Casa própria: Clason contra Kiyosaki, e o juro decide
De 2006 a 2026, o valor dos imóveis medido pelo Banco Central multiplicou por 5,10 e o CDI por 6,92: no preço, a casa perdeu. Contando o aluguel que o dono deixa de pagar, ganhou. Financiada a 14% ao ano, a conta de hoje vira de novo.

Em 1 minuto
- Clason manda ter a casa própria; Kiyosaki diz que ela é passivo. Os dados do Brasil dão razão a cada um em uma parte.
- Só no preço, o imóvel perdeu do CDI de 2006 a 2026 (fator 5,10 contra 6,92); contando o aluguel que o dono deixa de pagar, a casa à vista ganhou.
- Financiada à taxa de agosto de 2026, 14,24% ao ano, a casa de R$ 500 mil paga quase o dobro do aluguel só em juros no primeiro ano.
Ao fim desta aula você vai saber
- Separar as três partes da conta: preço, aluguel e juro
- Comparar a parcela de um financiamento com o aluguel do mesmo imóvel
- Usar o simulador para achar o ano em que comprar e alugar se cruzam
A tese: a casa não é ativo nem passivo, é uma taxa de juro
A discussão sobre a casa própria costuma ser uma briga de frases. De um lado, O Homem Mais Rico da Babilônia, de George S. Clason (1926), cuja quinta cura para a bolsa magra é ter a própria casa: quem mora no que é seu deixa de entregar parte da renda a um senhorio e transforma o aluguel em patrimônio. Do outro, Pai Rico, Pai Pobre, de Robert T. Kiyosaki (1997), que tirou a casa da lista de ativos: ela não põe dinheiro no bolso, tira, com prestação, imposto e manutenção.
Os dois estão certos, cada um numa parte da conta. A casa tem três números, e a briga acontece porque cada lado olha só um. O preço diz quanto o imóvel valoriza. O aluguel diz quanto o dono deixa de pagar. O juro diz quanto custa o dinheiro que comprou a casa. No Brasil, o terceiro número costuma decidir.
O mecanismo: três forças na mesma conta
1. O preço sozinho compete com o CDI. Um imóvel parado, sem contar aluguel, é uma aposta na valorização. Para valer a pena, precisa subir mais que o dinheiro aplicado no CDI teria subido. É a parte que Kiyosaki olha.
2. O aluguel economizado é um rendimento escondido. Quem mora no próprio imóvel recebe, todo mês, o aluguel que não paga. Não aparece em extrato nenhum, mas é dinheiro que fica no bolso. É a parte que Clason olha.
3. O juro do financiamento come os dois. Quem compra financiado paga juro sobre o dinheiro emprestado. Se esse juro é maior que a valorização mais o aluguel economizado, a casa é passivo no sentido exato de Kiyosaki, por mais que a escritura esteja no seu nome.
A primeira parte: o preço, de 2006 a 2026
O Banco Central publica o IVG-R, o índice de valores de garantia de imóveis residenciais financiados. Ele acompanha o valor de avaliação dos imóveis que os bancos aceitam como garantia nos financiamentos, todo mês, desde 2001. Não é o preço de venda de um imóvel específico, mas é a série oficial mais longa de valor de imóvel no país.
Antes de continuar: De agosto de 2006 a agosto de 2026, o CDI multiplicou o dinheiro por 6,92 e a inflação, por 2,96. Por quanto o IVG-R multiplicou o valor dos imóveis?
a) Por cerca de 3, só acompanhando a inflação · b) Por cerca de 5 · c) Por cerca de 9, bem mais que o CDI
Resposta: Por cerca de 5. Por 5,10: de 156,21 para 796,75. O imóvel ganhou da inflação, 2,8% ao ano acima dela, mas perdeu do CDI, que rendeu 4,3% ao ano acima dela.
| Agosto de 2006 → agosto de 2026 | Fator em 20 anos | Ao ano |
|---|---|---|
| IPCA (inflação) | 2,96 | 5,6% |
| IVG-R (valor dos imóveis) | 5,10 | 8,5% |
| Ibovespa | 4,90 | 8,3% |
| CDI (bruto) | 6,92 | 10,2% |
Só no preço, Kiyosaki leva o primeiro ponto: a casa perdeu do CDI por 20 anos. E não foi uma linha reta. Descontada a inflação, o valor medido pelo IVG-R estava em agosto de 2026 24% abaixo do de agosto de 2014. Quem comprou no topo daquela época ainda não tinha recuperado o poder de compra doze anos depois.
A segunda parte: o aluguel que o dono não paga
Agora a conta de Clason. Imagine que, em agosto de 2006, alguém comprou à vista um imóvel e foi morar nele. Todo mês, deixou de pagar um aluguel. Se tivesse aplicado esse aluguel economizado no CDI, quanto teria juntado?
O dado de aluguel mais citado do país é a rentabilidade do aluguel do índice FipeZAP: o aluguel anual dividido pelo preço de venda. Em setembro de 2026, estava em 6,13% ao ano na média nacional, segundo o FipeZAP. Não há série histórica dele na nossa base, então fizemos a conta para várias hipóteses de aluguel líquido (já descontados custos que ficam com o dono, como manutenção), sempre aplicado no CDI mês a mês:
Antes de continuar: Quanto o aluguel economizado precisaria render por ano, em proporção do valor do imóvel, para a casa comprada à vista em 2006 empatar com o CDI em 2026?
a) Cerca de 1% ao ano · b) Cerca de 4% ao ano · c) Cerca de 8% ao ano
Resposta: Cerca de 1% ao ano. 1,1% ao ano basta. Os 6,13% brutos de hoje do FipeZAP estão muito acima disso: com o aluguel na conta, a casa à vista ganhou do CDI.
| R$ 300 mil em agosto de 2006 → agosto de 2026 | Valor final |
|---|---|
| No CDI, bruto | R$ 2.074.490 |
| No imóvel, só o preço (IVG-R) | R$ 1.530.152 |
| No imóvel, mais aluguel economizado de 4% ao ano, aplicado no CDI | R$ 1.530.152 + R$ 1.937.235 = R$ 3.467.387 |
Com o aluguel na conta, Clason empata o jogo e vira: a casa comprada à vista superou o CDI com folga, mesmo numa hipótese de aluguel bem abaixo da de hoje.
A ideia: Comprada à vista, a casa em que você mora rende o aluguel que você deixa de pagar. Financiada, ela só rende se esse aluguel for maior que o juro.
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