Copiar os mestres: a regra vem, e a década ruim vem junto
Sete métodos famosos viraram regra e rodaram na B3 de 2011 a 2026. Quatro bateram o CDI no período inteiro, nenhum passou no teste completo, e todos tropeçaram no mesmo bloco de cinco anos.

Em 1 minuto
- Sete métodos famosos, transformados em regra e testados na B3 de 2011 a 2026: quatro bateram o CDI no período inteiro, três nem isso.
- Nenhum passou no teste completo, e o motivo foi o mesmo para todos: 2011–15, cinco anos perdendo da renda fixa.
- Copiar o critério é fácil; o que os mestres tinham e a regra não copia é a parte qualitativa e o estômago para a década ruim.
Ao fim desta aula você vai saber
- Separar o que de um método cabe numa regra e o que não cabe
- Achar a década ruim de um método antes de adotá-lo
- Calcular quanto custa um bloco de cinco anos perdendo do CDI
A tese: o que se copia do mestre é a parte que menos importava
"Se deu certo para Buffett, vai dar certo para mim." Os grandes investidores deixaram livros, cartas e critérios. Parece razoável imaginar que seguir essas regras com disciplina traria resultados parecidos. É um atalho que o cérebro aceita fácil: quando alguém já provou competência, a gente terceiriza o julgamento para ele. É o viés de autoridade, e ele é mais forte quanto mais famoso o nome.
Há dois problemas escondidos aí. Boa parte do que esses investidores faziam não cabe numa regra. E as regras foram criadas em outros mercados, outras épocas. A pergunta honesta é: a parte que cabe num número funciona na B3?
Antes de continuar: Graham, Bazin, Barsi, Piotroski, Greenblatt, Lynch e Buffett viraram regras numéricas e rodaram na B3 de 2011 a 2026, com o CDI a +9,8% ao ano. Quantos dos sete bateram o CDI no período inteiro?
a) Todos os sete · b) Quatro · c) Um · d) Nenhum
Resposta: Quatro. Quatro: Graham defensivo (+13,6% ao ano), Bazin (+13,0%), Barsi (+12,8%) e Piotroski (+12,5%). Lynch, Greenblatt e Buffett quantitativo ficaram abaixo da renda fixa. E nenhum dos sete passou no teste completo.
Por que copiar não basta: três forças
1. A regra copia só o que cabe num número. Buffett fala de vantagem competitiva, de gestão confiável, de entender o negócio. Lynch fala de conhecer a empresa antes do mercado. Nada disso vira uma linha de planilha. O que vira é o filtro numérico: rentabilidade, dívida, múltiplo. Os próprios mestres diziam que essa era a parte menos importante.
2. Outro mercado, outra época. Graham escreveu os critérios do investidor defensivo para os EUA de meados do século passado. Bazin escreveu para o Brasil, mas pensando em renda, não em retorno total. A regra é a mesma; o juro, o tamanho do mercado e a concorrência por aquela ideia são outros.
3. A década ruim faz parte do método. Todo método que funciona tem anos em que não funciona. O mestre atravessou esses anos com convicção, reputação e muitas vezes capital de terceiros paciente. Quem copia o critério herda os anos ruins sem herdar nada disso.
Como foi o teste
A pesquisa do Quantor escreveu a parte numérica de sete métodos antes de ver qualquer resultado:
| Método | A regra testada, em uma linha |
|---|---|
| Graham defensivo | empresas grandes, com lucro e proventos por muitos anos, a preço moderado de lucro e de patrimônio |
| Bazin | dividend yield de pelo menos 6%, dívida baixa e P/L moderado |
| Barsi (aproximado) | grandes pagadoras de setores perenes, que ele não vende por preço |
| Piotroski | nota F de 7 ou mais, de 0 a 9, que soma sinais de melhora no balanço |
| Greenblatt | a "fórmula mágica": retorno alto sobre o capital a preço baixo |
| Lynch | crescimento de lucro razoável, dívida baixa e PEG abaixo de 1 |
| Buffett quantitativo | só os números: rentabilidade, margem e dívida |
Cada método comprou até 10 ações, a mesma quantia em cada, de maio de 2011 a setembro de 2026, usando só os balanços já entregues à CVM em cada data e a base completa, com as empresas que saíram da bolsa. Quando não havia 10 candidatas, a sobra ficou no CDI. O curso Raio-X de Empresas abre cada um desses métodos por dentro; aqui fica o veredito.
O que os números mostram
| Método | Retorno ao ano, 2011–2026 |
|---|---|
| Graham defensivo | +13,6%, com a menor queda do grupo (−13%) |
| Bazin | +13,0% |
| Barsi (aproximado) | +12,8% |
| Piotroski | +12,5% |
| Lynch | +7,4% |
| Greenblatt | +6,6%, com queda de −51% |
| Buffett quantitativo | +4,8%, com queda de −45% |
| CDI | +9,8% |
| Ibovespa | +6,9% |
Lynch ficou abaixo do CDI por um motivo curioso: quase nunca havia ação que passasse em todos os critérios, e a carteira passou a maior parte do tempo na renda fixa. Greenblatt e Buffett quantitativo, ao contrário, ficaram investidos e caíram quase metade no caminho.
O bloco que derrubou todos
A pesquisa usa um critério exigente para dizer que uma estratégia passou: bater o CDI e um sorteio de carteiras montadas ao acaso, nas mesmas regras, por pelo menos 2 pontos ao ano em cada um dos três blocos de cinco anos, e continuar de pé com custos maiores.
Antes de continuar: No bloco de 2011 a 2015, o CDI pagou +10,2% ao ano. Quanto fez o melhor dos sete mestres nesses cinco anos?
a) Uns +15% ao ano: bateu a renda fixa · b) Uns +10%: empatou · c) Uns +6% ao ano · d) Perdeu dinheiro
Resposta: Uns +6% ao ano. Graham, o melhor, fez +6,4% ao ano. A média das ações líquidas perdeu 5,6% ao ano. Greenblatt perdeu 10,1% ao ano.
Nenhum mestre passou, pelo mesmo motivo: 2011–15. Nesse bloco, o CDI pagou +10,2% ao ano e a média das ações líquidas perdeu 5,6% ao ano. O melhor mestre ali, Graham, fez +6,4%. Greenblatt perdeu 10,1% ao ano.
Isso não quer dizer que os métodos "não funcionam". Quer dizer que eles têm décadas ruins. Quem começou a seguir um deles em 2011 passou cinco anos perdendo da renda fixa, com a manchete do dia dizendo que a bolsa brasileira não servia para nada. Poucos investidores reais aguentam isso sem abandonar o método justamente antes de ele voltar a funcionar.
A ideia: Copiar a regra de um mestre é fácil. Difícil é aguentar a década em que ela não funciona.
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