Quem sabe, age primeiro
A informação sobre uma empresa não chega a todo mundo ao mesmo tempo. Quem está mais perto age antes, o dinheiro grande entra em parcelas, e o preço registra tudo isso meses antes do balanço. É o que O Investidor de Fluxo chama de atraso das informações.

A ideia: a informação chega em camadas
Imagine uma siderúrgica. Muito antes de o balanço mostrar que as vendas vão mal, alguém já percebeu: o distribuidor que está com o estoque parado, a montadora que reduziu o pedido, o analista que visita a fábrica e conversa com o setor. Cada um tem um pedaço da história. Nenhum tem a história inteira.
Quando essas pessoas (ou os fundos que ouvem essas pessoas) começam a vender, o preço cai. O balanço só vai contar o que aconteceu meses depois. O preço é o lugar onde os pedaços espalhados de informação se juntam. Por isso ele chega antes: não porque alguém sabe tudo, mas porque muita gente sabe um pouco, e age.
Essa ideia, de que o preço junta informação que está espalhada entre muitas pessoas, foi descrita pelo economista Friedrich Hayek num ensaio de 1945. O professor Vinícius Rosa a aplica ao dia a dia da bolsa em dois capítulos de O Investidor de Fluxo.
O atraso das informações, segundo o livro
No capítulo "O atraso das informações", o livro parte de um retrato incômodo: a pessoa física costuma estudar balanços de trimestres passados e reagir a notícias que já foram negociadas, enquanto os grandes investidores trabalham com projeções e já se posicionaram. Em essência, o investidor comum avalia o presente com dados do passado, num mercado que se move pelo futuro.
O livro dá um exemplo concreto: o balanço do primeiro trimestre de 2021 da Usiminas foi divulgado em 23 de abril de 2021 e tratava de janeiro a março. Quando você usa o lucro de 12 meses, o atraso fica ainda maior, porque a soma inclui trimestres de mais de um ano antes.
E o livro lista três vantagens de quem age primeiro: o contato direto com as empresas (reuniões, apresentações), equipes de análise trabalhando o tempo todo em cenários de juros, setor e regulação, e uma rede de contatos que faz a informação circular mais rápido. Não é informação secreta: usar informação privilegiada e não pública é crime. É análise, proximidade e escala.
O que o preço fez com a Usiminas

O ponto é o fechamento de abril de 2021 (a linha mostra só o fim de cada trimestre). A linha tracejada é a virada da régua para baixa.
Os números da própria série contam o resto. Em abril de 2021, o mês em que saiu o balanço do exemplo, a USIM5 fechou a R$ 22,45: o topo mensal do ciclo. Dali em diante, o preço caiu. A régua virou para baixa em agosto de 2021, a R$ 18,49.
O balanço foi para o outro lado. O lucro de 12 meses, que era de R$ 2,9 bilhões no 1T21, subiu trimestre após trimestre até R$ 10,1 bilhões no 1T22, o maior do ciclo. Nesse trimestre, o preço estava em R$ 13,97, 38% abaixo do topo. Um ano depois, o lucro de 12 meses tinha caído para R$ 1,4 bilhão.
Quem leu os balanços de 2021 viu uma empresa lucrando como nunca. Quem leu o preço viu o dinheiro saindo desde abril.
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