Quanto tempo o preço se adianta
Medimos em 65 ações líquidas da B3, de 2012 a 2026. Na média, o preço anda de 3 a 6 meses na frente do lucro de 12 meses. Empresa por empresa, a vantagem aparece em 45 de 65. Caso a caso, é bem mais bagunçado.

A ideia: medir antes de acreditar
A aula 1 mostrou dois casos em que o preço virou antes do lucro. Dois casos escolhidos não provam nada: dá para achar dois exemplos de qualquer coisa. A pergunta honesta é outra. Em muitas empresas e muitos anos, o preço vem mesmo antes? Quanto antes? E com que frequência ele chega junto ou depois?
Fizemos a conta. A resposta curta: na média, o preço anda de 3 a 6 meses na frente do lucro de 12 meses, contando até o fim do trimestre. Como o balanço sai semanas depois, a vantagem sobre quem espera o release é ainda maior. Mas é uma média. Caso a caso, a ordem varia bastante.
O método, em quatro linhas
- Amostra: 65 ações líquidas da B3 (mais de R$ 20 milhões negociados por dia) com pelo menos seis anos de balanços trimestrais, de 2012 a 2026. Ficaram de fora papéis com série de preço quebrada e empresas com histórico curto.
- Lucro: o lucro de 12 meses (soma dos quatro últimos trimestres), da DRE trimestral. Para cada trimestre, quanto ele mudou em um ano.
- Preço: o fechamento mensal no fim de cada trimestre, só preço, sem dividendos. Para cada trimestre, quanto ele andou em 12 meses.
- A comparação: a correlação, um número de −1 a +1 que mede se duas coisas andam juntas (+1: sempre juntas; 0: sem relação). Calculamos a correlação entre o preço de um trimestre e o lucro do mesmo trimestre, do seguinte, do outro, e assim por diante, para frente e para trás.
Se o preço vem antes, a correlação deve ser maior quando o preço é comparado com o lucro que ainda vai sair.
O resultado: a correlação mora um trimestre à frente

À esquerda, a correlação média das 65 empresas para cada defasagem: à direita do zero, o preço vem antes. À direita, em quantas empresas a correlação foi maior com o preço antes, junto ou depois.
Na média das 65 empresas:
- preço comparado com o lucro do mesmo trimestre: 0,24;
- com o lucro de um trimestre depois: 0,29, o ponto mais alto;
- com o lucro de dois trimestres depois: 0,27;
- com o lucro de um trimestre antes: só 0,15.
A curva é torta para a direita: o preço de hoje "conversa" mais com o lucro dos próximos 3 a 6 meses do que com o lucro que já saiu. Depois de cinco trimestres, a ligação some.
Empresa por empresa, o preço veio antes em 45 das 65, e em 30 delas a melhor defasagem foi de um ou dois trimestres. Em 6, preço e lucro andaram juntos. Em 14, o lucro virou primeiro.
Repare no tamanho: 0,29 é uma correlação moderada. O preço se mexe por muitas outras coisas (juros, dólar, humor do mercado). A antecipação é uma tendência forte na média, não um relógio.
A mesma coisa, sem estatística
A correlação é abstrata. Uma forma mais direta de ver: separe os trimestres pelo que o preço fez nos 12 meses anteriores e conte em quantos o lucro de 12 meses estava maior dois trimestres depois.

3.239 trimestres de 65 empresas. A linha tracejada é a média de todos.
Quando o preço tinha subido 30% ou mais, o lucro estava maior seis meses depois em 71,3% dos casos. Quando tinha caído 30% ou mais, em só 40,7%. A escada é bem comportada: quanto mais o preço subiu, mais vezes o lucro veio atrás. O preço não adivinha cada balanço, mas inclina as chances.
Quatro ciclos, de perto

Em cada painel, a linha tracejada é a virada da régua para baixa e o círculo é o trimestre de maior lucro de 12 meses.
Na VALE3, a régua virou para baixa em agosto de 2021, e o lucro de 12 meses só fez o topo no 4T21: quatro meses depois, contando até o fim do trimestre. Na CYRE3, quatro meses. Na MRVE3, oito, e o prejuízo de 12 meses chegou no 4T22. Na GGBR4, dez meses, mas com idas e vindas: a régua virou em agosto de 2021 e mudou de lado várias vezes até meados de 2022.
E lembre que o topo do lucro só fica visível quando o balanço seguinte mostra a queda, alguns meses mais tarde ainda.
Onde engana
Topo a topo, a conta fica bagunçada. Tentamos também casar cada topo e fundo do lucro com o topo ou fundo do preço mais próximo (até 18 meses antes ou depois). Em 288 pares, o preço veio antes em 166 (58%), junto em 11 e depois em 111, com mediana de 2,5 meses. Mais da metade, longe de sempre. Preço e lucro fazem vários topos pequenos, e casar o topo certo é difícil.
A amostra tem vieses. São empresas que sobreviveram e continuam líquidas hoje. Algumas são parentes (VALE3 e BRAP4, GGBR4 e GOAU4). O preço não inclui dividendos.
Correlação não é causa. O preço não faz o lucro. Os dois reagem às mesmas coisas; o preço reage primeiro porque é negociado todo dia.
Na prática
1. Espere meses, não semanas. A vantagem do preço sobre o balanço é de um ou dois trimestres na média.
2. Dê peso ao movimento grande. Uma alta ou queda de 30% em 12 meses diz mais sobre o lucro que vem do que uma oscilação de 5%.
3. Não trate a média como regra do seu papel. Em 14 das 65 empresas, o lucro virou primeiro.
4. Conte o atraso do balanço. Trimestre fechado não é trimestre publicado.
No Quantor
No bloco Preço × lucro, em Fundamentos da tela Analisar papel, a correlação do período e os últimos 8 trimestres ("na mesma direção em X de 8") mostram, papel por papel, se preço e lucro têm andado juntos. No período 10A dá para procurar, como nos quatro painéis desta aula, quem virou primeiro.
O preço não sabe o próximo balanço; ele só costuma chegar lá antes.
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