O múltiplo que mente no ciclo
O P/L divide o preço de hoje pelo lucro de ontem. Como o preço já descontou o futuro, o múltiplo parece barato no topo do lucro e caro, ou nem existe, no fundo. Na CSNA3 de 2021, o P/L de 2,4 veio com o preço 42% abaixo do topo, e um ano depois o preço tinha caído mais 56%.

A ideia: dois relógios na mesma conta
O P/L é o indicador mais citado da bolsa: o preço da ação dividido pelo lucro por ação dos últimos 12 meses. Ele responde "quantos anos de lucro eu pago?". P/L 5 parece barato; P/L 30, caro.
O problema está na própria conta. Em cima, o preço, que já tenta descontar os próximos trimestres. Embaixo, o lucro de 12 meses, que conta os quatro trimestres que passaram. Você divide o futuro pelo passado. Na maior parte do tempo, isso é só impreciso. Nas empresas de ciclo (siderurgia, mineração, petróleo, construção), é pior: no topo do lucro, o preço já caiu e o P/L fica "baratíssimo"; no fundo do lucro, o preço já subiu e o P/L fica "caríssimo" ou nem existe.
A trilha Fundamentos sem armadilha mostra esse efeito na VALE3 de 2021 (aula 9, "O problema do P/L baixo em commodities"). Aqui vamos ver por que ele acontece, usando o que você aprendeu nas aulas anteriores: o preço chega antes.
CSNA3: o ciclo inteiro em um gráfico

Barras: lucro de 12 meses. Linha: preço no fim do trimestre, só preço, sem dividendos. O P/L é aproximado, com o número de ações de hoje.
Acompanhe três fotos da mesma empresa.
2T20, o fundo. Com a pandemia, a CSNA3 teve prejuízo de 12 meses de R$ 0,60 bilhão. Com prejuízo, o P/L perde o sentido; nas telas, ele aparece negativo, o que costuma afastar qualquer um. Mas o preço, em R$ 10,68, já tinha subido 53% sobre o trimestre anterior (R$ 6,98). Um ano depois, no 2T21, o lucro de 12 meses era de R$ 16,4 bilhões e o preço, R$ 43,99: +312% desde aquele "múltiplo impossível".
3T21, o topo do lucro. O lucro de 12 meses ficou em R$ 16,4 bilhões pelo segundo trimestre seguido. Com o preço a R$ 28,73, o P/L aproximado era de 2,4: a ação custava menos de dois anos e meio de lucro. Parecia a pechincha do ano. Só que o preço já estava 42% abaixo do topo de abril de 2021 (R$ 49,19). A régua tinha virado para baixa em agosto.
3T22, um ano depois. Preço a R$ 12,72: −56% desde o P/L de 2,4. E o P/L tinha subido para 5,8. A ação ficou "mais cara" enquanto caía pela metade, porque o lucro caiu mais rápido que o preço.
Faça a conta do P/L de 2,4: R$ 28,73 × 1,372 bilhão de ações ÷ R$ 16,4 bilhões de lucro = 2,4. O número está certo. O que engana é o que ele mede: um lucro que já tinha passado.
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