O preço chega antes do balanço
O lucro que você lê no balanço é o retrovisor; o preço é o para-brisa. Na MGLU3, o preço caiu 71% com o lucro de 12 meses ainda positivo. Na PETR4 de 2016, subiu 62% com o prejuízo piorando.

A ideia: o retrovisor e o para-brisa
Você abre uma ação, vê que o lucro dos últimos 12 meses está positivo e crescendo, e o preço está caindo mês após mês. A primeira reação é achar que o mercado está errado. A segunda, que é uma oportunidade.
Quase sempre, é o contrário. O balanço conta o que aconteceu num trimestre que já acabou, e chega às suas mãos semanas depois. O preço é o resultado das compras e vendas de hoje, feitas por gente que está tentando adivinhar os próximos trimestres. O lucro é o retrovisor; o preço é o para-brisa. Por isso o preço costuma virar antes do balanço.
Esta trilha é a ponte entre ler o preço (as trilhas da fase 2) e ler a empresa (as próximas). Ela defende uma tese que o professor Vinícius Rosa repete no livro O Investidor de Fluxo: o mercado tende a descontar o valor de uma empresa antes de ele aparecer no balanço. Olhar só os múltiplos é útil para entender o negócio, mas perigoso para decidir, porque você reage a um retrato velho.
O caso MGLU3: o preço desabou com o lucro no azul
O gráfico abaixo é o mesmo bloco "Preço × lucro" de Fundamentos, na tela Analisar papel: as barras são o lucro acumulado em 12 meses (a soma dos quatro últimos trimestres; verde é lucro, vermelho é prejuízo) e a linha é o preço no fim de cada trimestre.

Barras: lucro de 12 meses (eixo esquerdo, R$ bi). Linha: preço no fim do trimestre (eixo direito, ajustado pelo grupamento; só preço, sem dividendos). A linha tracejada é o mês em que a régua virou.
Siga a ordem dos acontecimentos:
- Janeiro de 2021: o preço fecha o mês no topo, R$ 240,67 (ajustado).
- Março de 2021: o mês fecha abaixo da média dos últimos 5 meses e a régua vira para baixa, a R$ 192,76, 20% abaixo do topo. A régua é a regra da fase 2: fechamento mensal acima da média exponencial de 5 meses é alta; abaixo, baixa.
- Junho de 2021 (2T21): o lucro de 12 meses chega ao maior valor do ciclo, R$ 0,78 bilhão. Quem olhava o balanço via uma empresa lucrando o dobro do fim de 2020. O preço já estava 16% abaixo do topo.
- Dezembro de 2021 (4T21): lucro de 12 meses ainda positivo, R$ 0,59 bilhão. O preço: R$ 68,76, 71% abaixo do topo.
- Junho de 2022 (2T22): aparece o primeiro prejuízo de 12 meses, −R$ 0,06 bilhão. O preço já tinha caído 91%.
Quem esperou o balanço confirmar a piora ficou com menos de um décimo do valor do topo. Quem seguiu a régua saiu 20% abaixo do topo. Não é que a régua soubesse algo sobre as vendas da empresa: ela só registrou que o dinheiro estava saindo.
O mesmo filme ao contrário: PETR4 em 2016
A antecipação também funciona para cima, e aí ela dói de outro jeito: você vê a ação subir e acha que "não faz sentido".

O fundo do preço veio em janeiro de 2016. O fundo do lucro de 12 meses, no trimestre encerrado oito meses depois.
Em janeiro de 2016, a PETR4 fechou o mês a R$ 4,84. Em março, a régua virou para alta, a R$ 8,35. O balanço, nesse tempo todo, só piorava: o prejuízo de 12 meses foi de −R$ 35,2 bilhões no fim de 2015 para −R$ 51,4 bilhões no 3T16, o pior da série. No fim desse trimestre, o preço estava em R$ 13,57, 62% acima da virada da régua, e o balanço ainda nem tinha sido publicado. O lucro de 12 meses só voltou ao positivo no 3T17.
Quem esperou "o balanço melhorar" para comprar pagou, no mínimo, 62% a mais do que quem seguiu a régua. E quem olhava o P/L (preço dividido pelo lucro) não tinha nem o que olhar: com prejuízo, o múltiplo não existe.
Por que o balanço chega atrasado
O livro dá uma conta simples. O balanço de um trimestre fala de três meses que já passaram e é publicado semanas depois do fim deles. O lucro de 12 meses soma quatro trimestres, então o trimestre mais velho da soma tem mais de um ano quando você o lê. Somando tudo, o número que você usa pode estar olhando para uma realidade de mais de um ano atrás.
O preço não espera. Ele se move a cada negócio, feito por quem está estimando o próximo trimestre, não relendo o último.
Onde engana
O preço nem sempre vira antes. Em média, sim; em cada caso, não. A aula 2 mede isso em 65 empresas e mostra quanto de vantagem o preço tem, e com que frequência ele chega junto ou depois.
O preço também erra. Ele exagera para cima e para baixo, e às vezes aposta numa virada que não vem. A aula 6 é sobre isso.
A régua pisca. Na PETR4, ela virou para alta em março de 2016, voltou para baixa em maio (a R$ 8,04) e para alta de novo em junho. É o custo de uma regra que só olha o fechamento do mês.
Na prática
1. Leia o lucro como passado. Lucro de 12 meses recorde diz como a empresa foi, não como vai.
2. Compare as duas linhas antes de concluir. Lucro subindo com preço caindo é um aviso, não uma pechincha: alguém está vendendo por um motivo que ainda não chegou ao balanço.
3. Use a régua como o para-brisa. Ela muda no fechamento do mês, sem esperar o próximo release.
4. Guarde o fundamento para entender o porquê. A aula 5 mostra como juntar os dois.
No Quantor
Em Fundamentos, na tela Analisar papel, o bloco Preço × lucro mostra exatamente o gráfico desta aula para qualquer ação, com os períodos 3A, 5A, 10A e Máx, a correlação entre as duas linhas e quantos dos últimos 8 trimestres andaram na mesma direção. A régua aparece no Resumo, e o preço em que ela vira, no bloco "A régua" da Técnica. Abra a MGLU3 no período 10A e refaça o caminho.
Quando o balanço confirma, o preço já foi.
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