O yield de 45% que se despede de você
Pagamento extraordinário, devolução de capital e o pico de um ciclo entram na conta do DY como se fossem renda. Em 20 anos de B3, as ações com DY acima de 15% na tela cortaram o provento pela metade ou mais em dois de cada três casos.

Em 1 minuto
- DY acima de 15% quase nunca é renda: é um dinheiro que não volta, um preço que caiu ou o pico de um ciclo.
- Em quase 800 casos de ações líquidas com DY acima de 15% de 2006 a 2025, vieram 7,9% nos 12 meses seguintes, e 65,7% cortaram pela metade ou mais.
- A devolução de capital entra na conta do DY como provento: na STBP3 de outubro de 2024, ela era 70% dos 20,9% da tela.
Ao fim desta aula você vai saber
- Procurar a origem de um DY alto antes de fazer qualquer conta
- Separar do DY a devolução de capital e o pagamento extraordinário
- Usar a média de cinco anos de proventos no lugar dos últimos doze meses
A tese: quanto maior o yield, menor a chance de ele se repetir
Um dividend yield de 15%, 30%, 43% não é sinal de empresa generosa. Quase sempre é uma empresa devolvendo um dinheiro que não vai ter de novo, ou um preço que caiu tanto que o pagamento do ano passado virou um percentual absurdo.
A ideia: Quanto maior o yield, menor a chance de ele se repetir. A lista ordenada pelo maior DY foi construída, sem querer, para achar exatamente o que não se repete.
A aula 4 mediu o DY da tela contra o que veio depois, faixa por faixa. Esta abre a última linha daquela tabela: o que existe por trás dos números de dois dígitos altos.
O mecanismo: três coisas que inflam o yield sem criar renda
1. O pagamento extraordinário. A empresa vendeu uma subsidiária, um terreno, uma participação, ou teve um lucro fora da operação, e distribuiu. O dinheiro é real. Mas o lucro da operação no ano seguinte continua o mesmo, ou menor, porque o ativo vendido saiu de casa. Em 30/09/2026, a RIAA3 mostrava DY de 45,4% e P/L de 2,35. Quase tudo veio de uma única data ex: em 23/12/2025, a empresa distribuiu R$ 2,98 por ação, 26,7% do preço da véspera. Até 01/10/2026, vieram mais R$ 0,34 por ação, em quatro JCPs.
2. A devolução de capital. Aqui nem dividendo é: a empresa reduz o capital social e devolve aos sócios parte do dinheiro que eles colocaram nela. Na B3, o evento aparece como "restituição de capital em dinheiro". A base do Quantor registra 96 desses eventos em 67 ações desde 2000, e o DY de 12 meses os soma aos proventos, como faz a maior parte das telas.
3. O pico do ciclo. Mineradoras, petroleiras e siderúrgicas pagam muito quando a commodity está cara. O DY de 12 meses de uma cíclica olha pelo retrovisor, e o retrovisor mostra o melhor ano.
O que os dados mostram acima de 15%
Na base do Quantor, entre as ações líquidas (mais de R$ 10 milhões negociados por dia), houve quase 800 combinações de papel e fim de mês com DY acima de 15% na tela, de janeiro de 2006 a setembro de 2025, em 85 ações diferentes.
Antes de continuar: Ações líquidas com DY acima de 15% na tela (20,1% na mediana). Em quantos casos o provento dos 12 meses seguintes veio pela metade ou menos?
a) Uns 15%: o DY alto costuma se manter · b) Uns 35% · c) Uns 65%: dois em cada três · d) Todos
Resposta: Uns 65%: dois em cada três. 65,7%. A mediana do que veio foi de 7,9%, contra 20,1% na tela. Só 8,3% pagaram igual ou mais no ano seguinte.
O resultado muda muito conforme a origem do pagamento. O payout, a fatia do lucro distribuída, se calcula como o DY vezes o P/L: se passa de 100%, a empresa pagou mais do que lucrou.
| DY acima de 15%, por situação | Parte dos casos | DY da tela | O que veio nos 12 meses seguintes | Cortou pela metade ou mais |
|---|---|---|---|---|
| Empresa com prejuízo | 12,5% | 25,5% | 1,1% | 85,0% |
| Payout acima de 100% | 45,2% | 20,9% | 8,3% | 72,8% |
| Payout até 100% | 26,3% | 17,8% | 10,2% | 47,6% |
Os outros 15,9% não tinham P/L calculado na base. Mesmo no melhor grupo, o das empresas que pagaram menos do que lucraram, quase metade cortou pela metade. E o pagamento mediano que veio, 10,2%, ainda era bom: o problema do DY alto não é que ele vire zero, é que ele não é o que a tela mostra.
O preço conta o resto. Na mesma base da aula 4, as ações da faixa de 8% a 10% de DY tiveram retorno total mediano de 14,0% nos 12 meses seguintes; as de DY acima de 15%, 5,9%. O yield maior não veio acompanhado de ganho maior.
A frequência também muda com o ciclo. Em 2017, só 0,7% das combinações de ação líquida e mês tinham DY acima de 15%. Em 2022, no pico das commodities, eram 9,0%. Quando a lista de DY altos fica longa, é sinal de que o retrovisor está cheio de anos excepcionais.
O filme inteiro: a PETR4 de 2022 a 2025
R$ 16,66 proventos da PETR4 por ação com data ex em 2022 · 71,5% o DY da tela em 31/03/2023, a R$ 23,45 · R$ 3,23 proventos por ação com data ex em 2025
A Petrobras é o caso mais didático da B3, porque o yield extraordinário veio de uma empresa lucrativa, que gerou caixa de verdade. Pela data ex, os proventos por ação foram de R$ 5,65 em 2021, R$ 16,66 em 2022, R$ 7,13 em 2023, R$ 7,78 em 2024 e R$ 3,23 em 2025. Com o petróleo alto e uma política que distribuía uma fatia grande do caixa livre, 2022 foi um ano fora da curva.
Em 31/03/2023, os proventos dos doze meses anteriores somavam R$ 16,77 por ação, e a ação valia R$ 23,45: DY de 71,5% na tela. Nos doze meses seguintes, a empresa pagou 31,2% daquele preço. É muito, e é menos da metade do que a tela mostrava. Em 30/09/2026, o DY era de 7,4%, a R$ 49,12. A empresa continuou lucrativa. O yield extraordinário era do ciclo do petróleo, não da companhia.
O caso extremo é o oposto: em 30/09/2025, a MBRF3 mostrava DY de 29,1%, somando dois pagamentos de cerca de R$ 2,8 por ação, um em dezembro de 2024 e outro em setembro de 2025. Nos doze meses seguintes, nenhum provento com data ex.
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