Crescimento de dividendos, aristocratas e a carteira de Barsi
Comprar quem aumenta o dividendo todo ano é a estratégia de renda mais admirada do mundo. Na B3, empatou com o índice de dividendos; os "aristocratas" quase não existem por aqui. A regra que passou foi a mais simples, inspirada em Luiz Barsi.

A estratégia de renda mais admirada
Há um tipo de investidor que não quer saber do yield de hoje (quanto a ação pagou em proventos nos últimos 12 meses, dividido pelo preço). Ele quer saber se o dividendo cresce. A ideia foi defendida por autores como Lowell Miller e é celebrada no índice americano dos Dividend Aristocrats (empresas que aumentam o dividendo há pelo menos 25 anos seguidos). Ela diz que dividendo crescente é a prova mais honesta de um negócio saudável: não dá para aumentar o pagamento todo ano sem lucro de verdade.
No Brasil, o nome mais associado a renda é outro: Luiz Barsi Filho, o investidor pessoa física que ficou conhecido como "rei dos dividendos". Em essência, Barsi defende montar aos poucos uma carteira previdenciária (pensada para pagar renda na aposentadoria) de empresas grandes, de setores perenes: bancos, seguros, energia, saneamento, telecomunicações. A ideia é comprar quando o rendimento está alto e viver dos dividendos, sem se preocupar com a cotação do dia.
São três jeitos de pensar a mesma coisa. Testamos os três.
O que testamos
- Crescimento de dividendos: no fim de cada ano, as 10 ações que mais aumentaram o dividendo por ação em 3 anos, entre as que pagaram em cada um dos 4 anos. Segura o ano todo.
- Aristocratas brasileiros: como na B3 quase nenhuma empresa tem 25 anos de aumentos, encurtamos para 5 anos sem cortar o dividendo e compramos as 10 de maior yield entre elas.
- Barsi aproximado: Barsi nunca escreveu uma regra. A leitura da pesquisa do Quantor: até 10 ações de setores perenes, entre as 60 maiores da bolsa, com yield de 6% ou mais e proventos em cada um dos últimos 5 anos, revista todo mês.
Tudo com as empresas que depois saíram da bolsa e com proventos reinvestidos (retorno total: preço mais dividendos), de jan/2006 a set/2026, sem e com a trava. Na versão com trava, a trava do Ibovespa manda a carteira inteira para o CDI quando o índice fecha o mês abaixo da sua média de 5 meses, e a traz de volta quando ele volta.
O resultado

R$ 1.000 em 2006 viraram R$ 13.994 pela regra, R$ 20.617 com a trava, R$ 12.799 no IDIV, R$ 7.505 no CDI e R$ 5.499 no Ibovespa. O que olhar: a regra sem trava anda colada no IDIV; a versão com trava termina bem acima de todas.
O crescimento de dividendos rendeu +13,6% ao ano, praticamente o mesmo que o IDIV, o índice de dividendos da B3 (+13,1%), com pior queda (o maior tombo do topo ao fundo) de −42%. Bateu o CDI (+10,2%) e o Ibovespa (+8,6%). Com a trava, +15,7% ao ano e queda de −18%, uma das melhores combinações de retorno e risco entre as regras de dividendos.

Retorno ao ano em cada bloco, com proventos reinvestidos. Repare: só a carteira de Barsi ficou acima do CDI nos três blocos.
Dividimos o período em três blocos de anos, para ver se cada regra funciona em fases diferentes. Por bloco, a regra de crescimento fez +19,3%, +13,7% e +7,8% ao ano: o último ficou abaixo do CDI. Os aristocratas foram pior: +15,8% no primeiro bloco e depois +3,7% e +5,2%, abaixo do CDI nos dois. No período inteiro, +8,1% ao ano, abaixo do CDI e do Ibovespa.
A carteira de Barsi foi a única estável acima do CDI: +13,2%, +13,7% e +12,0% ao ano, com +13,0% no período e pior queda de só −18%. Foi a única estratégia de dividendos a passar no critério completo da pesquisa do Quantor. Esse critério pede bater o CDI e um sorteio de ações (carteiras montadas ao acaso, com as mesmas regras) por 2 pontos percentuais em cada bloco e aguentar custos maiores.
O que quase ninguém sabe. O aristocrata brasileiro quase não existe. Com uma exigência de apenas 5 anos sem cortar o dividendo, em média só 2,7 ações líquidas (fáceis de negociar) por ano passaram no filtro, e metade da carteira ficou no CDI. E a lista de pagadoras de hoje engana: testada só com as empresas ainda listadas, a regra de Barsi rendia 16,6% ao ano; com a base completa, incluindo as que saíram da bolsa, 13,0%. São 3,6 pontos ao ano de ilusão, o tamanho do viés de sobrevivência aqui. Mesmo assim, ela passou. E só 21% das ações que ela escolheu cortaram o provento pela metade no ano seguinte, contra 41% nas carteiras de maior yield.
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