Entrar
Os métodos famosos testados · Aula 1 de 10

Bazin e o preço-teto de 6%, testado na B3

A regra mais repetida do investidor de dividendos brasileiro, rodada de 2006 a 2026 com as empresas que saíram da bolsa. Ela bateu o CDI e o Ibovespa com folga. E parou de funcionar em 2020.

por Vinícius Rosa7 min de leituraatualizada em
Bazin e o preço-teto de 6%, testado na B3

A regra que cabe num guardanapo

Pergunte a dez investidores de dividendos como decidem o preço de compra e pelo menos um vai responder: "preço-teto de Bazin". A conta é simples. Some os dividendos que a empresa pagou nos últimos 12 meses e divida por 0,06. Se a ação está abaixo desse número, ela rende 6% ou mais só em proventos (o dinheiro que a empresa distribui aos acionistas, como dividendos e juros sobre capital). Acima, está cara.

Décio Bazin foi um jornalista e investidor brasileiro que publicou Faça Fortuna com Ações, Antes que Seja Tarde em 1992, numa bolsa muito menor e mais arriscada que a de hoje. Em essência, ele defendia comprar empresas que pagam dividendos de forma constante e com pouca dívida. Mas só quando o preço garante um rendimento alto. E vender quando o preço sobe a ponto de o rendimento cair abaixo do piso. Era uma regra de disciplina para quem não queria adivinhar o mercado.

Dividend yield (ou só yield) é o nome técnico desse rendimento: dividendos dos últimos 12 meses divididos pelo preço. Um yield de 6% quer dizer que, a cada R$ 100 na ação, vieram R$ 6 em proventos no último ano.

A pergunta desta aula: essa regra, aplicada à risca, funciona na B3?

O que testamos

Pegamos todas as ações que negociavam pelo menos R$ 5 milhões por dia em cada mês (piso de liquidez: dá para negociar sem mexer o preço), inclusive as que depois quebraram, fecharam o capital ou foram compradas. Todo fim de mês, a regra olhava quem tinha yield de 6% ou mais, só com proventos em dinheiro. E comprava as 10 de maior yield, com o mesmo peso (a mesma quantia em cada uma). De jan/2006 a set/2026, com custo de 0,1% por ordem e os dividendos reinvestidos.

Testamos também as variações que aparecem nos fóruns: revisar só uma vez por ano, exigir 5 anos seguidos pagando e exigir dívida baixa. E cada uma com e sem a trava do Ibovespa, uma regra de proteção. Quando o índice fecha o mês abaixo da sua média de 5 meses (a régua, uma linha que acompanha o preço usando os fechamentos dos últimos 5 meses), a carteira vai para o CDI até ele voltar.

O resultado

R$ 1.000 no preço-teto de Bazin contra o CDI e o Ibovespa

O que olhar: a linha da regra termina bem acima das outras duas, mas com um tombo forte no caminho. R$ 1.000 em 2006 viraram R$ 17.383 pela regra, R$ 7.505 no CDI e R$ 5.499 no Ibovespa. Escala logarítmica: a mesma distância vertical é a mesma variação percentual.

A regra funcionou no período inteiro: +14,8% ao ano (ganho médio por ano, já composto), contra +10,2% do CDI e +8,6% do Ibovespa. Bateu também o IDIV, o índice de dividendos da B3 (+13,1%). E bateu um sorteio de 10 ações ao acaso (+5,4%). O preço disso foi uma queda de −51% no pior momento. Com a trava, o retorno ficou quase igual (+14,4%) e a pior queda (o maior tombo do topo até o fundo) caiu para −18%.

Agora olhe o mesmo resultado em pedaços.

Bazin em três blocos de sete anos

Repare: a vantagem da regra encolhe a cada bloco e some no último. Retorno ao ano em cada bloco. O CDI e o Ibovespa são os do mesmo bloco.

De 2006 a 2012, +25,5% ao ano. De 2013 a 2019, +13,3%. De 2020 a 2026, +6,0%, quatro pontos percentuais abaixo do CDI, e a trava não resolveu (+5,3%). É por isso que o Bazin não passa no critério da pesquisa do Quantor. Esse critério exige bater o CDI por pelo menos 2 pontos em cada bloco (cada pedaço do período), não só na soma.

Um ano para lembrar

Em 2015, as 10 maiores pagadoras da regra caíram 29%, enquanto o CDI pagava 13%. Muitas estavam no topo da lista justamente porque o preço tinha desabado: o yield sobe quando a ação cai, antes de a empresa cortar o dividendo. Quem desistiu no fim daquele ano perdeu 2016, quando a mesma regra subiu 81,5%. Essa é a vida real de um método de dividendos: anos de vitrine e anos em que ele parece quebrado.

As versões do livro

Quatro versões do Bazin, com a pior queda de cada uma

O que olhar: a versão que exige 5 anos seguidos pagando rende mais que as outras. Todas as versões de 2006 a 2026, 10 ações, com proventos.

Exigir 5 anos seguidos pagando foi o filtro que mais ajudou: +16,7% ao ano. Revisar uma vez por ano rendeu parecido (+14,2%). Mas não se confirmou no período guardado para a prova cega (2017–2026). A regra de dívida baixa, que só dá para testar desde 2011, não acrescentou nada.

O que quase ninguém sabe. A lista de ações "que pagam bem hoje" mente para cima. É o viés de sobrevivência: testar só com as empresas que existem hoje, esquecendo as que quebraram ou saíram da bolsa. No nosso comparativo, o Bazin com trava rendia 14,2% ao ano quando testado só com as empresas ainda listadas; com a base completa, incluindo as que saíram da bolsa, caiu para 12,8%. Das 173 ações que a regra comprou em algum momento desde 2006, 47 já não são negociadas: 18 foram incorporadas por outra empresa, 17 saíram numa oferta de compra (OPA, quando alguém compra as ações de todos os acionistas para tirar a empresa da bolsa) e as demais por outros motivos. Um teste feito com a lista de hoje não enxerga nenhuma delas.

Onde o teste pode enganar

O yield de hoje está inflado. Em dezembro de 2025, várias empresas anteciparam dividendos antes da nova tributação. Em set/2026, isso fazia papéis aparecerem com yields de 24% a 48% em 12 meses. Esses pagamentos não se repetem, e a carteira que a regra montaria hoje é quase toda feita desse efeito.

Pode ser sorte. Quando se testam muitas ideias, alguma vai parecer ótima por acaso; por isso quem testa muito precisa exigir um resultado mais forte. Descontando os mais de mil testes já feitos na nossa base (a conta se chama Deflated Sharpe), o resultado não se separa da sorte. Na prova cega, a regra rendeu cerca de 13% ao ano. Ficou acima do CDI (9,1%), mas praticamente empatada com o Ibovespa (12,1%).

O livro é mais que a regra. Bazin também falava de ler a empresa e desconfiar de dividendo que não cabe no lucro. Isso não entra num teste mecânico.

A versão prática

  1. Use o yield como filtro, não como gatilho. Ele diz onde procurar, não quando comprar.
  2. Olhe de onde veio o yield. Se ele subiu porque o preço caiu, investigue o motivo antes de comemorar o rendimento.
  3. Desconte os pagamentos extraordinários. Um dividendo antecipado ou único infla o número por 12 meses.
  4. Exija constância. Cinco anos seguidos pagando foi o filtro que mais ajudou no teste.
  5. Decida antes o que fazer na queda. A regra caiu 51% sem a trava. A trava cortou isso para 18% sem mudar o retorno.

No Quantor

Nos Rankings, o ranking Bazin, no grupo dos Mestres, aplica os critérios dele no universo de hoje, e a coleção Pagadoras em alta junta o yield acima de 5% com a régua em alta. Na tela Analisar papel, o bloco Fundamentos e mestres mostra se o papel passa nos critérios do Bazin e o bloco Dividendos mostra de onde vieram os proventos. Os testes desta aula saíram da pesquisa do Quantor. É o resultado de uma regra, não uma recomendação, e resultado passado não garante futuro.

Teste você mesmo: abra nos Rankings as ações com yield acima de 10% e, para cada uma, veja no bloco Dividendos se o último ano teve um pagamento fora do padrão. Quantas continuam acima de 6% sem ele?

O que fica

  • O preço-teto bateu o CDI e o Ibovespa em 20 anos, mas a vantagem ficou concentrada antes de 2020.
  • Yield alto muitas vezes é preço caindo ou dividendo que não volta.
  • A trava não mudou o retorno do Bazin; mudou a queda que você precisaria aguentar.

Para pensar: das suas ações de dividendos, quantas você compraria hoje se o yield de 12 meses não contasse os pagamentos extraordinários?

O dividendo alto é o começo da pergunta, não a resposta.

Voltar à trilha Os métodos famosos testadosTodas as trilhas

Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.

Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.