A regra dos 4% é uma conta americana
Quanto dá para tirar por ano do que você juntou depende do juro real que você consegue travar. Hoje, no Brasil, ele está perto de 7,6%. Em 2020, estava em 3,4%.

A ideia: a pergunta de quem já juntou
Um dia a pergunta muda. Não é mais "quanto investir por mês", é "quanto posso tirar por ano sem o dinheiro acabar". A resposta mais famosa é a regra dos 4%: tire 4% do patrimônio no primeiro ano e corrija esse valor pela inflação nos anos seguintes.
Ela vem de um estudo de William Bengen, de 1994. Em essência, ele testou todas as janelas de 30 anos do mercado americano, com uma carteira de 50% a 60% em ações, e viu que 4% ao ano sobreviveram a todas, inclusive às de quem se aposentou em 1929 e em 1966.
O número viajou; a conta que o gerou, não. A regra dos 4% é a resposta para um país onde o título público paga perto de 2% acima da inflação. No Brasil, o juro real é outro, e muda de patamar de tempos em tempos.
A peça que decide tudo: o juro real
Juro real é quanto um investimento rende acima da inflação. Se você recebe 12% num ano em que os preços subiram 4%, o seu ganho de poder de compra foi perto de 7,7%.
O Tesouro IPCA+ é o título que contrata exatamente isso: paga a inflação (o IPCA) mais uma taxa fixa. Se você leva até o vencimento, recebe essa taxa, aconteça o que acontecer com a bolsa. E ela mudou muito nos últimos anos:

A linha tracejada é a retirada de 4%. Quando o juro real passa dela, o título paga o saque e ainda sobra; quando fica abaixo, o saque come o capital.
Nos EUA de Bengen, com 2% de juro real, sacar 4% consumia principal todo ano, e a diferença tinha de vir da bolsa. No Brasil de setembro de 2026, com o Tesouro IPCA+ 2035 pagando 7,57% ao ano acima da inflação (taxa de compra em 18/09/2026), o título sozinho cobre o saque com folga. Mas em janeiro de 2020 o mesmo título pagava 3,37%, e a conta brasileira virava a americana.
A conta, passo a passo
Vamos simular R$ 1 milhão por 30 anos, tudo em reais de hoje. Duas hipóteses simples, ditas às claras: inflação de 4% ao ano e imposto de renda de 15% cobrado todo ano sobre o rendimento (na vida real o IR do Tesouro é cobrado no resgate, mas a ordem de grandeza é a mesma).
Com 7,57% de juro real:
- Rendimento nominal: 1,0757 × 1,04 − 1 = 11,87% ao ano.
- Depois do IR de 15%: 11,87% × 0,85 = 10,09%.
- Tirando a inflação: 1,1009 ÷ 1,04 − 1 = 5,86% reais líquidos.
Repare no passo 2: o imposto incide também sobre a parte do rendimento que só repõe a inflação. Por isso os 7,57% viram 5,86%. Com 3,37% de juro real, a mesma conta dá 2,29% reais líquidos.
Agora é só sacar todo ano e deixar o resto render:

Valores em reais de hoje. As duas linhas de cima usam o juro real de setembro de 2026; as duas de baixo, o de janeiro de 2020.
Com o juro de hoje, sacar R$ 40 mil por ano (os 4%) faz o capital crescer até R$ 2,25 milhões no ano 30. Sacar R$ 50 mil (5%) ainda deixa R$ 1,44 milhão. Com o juro de 2020, os mesmos R$ 40 mil deixam R$ 0,23 milhão, e R$ 50 mil acabam com o dinheiro no ano 27.
A diferença entre 7,6% e 3,4% de juro real não é de grau, é de método. Com o primeiro, a renda fixa sustenta o plano sozinha. Com o segundo, você precisa de bolsa, e volta a depender da ordem em que os anos bons e ruins aparecem, que é o assunto da próxima aula.
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