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De onde vem o dinheiro · Aula 2 de 3

Dividendo alto é confissão, não prêmio

O quinto das ações que mais pagam tinha o melhor retorno sobre o patrimônio da bolsa e, mesmo assim, viu o provento encolher 17% ao ano nos três anos seguintes. Yield alto diz em que fase a empresa está, não quanto ela vai pagar.

por Vinícius Rosa11 min de leituraatualizada em trecho aberto
Dividendo alto é confissão, não prêmio

Em 1 minuto

  • Dividendo é o que sobra quando a empresa não tem onde reinvestir com retorno bom: diz a fase do negócio, não a qualidade.
  • Na B3, o quinto de maior yield tinha ROE alto, mas o lucro dele mal cresceu nos três anos seguintes e o provento por ação encolheu 17,2% ao ano.
  • Pagadoras previsíveis, cíclicas e reinvestidoras pedem leituras diferentes do mesmo yield.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Estimar quanto uma empresa consegue crescer com o que retém
  • Classificar uma pagadora em previsível, cíclica ou reinvestidora
  • Ler o provento em reais por ação em vez do yield

A tese: quem paga muito está avisando que não tem onde pôr o dinheiro

A leitura comum diz que empresa que paga muito dividendo é sólida e empresa que paga pouco é imatura. Os dados da B3 mostram uma coisa mais interessante e mais útil: as empresas que mais pagam costumam ser boas, sim, em rentabilidade. O que elas não fazem é crescer.

A ideia: Dividendo alto não é prêmio por qualidade. É a confissão de que a empresa não achou onde reinvestir melhor do que você.

Uma transmissora sabe quanto vai faturar daqui a seis anos, porque o contrato está assinado e corrigido pela inflação, e não tem projeto que renda muito acima do que o regulador permite. Devolve o caixa. Uma indústria que transforma cada real retido em mais de 30 centavos de retorno por ano faz o contrário: devolver seria desperdiçar. As duas estão certas. O erro é do investidor que lê o yield como nota de qualidade e compra a fase errada para o objetivo que tem.

O mecanismo: três forças que decidem quem paga

1. A previsibilidade da receita. Uma empresa só sustenta payout alto ano após ano se a receita do ano que vem se parecer com a deste. Transmissão, geração com contrato longo, saneamento, seguradora, banco grande: todos oscilam pouco em torno de uma linha conhecida. É por isso que esses setores aparecem no topo das listas de yield com frequência.

2. A oportunidade de reinvestir. Cada real retido rende o retorno que a empresa consegue sobre o patrimônio, o ROE (lucro dividido pelo patrimônio líquido). A conta que liga as duas coisas cabe numa linha: o crescimento que a empresa consegue financiar sozinha, sem dívida nem ação nova, é perto de ROE × (1 − payout). Uma empresa com ROE de 20% que distribui 90% do lucro consegue crescer uns 2% ao ano com o que sobra. Com ROE de 20% e payout de 30%, 14%. Quem paga muito escolheu, ou foi obrigado pelo negócio, a crescer devagar.

3. O ciclo e a volta à média. O yield de 12 meses divide o que a empresa pagou no último ano pelo preço de hoje. Ele fica alto quando o provento está no pico (o ano bom do minério, do petróleo, do aço) ou quando o preço caiu. Nos dois casos, a tendência é o número voltar: o provento cai, o preço sobe, ou as duas coisas. Commodity paga muito no topo e corta no fundo por construção. Não é má gestão; é o negócio.

O que os dados da B3 mostram

Para medir, tiramos um retrato em cada dezembro, de 2012 a 2022, das pagadoras que negociavam pelo menos R$ 5 milhões por dia, inclusive as que depois saíram da bolsa. Em cada retrato, dividimos as ações em cinco grupos de mesmo tamanho pelo dividend yield (os "quintos"), do que menos paga ao que mais paga. Depois olhamos o que aconteceu nos três anos seguintes.

Antes de continuar: O quinto das pagadoras de maior yield (8,8% na mediana) tinha ROE maior ou menor que o quinto das que menos pagavam (0,6%)?

a) Bem menor: quem paga muito é empresa pior · b) Parecido · c) Bem maior

Resposta: Bem maior. Bem maior: 17,4% de ROE mediano, contra 6,7%. As grandes pagadoras não eram empresas fracas. Eram empresas rentáveis que distribuíam quase tudo.

Quinto de yield Yield (mediana) Payout ROE Lucro, 3 anos seguintes Provento por ação, 3 anos seguintes
1º (menor) 0,6% 22% 6,7% +14,3% ao ano +25,3% ao ano
2º 1,7% 34% 12,1% +8,5% ao ano +13,4% ao ano
3º 3,1% 46% 13,9% +10,0% ao ano +7,4% ao ano
4º 4,9% 54% 15,0% +7,2% ao ano +1,4% ao ano
5º (maior) 8,8% 77% 17,4% +1,3% ao ano −17,2% ao ano

Medianas de cada grupo, retratos de dezembro de 2012 a 2022. O crescimento de três anos só conta quem continuou listado e com lucro positivo nas duas pontas, o que favorece um pouco todos os grupos.

A tabela tem duas leituras, e as duas importam.

A primeira confirma a força 2. Quanto maior o payout, menor o crescimento do lucro dali em diante: de 14,3% ao ano no grupo que retém quase tudo para 1,3% no que distribui 77%. A conta ROE × (1 − payout) dá, na mediana, 6,6% de crescimento possível para o primeiro quinto e 3,5% para o último. O ROE alto do último grupo não compensa o pouco que ele deixa na empresa.

A segunda confirma a força 3, e é a que mais pesa para quem quer renda.

Antes de continuar: Nos três anos depois do retrato, o que aconteceu com o provento por ação do quinto de maior yield?

a) Cresceu uns 5% ao ano, acompanhando a inflação · b) Ficou mais ou menos estável · c) Encolheu mais de 15% ao ano

Resposta: Encolheu mais de 15% ao ano. Encolheu 17,2% ao ano na mediana. Boa parte do yield alto era um provento no pico do ciclo ou um preço deprimido. Nos 12 meses seguintes, 35,4% delas já tinham cortado o provento pela metade.

O yield de 8,8% da tela não era a renda dos anos seguintes. Era a do ano que passou.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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