Projeto final: a sua carteira de renda, no papel, antes do primeiro real
Um caso completo, da renda que se quer ao patrimônio necessário, ao prazo, à estrutura e às regras de entrada e saída, montado com os números de todo o curso. Depois, a sua vez: o simulador, o checklist de 12 itens e o teste final.

Em 1 minuto
- Uma carteira de renda se monta de trás para frente: a renda que você quer, a taxa honesta de retirada, o patrimônio necessário e o prazo.
- No caso da aula, R$ 6 mil por mês a 5% pedem R$ 1,44 milhão, e o prazo vai de 10 a 19 anos conforme o aporte e o retorno.
- O que protege o plano não é a lista de papéis: é o caixa, as regras de entrada e saída escritas antes e a revisão uma vez por ano.
Ao fim desta aula você vai saber
- Calcular o patrimônio e o prazo da sua renda-alvo
- Escrever regras de entrada e de saída com os números do curso
- Testar a carteira contra uma queda antes de precisar dela
A tese: o plano de renda não começa pela ação, começa pela conta
A pergunta que todo mundo faz no fim de um curso de dividendos é "quais ações eu compro?". É a pergunta que este curso evitou de propósito. Não por cautela jurídica: porque ela vem na ordem errada. Antes de saber que papel comprar, você precisa saber quanto patrimônio a sua renda exige, em quanto tempo ele se forma e o que vai protegê-lo no ano do corte. Sem isso, qualquer lista é um palpite com yield.
A ideia: Uma carteira de renda boa não depende de acertar as pagadoras do ano que vem. Depende de uma conta honesta, de um caixa e de regras escritas antes do primeiro real.
Esta aula resolve um caso inteiro, com os números do curso. Não é uma recomendação: é uma demonstração de método, com a conta à mostra para você refazer com o seu número.
O mecanismo: as três forças que o plano usa
1. A renda vem do juro real, não do yield da tela. O módulo 6 mostrou que a retirada sustentável é o juro real depois do imposto, e que o yield de hoje erra muito como previsão: na B3, o quinto de maior yield de cada setembro de 2006 a 2016 chegou dez anos depois pagando 39% menos em poder de compra. O plano usa uma taxa de retirada, e não a média dos yields.
2. O caixa separa a renda do preço. O risco de sequência (módulo 6, aula 2) e o corte de provento (módulo 2) atacam no mesmo lugar: obrigam a vender na baixa. Um caixa de dois anos de saques desarma os dois.
3. A regra escrita protege do próprio investidor. O pior dia para decidir é o dia em que o extrato está vermelho e o yield da tela está lindo. Cada peça do plano sai daqui com uma regra de entrada e uma de saída, escritas antes.
O caso: Carla, 47 anos
Carla é servidora, gasta R$ 9 mil por mês e quer que a carteira pague R$ 6 mil por mês, em dinheiro de hoje, para poder reduzir a carga de trabalho no futuro. Tem R$ 350 mil investidos, consegue aportar R$ 4 mil por mês e já tem a reserva de emergência separada, fora desta conta.
Passo 1: a taxa de retirada honesta
Ela compara as três referências do curso:
| Referência | Taxa | De onde vem |
|---|---|---|
| Juro real líquido do Tesouro IPCA+ 2035 | 5,85% | taxa de compra de 7,56% em 25/09/2026, IPCA suposto de 4%, IR de 15% (módulo 6, aula 1) |
| Juro real líquido do CDI, média de 2006 a 2025 | 3,06% | CDI e IPCA do Banco Central, IR de 15% (módulo 6, aula 1) |
| A regra americana | 4% | Bengen, 1994, com juro real perto de 2% |
Carla escolhe 5%: abaixo do juro real que dá para travar hoje, acima do que o pós-fixado entregou em média. Ela anota a razão na ficha, porque é esse número que vai revisar quando o juro real mudar de patamar.
Passo 2: o patrimônio necessário
R$ 6 mil por mês são R$ 72 mil por ano. Patrimônio necessário = renda anual ÷ taxa de retirada = 72.000 ÷ 0,05 = R$ 1,44 milhão. Os R$ 350 mil de hoje, a 5%, já pagariam R$ 1.458 por mês.
Passo 3: o prazo
Com R$ 4 mil por mês e um retorno de 4% ao ano acima da inflação, a conta dos juros compostos com aporte dá 161 meses, cerca de 13,4 anos. O prazo é sensível a tudo:
| Cenário | Taxa de retirada | Retorno real | Aporte | Patrimônio | Prazo |
|---|---|---|---|---|---|
| O plano | 5% | 4% | R$ 4 mil | R$ 1,44 milhão | 13,4 anos |
| Aportando mais | 5% | 4% | R$ 6 mil | R$ 1,44 milhão | 10,3 anos |
| Juro real alto | 5,85% | 5% | R$ 4 mil | R$ 1,23 milhão | 10,4 anos |
| Pessimista | 4% | 3% | R$ 4 mil | R$ 1,8 milhão | 18,6 anos |
Antes de continuar: No plano de Carla, o que encurta mais o prazo: subir o aporte de R$ 4 mil para R$ 6 mil por mês, ou ter 1 ponto a mais de retorno real e de taxa de retirada?
a) O retorno, sempre · b) O aporte: 10,3 anos, contra 10,4 anos do cenário de juro real alto · c) Nenhum dos dois muda o prazo em mais de um ano
Resposta: O aporte: 10,3 anos, contra 10,4 anos do cenário de juro real alto. Os dois tiram cerca de três anos, mas o aporte é o único que depende dela. O juro real alto encurta o prazo porque reduz o patrimônio necessário e acelera o caminho; se não vier, o plano atrasa até 18,6 anos no cenário pessimista.
Passo 4: a estrutura no dia em que a renda começa
Quando os R$ 1,44 milhão estiverem formados, Carla não vai viver do que a carteira pagar naquele mês. Ela separa em três blocos, cada um com uma função:
- O caixa: R$ 144 mil, dois anos de saques, em pós-fixado de liquidez diária. Paga a mesada quando a parte de renda variável está em baixa ou quando um provento é cortado. Repõe-se nos anos bons.
- A renda fixa indexada à inflação: metade do resto, R$ 648 mil, em títulos IPCA+ com vencimentos escalonados, para não reinvestir tudo no mesmo ano. É a parte que tem juro real travado.
- A renda variável: a outra metade, R$ 648 mil, entre ações pagadoras e FIIs, espalhada pela origem do dinheiro: juro (bancos e seguradoras), inflação (contratos regulados), dólar e commodity, aluguel e crédito imobiliário.
A divisão é a de Carla, com a tolerância a queda dela. A sua pode ser outra. O que não muda é a lógica: a renda que precisa ser certa vem do caixa e da renda fixa; a que pode variar vem da renda variável.
O teste de estresse. Se a parte de renda variável cair 40% no primeiro ano, ela vai a R$ 388.800, e o patrimônio a R$ 1.180.800. Os mesmos R$ 72 mil de saque passam a ser 6,1% dele, abaixo dos 8% que a aula de risco de sequência marcou como o limite de um plano que aguenta um 2008 no começo. E, com o caixa, nenhuma ação precisa ser vendida no fundo.
Passo 5: as regras de entrada
Cada papel que entra na parte de renda variável passa por um filtro escrito, com os números que o curso mediu:
| Regra | Por quê (o número do curso) |
|---|---|
| Não comprar pelo topo da lista de yield | DY acima de 8% depois de uma queda de 30% no preço veio pela metade ou menos em 65,4% dos casos (módulo 1) |
| Olhar o payout sobre o lucro e sobre o caixa | Passar de 100% do lucro num ano isolado antecedeu corte pela metade em 43,8% dos casos (módulo 2) |
| Contar os sinais do balanço | Nas não financeiras, sem nenhum dos três sinais o corte veio em 11,5% dos casos; com os três, em 52,7% (módulo 2) |
| Medir a velocidade, não a foto | Comparar o provento por ação de hoje com o de cinco anos atrás, contra a inflação (módulo 6) |
| No FII, desconfiar do DY no topo do segmento | O quinto de maior DY cortou 30% ou mais em 14,4% dos casos, contra 2,3% a 3,7% dos outros (módulo 5) |
| No FII, não tratar P/VP baixo como desconto | O quinto mais descontado rendeu 3,7% em 12 meses na mediana, contra 8,1% a 8,4% dos dois seguintes (módulo 5) |
| Conferir a isenção do FII | 100 cotistas ou mais, cotas só em bolsa e menos de 10% das cotas com você (módulo 7) |
Passo 6: as regras de saída
Escritas agora, para não serem inventadas no dia ruim. Carla sai de um papel quando: o provento é cortado pela metade e os sinais do balanço estavam acesos; o dividendo passa a sair da dívida por dois anos seguidos; num FII, o patrimônio por cota cai mais de 10% num ano ou a carteira de crédito começa a atrasar. Ela não sai porque o preço caiu, porque outro papel tem yield maior na tela ou para pegar a data com de outro.
Passo 7: o calendário e o imposto
Todo provento cai numa conta de passagem em liquidez diária, e de lá sai a mesada no mesmo dia de todo mês. Pela aula anterior, um colchão de dois a três mesadas, R$ 12 mil a R$ 18 mil, alisa o calendário das ações. Nas vendas, ela fica abaixo de R$ 20 mil por mês em ações sempre que der, porque a isenção olha o total vendido. O JCP chega com 17,5% retidos, e o planejamento usa o líquido.
Passo 8: a revisão
Uma vez por ano, em janeiro: o patrimônio contra a meta, o caixa reposto ou não, os papéis contra as regras de saída. Fora de janeiro, só duas coisas fazem Carla mexer no plano: o juro real mudar de patamar ou a vida mudar.
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