A fábrica de 99% de acerto
Alvo pequeno, sem stop, e quando o preço vai contra, compra mais para baixar o preço médio. É a estrutura escondida em boa parte dos robôs e métodos vendidos com acerto altíssimo. Ela troca muitas perdas pequenas por poucas perdas gigantes, e parece consistente até o dia da conta.

A ideia: acerto alto é fácil de fabricar
Imagine um anúncio: "robô com 99% de acerto, três anos de histórico, print da conta no verde todo mês". Parece o fim da discussão. Quem acerta 99 de cada 100 vezes só pode ganhar dinheiro, certo?
Errado. Acerto alto é uma das coisas mais fáceis de fabricar no mercado. Basta aceitar perdas raras e enormes em troca de ganhos pequenos e frequentes. A ferramenta mais comum para isso tem nome conhecido: preço médio.
A trilha de Matemática, na aula "Taxa de acerto: a estatística que não paga conta", mostra a fórmula da expectativa: o que importa é a chance de acertar vezes o ganho médio, menos a chance de errar vezes a perda média. Aqui você vê a máquina que produz o acerto bonito por dentro.
Como a fábrica funciona
- Compra e coloca um alvo curto, por exemplo, 100 pontos acima.
- O preço cai. Em vez de sair, compra de novo, e o preço médio da posição desce.
- Como o mercado oscila, quase sempre volta um pouco, e o alvo, agora mais perto do novo preço médio, é atingido. Mais um dia verde.
- Até o dia em que o mercado segue numa direção só. A posição está dobrada, às vezes quadruplicada, no pior momento. Um único dia devolve semanas de ganhos.
Para ver isso acontecer, fizemos uma simulação didática: um preço sorteado ao acaso, sem tendência nenhuma, oscilando 1,2% ao dia, por mil dias. A regra: alvo de +1% sobre o preço médio; se o preço cair 2%, dobra a posição; no máximo quatro dobras (16 vezes o lote inicial de R$ 1.000); se cair mais 3% depois disso, sai no prejuízo, porque não há mais margem para dobrar.

O resultado acumulado da regra em mil dias de um preço sorteado ao acaso. Os círculos vermelhos marcam as três perdas.
Os primeiros 59 trades foram todos ganhos: uma escada perfeita até +R$ 2.179, em 530 dias. Qualquer print desse período mostraria 100% de acerto. Então veio o penhasco. No total, 107 operações, 97,2% de acerto, ganho médio de R$ 38 e perda média de R$ 1.440. Uma perda apagou 36 ganhos. Três perdas levaram o resultado para −R$ 368.
Não foi um sorteio azarado. Rodamos a mesma regra em 2.000 preços sorteados diferentes: o acerto mediano ficou em 96%, e 59% das simulações terminaram no prejuízo. Num preço sem tendência, o preço médio não cria vantagem; ele só muda o formato das perdas.
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