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Playbooks testados · Aula 3 de 3

O playbook que reprovou: comprar abaixo do valor justo

É a regra mais repetida do mercado: comprar o que está muito abaixo do valor justo. Testada em 6.211 casos na B3, de 2011 a 2025, ela não separou quem rendeu mais. Um playbook honesto também publica o que não passou.

por Vinícius Rosa12 min de leituraatualizada em trecho aberto
O playbook que reprovou: comprar abaixo do valor justo

Em 1 minuto

  • A regra testada: comprar as ações 35% ou mais abaixo do valor justo pelo ROE e comparar o retorno dos 12 meses seguintes com a mediana das outras.
  • De 2011 a 2025, em 726 casos, elas bateram a mediana em 50,4% das vezes; o desconto e o retorno seguinte tiveram correlação de 0,05.
  • Juntar a régua não ajudou: o filtro do valor justo não acrescentou nada à régua sozinha, e a regra vai para a gaveta dos reprovados.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Escrever um playbook com a regra e o critério de aprovação antes do teste
  • Comparar um filtro com a regra sem ele, o sorteio certo
  • Explicar por que o barato da fórmula muda com o juro

A tese: um playbook que reprova também ensina

Os dois playbooks anteriores têm números a favor, com ressalvas. Este não tem. E ele está no curso de propósito, por dois motivos.

O primeiro é que a regra é a mais repetida do mercado: "a ação está 40% abaixo do valor justo, a margem de segurança é enorme". Se ela funcionasse, seria o primeiro playbook de qualquer investidor. O segundo é que um método que só mostra o que deu certo é exatamente o viés que o módulo 4 ensinou a evitar. Quem publica só as regras aprovadas esconde quantas tentou, e o leitor não consegue separar o mérito da sorte.

A ideia: Um playbook honesto é uma regra escrita antes, com o critério de aprovação escrito antes. Se ela reprovar, vai para a gaveta com o número do teste ao lado.

A regra, escrita antes do teste

Escrever antes é a lição da prova cega do módulo 4: decidir a regra e o critério sem ter visto o resultado.

  1. Universo: as 150 ações mais líquidas da B3 em cada fim de trimestre, de dezembro de 2011 a setembro de 2025 (56 trimestres, 305 ações diferentes).
  2. O valor justo: o P/VP justificado pelo ROE, P/VP justo = (ROE − g) ÷ (k − g), com g = ROE × (1 − payout), o payout medido pelos proventos de 12 meses e g limitado a 6% ao ano; k = Selic do mês mais 5 pontos. Só entram empresas com lucro e patrimônio positivos, com os balanços que estavam publicados em cada data.
  3. O sinal: preço 35% ou mais abaixo do valor justo.
  4. O resultado: o retorno dos 12 meses seguintes, com proventos, contra a mediana das ações testadas no mesmo trimestre. Quem saiu da bolsa no meio entra com o último preço.
  5. O critério de aprovação: bater a mediana bem mais que metade das vezes, e não cair mais que as outras.

O mesmo teste aparece no curso Raio-X de Empresas, na aula "Valor justo é uma faixa: o teste que o alvo não passa", que explica a conta do valor justo em detalhe. Aqui ele é lido como um playbook.

O resultado

Foram 6.211 observações.

Onde o preço estava contra o valor justo Casos Bateu a mediana em 12 meses Caiu 30% ou mais
35% ou mais abaixo 726 50,4% 13,1%
15% a 35% abaixo 311 47,9% 12,5%
Perto (até 15% para cada lado) 588 52,9% 12,6%
15% a 50% acima 683 52,4% 12,2%
50% ou mais acima 3.903 48,9% 13,6%

Dezembro de 2011 a setembro de 2025. Fonte: o mesmo teste do curso Raio-X de Empresas, sobre a base própria do Quantor.

50,4% das vezes as ações 35%+ abaixo do justo bateram a mediana · 0,05 correlação média entre o desconto e o retorno seguinte · 78,3% das observações estavam acima do valor justo

Nenhum grupo se destacou. Os "baratos" pela fórmula caíram 30% ou mais em 13,1% dos casos, quase igual aos "caros" (13,6%). Medida de outro jeito, a correlação entre o desconto e o retorno seguinte, trimestre a trimestre, foi de 0,05 em média, numa escala de −1 a +1: quase nada.

A segunda chance: e com a régua?

Antes de arquivar uma regra, vale a pergunta que o módulo 4 ensinou: um filtro que sozinho não funciona ajuda uma regra que funciona? Para isso, este curso juntou a régua de cada papel, no mesmo fim de trimestre, às observações do teste. E comparou do jeito certo: o filtro contra a regra sem o filtro.

Antes de continuar: Nas ações em alta na régua, quantas vezes as 35%+ abaixo do valor justo bateram a mediana nos 12 meses seguintes? Para comparar: todas as ações em alta na régua bateram em 52,0%.

a) Uns 60%: as duas coisas juntas se reforçam · b) Uns 55% · c) 51,2%: nada acima da régua sozinha

Resposta: 51,2%: nada acima da régua sozinha. 51,2% em 334 casos, contra 52,0% da régua sozinha em 3.434. E as baratas em alta caíram 30% ou mais em 15,0% dos casos, contra 11,3% da régua sozinha.

Grupo (dez/2011 a set/2025) Casos Bateu a mediana Caiu 30% ou mais
Régua em alta, todas 3.434 52,0% 11,3%
Régua em baixa, todas 2.689 47,3% 15,2%
35%+ abaixo do justo e régua em alta 334 51,2% 15,0%
35%+ abaixo do justo e régua em baixa 380 50,5% 10,5%

Das 6.211 observações, 88 não tinham histórico mensal suficiente para a régua e ficaram de fora desta tabela.

A régua sozinha separou um pouco: em alta, 52,0%; em baixa, 47,3%. O desconto contra o valor justo, somado a ela, não acrescentou nada. Dividindo o período em dois, a combinação bateu a mediana em 46,7% dos 45 casos de dezembro de 2011 a setembro de 2018 e em 51,9% dos 289 de dezembro de 2018 a setembro de 2025, nas duas metades sem vantagem sobre a régua sozinha (52,0% em cada uma). Reprovada de novo.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.