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Quando vender uma ação · Aula 2 de 8

O peixe: cabeça e rabo ficam para o mercado

Nenhum método sério compra no fundo nem vende no topo. Quem segue tendência come o meio do peixe — e nos movimentos grandes da B3, o meio foi 48% do caminho inteiro.

por Vinícius Rosa6 min de leituraatualizada em
O peixe: cabeça e rabo ficam para o mercado

A tese: quem promete o topo está vendendo outra coisa

Tem um ditado antigo entre operadores: "quando você come um peixe, deixa a cabeça e o rabo." No mercado, a cabeça é o começo do movimento — o fundo, quando ninguém acredita e o preço ainda parece estar caindo. O rabo é o fim — o topo, quando todo mundo acredita e o preço parece que nunca mais vai cair. O meio é a parte em que a tendência está clara o suficiente para você enxergar, e ainda tem espaço para andar.

O peixe: cabeça e rabo ficam para o mercado; a tendência come o meio

Qualquer método que siga tendência come o meio do peixe. Nenhum come a cabeça ou o rabo. Isso não é defeito de um método específico: é a definição de seguir tendência. Para saber que uma alta começou, o preço precisa já ter subido um pouco. Para saber que ela acabou, o preço precisa já ter caído um pouco. A régua mensal do Quantor, qualquer média móvel, qualquer stop móvel — todos pagam esse pedágio.

Quem promete comprar no fundo e vender no topo está vendendo previsão. E previsão de topo, repetida muitas vezes, é o jeito mais eficiente que existe de perder o meio do peixe tentando pegar a cabeça.

Quanto custa a cabeça e quanto custa o rabo

Medimos isso no arquivo mensal da B3. Pegamos todas as viradas da régua para alta (o mês em que o fechamento cruzou acima da média exponencial de 5 meses) que viraram movimentos de verdade — 30% ou mais de alta depois da entrada. Foram 1.991 casos, com os preços ajustados por proventos. Para cada um:

  • A cabeça: na mediana, a régua entrou 21% acima do fundo dos 6 meses anteriores. Esses 21% ficaram para quem comprou no fundo — por sorte ou por coragem.
  • O rabo: na mediana, a régua saiu 16% abaixo do topo que o papel fez dentro da tendência. Esses 16% ficaram para quem vendeu no topo.
  • O meio: do caminho inteiro, do fundo ao topo, a régua ficou com 48% (medido em escala logarítmica, a forma honesta de comparar variações grandes).

Parece pouco? Olhe um caso real, desenhado inteiro:

WEGE3 entre 2018 e 2021: cabeça, meio e rabo

Os meses em verde são os meses acima da régua; em vermelho, abaixo. A faixa amarela da esquerda é a cabeça; a da direita, o rabo. Preços ajustados por proventos, como na tela.

A WEGE3 fez o fundo em junho de 2018, e a régua só confirmou a alta em abril de 2019, 16% acima dele. O papel subiu até janeiro de 2021, e a régua só saiu em março de 2021, 11% abaixo do topo. Nos preços ajustados da tela: fundo de R$ 6,94, entrada a R$ 8,08, topo de R$ 37,05 e saída a R$ 33,13.

No meio teve um tropeço: em março de 2020, no pânico da pandemia, o mês fechou abaixo da régua a R$ 14,79, e ela saiu; em abril voltou, a R$ 17,60, 19% mais caro. Custou um pedaço — é o preço de uma regra que não tem opinião. Somando as duas pernas, quem seguiu a régua levou +245% em 23 meses. Quem segurou sem regra do começo ao fim levou +310%, mas quem tentou adivinhar o topo provavelmente saiu muito antes: o papel "estava caro" o tempo todo.

O mecanismo: por que o meio é a única parte previsível

O começo e o fim de uma tendência têm uma coisa em comum: são os momentos de maior discordância. No fundo, uns acham que acabou e outros acham que ainda cai mais; o preço oscila forte nos dois sentidos. No topo, idem. Qualquer sinal que você use nesses momentos é mais ruído do que informação.

No meio, a discordância diminui. O dinheiro institucional — que não consegue comprar um bilhão de uma vez e entra em parcelas ao longo de meses — está do mesmo lado. É por isso que a tendência persiste: a informação se espalha devagar, e o preço anda enquanto ela se espalha. É esse o fenômeno que a pesquisa acadêmica chama de momentum, documentado em dezenas de mercados desde os anos 1990. O meio do peixe é justamente onde ele mora.

A dor de verdade: ver o lucro evaporar no rabo

Aqui mora a parte que quase ninguém aguenta. Os 16% do rabo não são abstratos: você vê o dinheiro ir embora. No topo, você "tinha" +359% na WEGE3, e a régua te manda esperar o mês fechar. Dois meses depois, ela vira, e você sai com +310% na perna. Você ganhou muito, mas sente que perdeu 11% do topo.

Nos casos em que o papel chegou a subir 20% no caminho, a régua devolveu, na mediana, 15% do topo até a saída. É o custo fixo do método. E é exatamente aí que a pessoa desiste da regra — "da próxima vez eu vendo antes" — e passa a vender cedo em todas as operações, perdendo os meios de peixe gigantes da aula seguinte.

A troca é esta: você aceita devolver o rabo em todas as operações para ter certeza de ficar com o meio nas poucas que viram peixe grande.

Onde a analogia quebra

Peixe pequeno não tem meio. Quando o movimento é curto, a cabeça e o rabo somados são maiores que o peixe: a régua entra depois do fundo, o papel sobe pouco, vira, e a régua sai no prejuízo. Isso acontece na maioria das viradas — a régua acerta só cerca de um terço das entradas (35%). Ela ganha no total porque os acertos são muito maiores que os erros (a aula 5 mostra a conta).

Papel que anda de lado não é peixe. Em papéis que passam anos oscilando em torno da própria média, sem tendência, qualquer regra de tendência vira serrote: entra, sai, entra, sai. O bloco "Seguir a régua funcionou?", na Técnica da tela Analisar papel, mostra, papel por papel, se a régua funcionou ali no passado.

A versão prática

1. Pare de tentar comer a cabeça. Comprar "porque caiu muito" é tentar pegar o fundo. Às vezes dá certo; em média, é pegar faca caindo.

2. Aceite devolver o rabo. Decida antes que vai devolver uma parte do topo. Se você não aceita isso, nenhuma regra de tendência serve para você — e tudo bem, a aula 6 mostra alternativas.

3. Meça o seu peixe, não o do vizinho. O custo da cabeça e do rabo depende da volatilidade do papel. Em papel que oscila 60% ao ano, 16% do topo é um mês ruim. Em papel que oscila 20%, é um susto.

4. Não confunda "estar caro" com "ter acabado". A WEGE3 estava cara em todos os meses de 2019 e 2020. Preço esticado é informação para quem vai comprar agora, não ordem de venda para quem já está dentro.

O que o Quantor faz com isso

A régua, na Técnica da tela Analisar papel, é a faca que separa o meio do peixe: ela diz de que lado o papel fechou o mês e em que preço ele vira. O bloco "Seguir a régua funcionou?" roda esse corte no histórico do próprio papel e mostra quanto ela entregou contra simplesmente segurar — e qual foi a pior queda em cada caso. A cabeça e o rabo continuam sendo do mercado. O meio é seu, se você tiver regra para ficar nele.

O fundo e o topo são do mercado. O meio é de quem tem paciência.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.

Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.