016, PRIO3 em 2016, WEGE3 em 2019, PETR4 em 2003. Todas já tinham subido 20% quando alguém disse "realiza". O que veio depois paga a carteira de uma vida — e é por isso que vender tudo cedo sai tão caro.

A tese: a carteira é paga por poucos papéis, e você não sabe de antemão quais
Existe uma estatística que muda a forma como se pensa em venda, e ela vale para a bolsa brasileira, a americana e praticamente qualquer mercado estudado: a maior parte do ganho de longo prazo vem de uma minoria pequena de papéis que sobem absurdamente. Não de muitos papéis subindo um pouco. De poucos subindo muito.
Se isso é verdade — e os números abaixo mostram que é, na B3 —, então a pior regra de venda possível é aquela que te tira desses poucos cedo demais. E "vender quando sobe 20%" é exatamente essa regra.
Os casos: todos já tinham subido 20% quando alguém disse "realiza"
Todos os casos abaixo passaram pelo mesmo filtro da aula 1: o papel já tinha acumulado 20% ou mais em 6 meses. Era o momento em que o grupo de WhatsApp diria "bateu no teto".

MGLU3, março de 2016. O papel tinha subido 20% em 6 meses, depois de anos de queda. Nos 12 meses seguintes, subiu mais 505%. Em 36 meses, mais 4.708%. A régua entrou em fevereiro de 2016 e só saiu em novembro de 2017: +2.219% em 21 meses. Quem vendeu nos primeiros 20% ficou com 20%.

PRIO3, março de 2016. Uma petroleira pequena, negociando a centavos. Já tinha subido 20% em 6 meses. Nos 12 meses seguintes, +160%; em 36 meses, +947%; o valor máximo dos cinco anos seguintes foi 46 vezes o daquele mês. Virou uma das maiores empresas do Ibovespa.
WEGE3, junho de 2019. Uma das empresas mais caras da bolsa pelos múltiplos, desde sempre. Tinha subido 20% em 6 meses. Nos 12 meses seguintes, +140%.
PETR4, março de 2003. A estatal saindo da crise da eleição de 2002. Subiu 20% em 6 meses; nos 12 seguintes, +98% com os dividendos; em 36 meses, +333%; o máximo dos cinco anos seguintes ficou 855% acima.
BBAS3, abril de 2003: +460% em 36 meses. VALE3, junho de 2016: +248% em 36 meses. UNIP6, fevereiro de 2016: a régua entrou e ficou 31 meses dentro, saindo com +1.400%.
Nenhum desses movimentos foi previsto por quem mandava realizar. E nenhum deles parecia óbvio no mês do "+20%".
O mecanismo: acertar pouco e ganhar muito
A régua mensal, aplicada a todas as viradas para alta da B3 com preço acima de R$ 1, acertou só 35% das vezes. Dois terços das entradas deram prejuízo ou zero. Mesmo assim, o método ganhou dinheiro no total. Por quê?
- Ganho médio quando acertou: +47,4%.
- Perda média quando errou: −9,7%.
O acerto é baixo, mas cada acerto vale quase cinco erros. Isso é o que os operadores chamam de assimetria: você perde pouco muitas vezes e ganha muito poucas vezes.
E a assimetria é ainda mais concentrada do que parece. Somando o ganho líquido de todas as operações da régua, os 5% melhores trades respondem por 103% do total. Traduzindo: tire esses 5% e o resto das operações, somado, empata ou dá um pequeno prejuízo. Todo o resultado do método vem de um punhado de casos como MGLU3, PRIO3 e UNIP6.
Agora junte com a aula 1: 9% dos papéis que já tinham subido 20% mais que dobraram no ano seguinte, e 18% dobraram em 24 meses. É esse grupo que carrega a conta. Uma regra de venda que corta todo mundo nos 20% corta, junto, os 5% que pagam tudo.
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