O ganho mora no overnight, não no pregão
Na pesquisa do Quantor no mini índice, 88% da alta de 2,6 anos aconteceu com a bolsa fechada. Refizemos a conta no BOVA11, de 2010 a 2026, e o padrão ficou ainda mais forte. O day trader, que zera antes de dormir, fica de fora justamente dessa parte.

A ideia: o dinheiro trabalha enquanto a bolsa dorme
Na aula 1, separamos o dia em duas partes: o pregão, com a bolsa aberta, e a noite, do fechamento até a abertura seguinte. A pergunta agora é simples: em qual das duas o índice subiu?
A intuição diz que é no pregão. É quando tudo acontece: telas piscando, notícias, volume. A noite parece parada.
Os dados dizem o contrário. No índice brasileiro, quase todo o ganho aconteceu com a bolsa fechada, e essa é exatamente a janela que o day trader deixa de fora.
A pesquisa do Quantor no mini índice
O professor Vinícius Rosa passou meses testando o mini índice (o WIN, contrato futuro que acompanha o Ibovespa) com candles de hora em hora e de 5 minutos. Em 659 pregões, de novembro de 2023 a julho de 2026, separando cada dia em noite e pregão:
| Janela | Total no período | Média por dia | Estatística t |
|---|---|---|---|
| Noite (fechamento → abertura) | +43.445 pontos (88%) | +66 pontos | 2,27 |
| Pregão (abertura → fechamento) | +6.015 pontos (12%) | +9 pontos | 0,16 |
A estatística t responde uma pergunta: a média é grande perto do barulho do dia a dia? Acima de 2, é difícil que seja acaso. Perto de zero, a média se confunde com o ruído. A noite deu 2,27. O pregão deu 0,16: zero estatístico. No gráfico da pesquisa, a linha da noite sobe quase como uma escada; a do pregão é uma montanha-russa, cai 16 mil pontos, sobe até 38 mil e devolve quase tudo. Na base longa, com quase 20 anos do índice, a noite somou cerca de +143 mil pontos (t = 3,02) e o pregão, cerca de +7,9 mil (t = 0,10).
A replicação: refizemos a conta no BOVA11
Um número importante precisa ser conferido por outro caminho. Então medimos de novo, com outra fonte: os preços diários de abertura e fechamento do Yahoo Finance.
Primeiro, um tropeço que vale contar. A abertura registrada do próprio Ibovespa não serve para isso. Desde 2007, em 95,7% dos dias ela ficou a menos de 0,05% do fechamento anterior. O índice é calculado com o último preço de cada ação, e no primeiro instante do pregão a maioria ainda não negociou; a "abertura" do índice é, na prática, o fechamento de ontem. Por isso usamos o BOVA11, o fundo negociado que replica o Ibovespa: a abertura dele é um preço de negócio de verdade.
Também limpamos a série. Os primeiros meses do fundo, em 2009, tinham aberturas zeradas e dias copiados, e ficaram de fora: começamos em 2010. Depois descartamos 93 dias sem negócio registrado ou com abertura fora da faixa do dia (53 deles entre 2010 e 2012, 18 em 2021); a noite seguinte foi medida a partir do último fechamento válido. Sobraram 4.064 pregões.

Cada linha mostra o que R$ 100 teriam virado ficando posicionados só naquela janela, todos os dias, sem custos. A escala é logarítmica.
- Só as noites: R$ 100 viraram R$ 2.097 (t = 4,81).
- Só os pregões: R$ 100 viraram R$ 13 (t = −2,77).
- O tempo todo: R$ 100 viraram R$ 264, que é o produto das duas partes.
No BOVA11, o pregão não foi só ruído: ele devolveu, em média, parte do que a noite trouxe. E não foi sorte de um período.

Barras azuis: as noites do ano somadas. Barras laranja: os pregões. Os anos em destaque no eixo são os três em que o pregão ganhou.
A noite rendeu mais que o pregão em 14 de 17 anos. E o padrão aparece nas ações mais negociadas, de 2000 a 2026: na PETR4, t de 5,91 na noite contra −2,62 no pregão; na VALE3, 5,14 contra −1,23; no ITUB4, 3,34 contra 0,14.
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