O plano que sobrevive: teste a carteira antes de precisar dela
Quem descobre a própria tolerância a risco no meio de uma queda de 47% descobre tarde, e paga a descoberta vendendo no fundo. O teste se faz antes, no papel, com crises que já aconteceram.

A ideia: o plano é feito para o cenário que te quebra
Carteira quase nunca quebra por render pouco. Quebra por venda forçada no pior mês: a reserva estava investida em algo que caiu junto, havia dinheiro emprestado na operação, ou tudo estava concentrado num papel que levou anos para voltar.
Esta é a última aula da trilha, e ela junta as anteriores: reserva, prazo, taxa de retirada, ordem dos anos, dividendos. O teste de estresse vem antes da escolha dos ativos, não depois. Você pega a carteira de hoje, aplica crises que já aconteceram e olha o que sobra. Se o número incomoda no papel, com café na mão, ele daria pânico às 11h de uma terça-feira de circuit breaker.
Três crises reais, com número em cima
Vamos usar uma carteira de R$ 600 mil em duas versões: 60/40 (60% em bolsa, 40% em renda fixa) e 30/70. A bolsa é o Ibovespa; a renda fixa rende a Selic. A conta é direta. Em 2008, entre 20 de maio e 27 de outubro, o Ibovespa caiu 60% e a Selic rendeu 6,4%. Na 60/40:
0,6 × (−60%) + 0,4 × (+6,4%) = −33,4%, ou R$ 200 mil a menos.
Fazendo o mesmo para as três crises:

Cada barra é a perda da carteira na crise, em % e em reais. A versão "com régua" aplica a régua mensal à parte de bolsa: abaixo da média, o dinheiro vai para a Selic.
2008: a queda longa. O Ibovespa caiu 60% em cinco meses. A 60/40 perdeu R$ 200 mil; a 30/70, R$ 81 mil. A régua do Ibovespa virou para baixa no fechamento de junho, quando o índice estava 11,6% abaixo do topo. A 60/40 com régua perdeu 2,4%, ou R$ 14 mil.
2015: a crise sem manchete de crash. A bolsa caiu 13% no ano, o dólar subiu 47% e o IPCA foi de 10,67%. A Selic rendeu 13,3%, mas a inflação comeu quase tudo. Descontada a inflação, a 60/40 perdeu 12,1% e a 30/70, 4,8%. É o cenário que quase ninguém testa, porque não teve um dia de pânico: teve um ano inteiro perdendo poder de compra.
2020: o choque rápido. De 23 de janeiro a 23 de março, o Ibovespa caiu 47%. A 60/40 perdeu 27,8%; a 30/70, 13,6%. A régua virou para baixa no fechamento de fevereiro, com o índice 12,8% abaixo do topo, e a 60/40 com régua perdeu 7,3%.
Duas honestidades sobre a régua. Ela funcionou bem nessas duas quedas porque ambas começaram com um mês ruim antes do pior. E ela custa dinheiro em mercado lateral, quando o preço vai e volta e a régua entra e sai. Não é proteção garantida; é uma regra que, no histórico, reduziu as quedas longas.
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