Seu processo quant aplicado a um caso
Em 31/08/2015, a PETR4 tinha caído 60,6% em 12 meses e parecia uma pechincha. A folha de sete linhas, preenchida só com o que se sabia naquele dia, mandou esperar. Em 687 casos parecidos desde 2001, esperar a régua não acertou a direção: tirou a ruína da conta.

Em 1 minuto
- Esta aula aplica as sete linhas da folha de processo a um caso real, a PETR4 de 31/08/2015, usando só o que se sabia naquele dia.
- A folha mandou esperar a régua com um tamanho pequeno: o papel caiu mais 54,3%, a régua virou em março de 2016 e o ano terminou em +42,9%, contra +39,8% de quem segurou.
- Em 687 casos de "caiu 50%" de 2001 a 2025, o processo não bateu o CDI na maioria das vezes, mas levou a fatia de tombos de mais 30% de 30,6% para 5,7%.
Ao fim desta aula você vai saber
- Preencher as sete linhas sem olhar o resultado
- Montar a taxa-base só com dados que existiam na data
- Julgar o processo por muitos casos, não pelo último
A tese: o processo decide sem precisar acertar a direção
O curso inteiro chega a uma frase: quem decide por processo não precisa saber para onde o preço vai. Precisa saber o que fazer em cada caso, com o tamanho que cabe no pior caso, e precisa ter escrito isso antes.
Esta aula testa a frase num caso real. É o tipo de caso que mais produz histórias convincentes: um papel enorme, conhecido de todo mundo, que caiu 60% em um ano. A folha de processo do módulo 3 vai ser preenchida linha por linha, só com o que se sabia naquele dia. Depois, o resultado. Depois, 687 casos parecidos, para ver se o caso foi sorte.
A ideia: A folha não serve para acertar. Serve para que um erro custe pouco e um acerto não dependa de sorte.
O caso: PETR4 em 31 de agosto de 2015
No fechamento de agosto de 2015, a PETR4 estava a R$ 9,19. Um ano antes, a R$ 23,35. Com os proventos, a queda em 12 meses era de 60,6%. A empresa estava no centro das notícias, o país em recessão, e a frase pronta era uma das duas de sempre: "ficou barata" ou "vai quebrar".
A folha não escolhe entre as duas. Ela troca as duas por perguntas.
A folha, linha por linha
1. A pergunta contável. "Ficou barata" vira: o que acontece, nos 12 meses seguintes, com uma ação líquida que caiu 50% ou mais em 12 meses?
2. A taxa-base, como ela era naquele dia. O cuidado aqui é o da prova cega do módulo 4: usar só casos cujo resultado já era conhecido em agosto de 2015, ou seja, episódios até agosto de 2014. Na base do Quantor, com as empresas que saíram da bolsa, foram 284 episódios em 196 papéis.
Antes de continuar: Nos 284 casos de "caiu 50% em 12 meses" conhecidos em agosto de 2015, em que fatia o papel caiu MAIS 30% no ano seguinte, para quem comprou e segurou?
a) Uns 5% · b) Uns 12% · c) Uns 26%
Resposta: Uns 26%. 25,7%. A mediana foi boa, +19,2%, mas um em cada quatro casos afundou mais 30%. Quem esperou a régua, com o CDI no caixa, teve essa fatia reduzida a 1,8%.
| Taxa-base em ago/2015 (284 episódios até ago/2014) | Mediana em 12 meses | No positivo | Caiu mais 30% |
|---|---|---|---|
| Comprar e segurar | +19,2% | 60,6% | 25,7% |
| Esperar a régua, CDI no caixa | +22,6% | 82,4% | 1,8% |
| CDI | +10,7% | 100% | 0% |
Cálculo do curso sobre a base própria do Quantor: ações com volume médio de pelo menos R$ 1 milhão por dia (corrigido pela inflação), inclusive as que saíram da bolsa, com proventos. A régua troca no fechamento do mês, com 0,1% por troca.
3. O prazo. 12 meses. A tese é de um ano, então a notícia da semana seguinte não é informação sobre ela. Isso tira a pressa: não há motivo para comprar no dia 31 em vez de esperar o sinal.
4. A regra escrita. Só entro no fechamento de um mês acima da média de 5 meses; saio no fechamento abaixo; fora, CDI. Em 31/08/2015, a PETR4 estava 14,7% abaixo da média. A regra diz: não compro hoje.
5. O tamanho. A volatilidade dos 12 meses anteriores era de 65,1% ao ano. Se a referência da carteira é 10% para um papel que oscila 30%, o peso fica em 10% × 30 ÷ 65,1 = 4,6%. Numa carteira de R$ 100 mil, R$ 4.600, e uma queda de mais 50% custaria cerca de R$ 2.300.
6. A saída. A do preço: o mês fechar abaixo da régua. A da tese: um fato, definido antes, que mude a capacidade da empresa de se financiar.
7. O diário. "Caiu 60%, parece barato. Estou com medo de perder a virada. Reviso no fechamento de cada mês e em 31/08/2016."
A história continua lá. Ela só perdeu o direito de decidir sozinha.
O que aconteceu
O papel continuou caindo. Em 26/01/2016, a PETR4 fechou a R$ 4,20: 54,3% abaixo de 31/08/2015, com os proventos. Quem tivesse comprado na história do "ficou barata" teria visto mais da metade do dinheiro sumir em cinco meses.
A régua virou para alta no fechamento de março de 2016, com o papel a R$ 8,35, quase o dobro da mínima. A regra comprou ali, saiu em maio por 0,2% abaixo da média, voltou em junho e terminou o período dentro. Em 31/08/2016, a PETR4 estava a R$ 12,85.
+42,9% o processo, de 31/08/2015 a 31/08/2016 · +39,8% quem comprou em 31/08/2015 e segurou · −21,4% × −47,3% pior queda no caminho, processo × segurar (mês a mês)
No mesmo ano, o CDI rendeu 14,1%, e a mediana de todas as ações líquidas compradas em agosto de 2015, o sorteio com as mesmas condições, rendeu 23,8%. O processo comprou quase o dobro da mínima (+98,8%) e mesmo assim terminou na frente de quem segurou, porque não carregou a queda de setembro a janeiro. Com o tamanho da linha 5, o ganho foi de cerca de R$ 1.973 numa carteira de R$ 100 mil, sem que em nenhum momento a posição pusesse a carteira em risco.
Repare no que a folha não fez. Ela não acertou o fundo, não previu a virada e não sabia que o papel ia dobrar. Ela só se recusou a decidir pela história.
Não foi sorte? Os 687 casos
Um caso que deu certo não prova nada. Por isso a mesma regra rodou em todos os episódios de "caiu 50% ou mais em 12 meses" da base, de 2001 a 2025: 687 casos em 337 papéis, 38 deles com a empresa saindo da bolsa no meio do ano seguinte. A amostra não é a do módulo 3: lá eram 677 episódios só das ações que ainda estão na bolsa; aqui entram as que saíram e só as ações líquidas, com giro médio de pelo menos R$ 1 milhão por dia. Por isso os números de quem segurou não batem com os de lá, e a cauda ruim fica mais funda.
| 687 episódios, 12 meses seguintes | Mediana | No positivo | Pior décimo | Caiu mais 30% |
|---|---|---|---|---|
| Comprar e segurar | +3,7% | 52,5% | −67,1% | 30,6% |
| Esperar a régua, CDI no caixa | +12,0% | 69,0% | −20,8% | 5,7% |
| CDI | +12,0% | 100% | +6,3% | 0% |
| Uma ação líquida qualquer, mesmo mês | +12,6% | 68,1% | −13,2% | 1,9% |
A última linha é a mediana de todas as ações líquidas compradas no mesmo mês de cada episódio: o sorteio com as mesmas condições.
Três leituras, todas desconfortáveis para alguém:
Para quem compra o caído. Segurar o papel que caiu 50% teve mediana de +3,7% e ficou abaixo de uma ação qualquer do mesmo mês em 55,9% dos casos. Três em cada dez afundaram mais 30%. A taxa-base de 2015 era mais otimista do que a de 2001 a 2025: é o que acontece quando os anos seguintes trazem 2022, com 101 episódios, e uma amostra muda de humor.
Para quem acha que o processo é uma máquina de ganhar. A regra bateu o CDI em só 39,7% dos casos, e a mediana dela empatou com o CDI. Em 15,6% dos casos ela nunca entrou, e o resultado foi o CDI puro.
Para quem quer saber o que o processo compra. A pior queda mediana no caminho foi de −40,0% segurando e −12,0% com a régua. A fatia de casos com perda de mais 30% caiu de 30,6% para 5,7%. O processo não comprou retorno. Comprou a eliminação da ruína, e é ela que mantém alguém investindo por 20 anos.
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