Ação no longo prazo sempre ganha?
Compramos e seguramos cada uma das 437 ações líquidas da B3 desde 2006. A ação típica rendeu +0,7% ao ano, contra +10,5% do CDI. Só 37% delas bateram a renda fixa.

A ideia
"Ação é para o longo prazo. Compre uma empresa boa, esqueça na carteira e, em dez anos, você vai ganhar." Todo mundo já ouviu isso. Parte da frase é verdade: ao longo de décadas, a bolsa costuma render mais que deixar o dinheiro parado. O problema é que ninguém compra "a bolsa" inteira de uma vez. A maioria das pessoas compra uma ação, ou três, ou cinco.
E a pergunta que importa para essa pessoa é outra: se eu escolher uma ação e segurar por muitos anos, qual é a chance de dar certo?
Esta trilha responde crenças assim com números. Todos os testes foram feitos na base histórica da B3 sem viés de sobrevivência, de 2006 a 2026. Ou seja, entram todas as ações que negociaram nesse período, inclusive as que quebraram, fecharam o capital ou foram compradas por outra empresa. A aula 2 explica por que isso muda tudo.
Como testamos
Pegamos todas as ações que, em algum mês desde 2006, tinham liquidez de verdade, isto é, negociavam bastante dinheiro por dia. O corte foi de pelo menos R$ 5 milhões negociados por dia, em reais de hoje, e negócio em quase todos os pregões. Foram 437 ações. Para cada uma, simulamos o investidor paciente. Ele comprou no primeiro mês em que ela entrou nesse grupo e segurou até hoje, ou até ela sair da bolsa.
O retorno conta os proventos (dividendos e juros sobre capital, reinvestidos). Quando a empresa saiu da bolsa, entrou o que o acionista recebeu: o preço da oferta de compra, as ações da empresa que a incorporou, ou zero, se quebrou.
Para comparar, usamos o CDI, a taxa que a renda fixa mais simples paga, medido no mesmo período de cada ação.
O resultado

Olhe quanto das barras não é verde. Cada barra conta quantas ações tiveram aquele retorno ao ano. Verde: bateu o CDI. Vermelho: perdeu dinheiro. Na ponta esquerda, as 9 que foram a zero.
A média das 437 foi +0,7% ao ano. A mediana, que é a ação do meio da fila, foi +5,2%. O CDI, no mesmo período de cada ação, pagou +10,5%.
Só 160 das 437 (37%) bateram o CDI. Outras 163 (37%) terminaram com retorno negativo, mesmo contando os dividendos. E 9 foram a zero.
Agora compare com o conjunto:

Olhe a distância entre a linha da ação típica e as do conjunto e do índice: os dois subiram, a ação típica segurada sozinha quase nada. À direita, a maior queda que cada um sofreu no caminho.
Uma carteira com todas as ações líquidas, em pesos iguais (a mesma quantia em cada ação), rendeu +8,9% ao ano. O Ibovespa, com proventos, +8,6%. Os dois ficaram abaixo do CDI, que rendeu +10,2% nesse período de juros altos. E os dois caíram quase 50% em algum momento.
O caminho da ação típica foi pior. A mediana da maior queda de cada ação foi de −78%. Ou seja, a ação do meio da fila chegou a valer menos de um quarto do seu topo em algum momento. Segurar com calma, nessas condições, é mais difícil do que parece no papel.
Por que a média é tão baixa
O professor Hendrik Bessembinder, da Universidade Estadual do Arizona, estudou todas as ações americanas de 1926 a 2016. A conclusão ficou famosa. Um grupo pequeno de empresas, cerca de 4%, explicou todo o ganho líquido da bolsa americana no período. A maioria das ações rendeu menos que o título público de curto prazo.
A B3 mostra um desenho parecido. Há poucas ações com retornos enormes (16 das 437 renderam 40% ao ano ou mais) e uma multidão que andou de lado, caiu muito no caminho ou desapareceu. Quem compra uma ação só está apostando em estar no grupo pequeno.
Onde o teste pode enganar
O período tem juros altos. Um CDI de 10% ao ano é uma régua exigente. Em países de juro baixo, a comparação seria mais generosa com as ações.
O ponto de partida muda o resultado. Cada ação entrou num mês diferente, algumas perto de um topo. Isso vale para qualquer investidor real também.
Média de ações não é carteira. O número de +0,7% responde à pergunta "e se eu escolher uma ação ao acaso?". Uma carteira diversificada se comporta como o conjunto, não como a ação típica.
Resultado passado não garante futuro. O que ele mostra é a taxa-base: o que costuma acontecer na média, antes de ouvir a história de uma empresa.
A versão prática
- Separe "a bolsa" de "a minha ação". A frase do longo prazo vale para o conjunto, não para um papel escolhido.
- Não concentre em uma ou duas ações achando que o tempo resolve. O tempo não salvou 63% delas.
- Compare sempre com o CDI. Se a sua carteira não paga o risco que corre, a renda fixa ganha sem susto.
- Tenha uma regra de saída antes de comprar. A aula 6 mostra quanto uma regra simples muda a queda.
No Quantor
Estes números vêm da pesquisa do Quantor, a área onde as regras são testadas na base completa da B3. No dia a dia, a tela Analisar papel mostra, para cada papel, a régua mensal. A régua é uma linha que acompanha o preço usando os fechamentos dos últimos 5 meses: fechou o mês acima dela, a ação está "em alta"; abaixo, "em baixa". O bloco Seguir a régua funcionou?, na Técnica, compara, naquele papel, duas coisas: comprar e segurar, ou seguir a régua e deixar o dinheiro na Selic (a taxa básica de juros, que a renda fixa simples acompanha) quando o papel está abaixo dela. Olhe esse bloco antes de dizer "é para o longo prazo": ele mostra quanto aquele papel já caiu no caminho.
O longo prazo premia a bolsa. A ação, ele só premia se você escolheu uma das poucas.
Voltar à trilha Mitos da bolsa: o que 20 anos de dados dizemTodas as trilhas
Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.