Os quatro regimes: o macro que não adivinha nada
Duas perguntas (o crescimento está acelerando? a inflação está subindo?) dão quatro estados possíveis da economia. A aba Macro responde as duas com dado já publicado, sem prever nada.

A ideia: classificar, não adivinhar
Você liga o noticiário e todo mundo está tentando adivinhar alguma coisa: o PIB do próximo trimestre, a inflação do mês que vem, se o Copom (o comitê do Banco Central que define a taxa Selic) vai cortar ou não. É o trabalho mais difícil do mercado, e quem faz isso erra com frequência.
Existe uma pergunta bem mais barata: em que estado a economia está agora? Para responder, bastam duas perguntas. O crescimento está acelerando ou desacelerando? A inflação está subindo ou caindo? Duas respostas de sim ou não dão quatro combinações, e cada uma recebeu um nome em inglês que o mercado usa no mundo todo.
Classificar o estado não exige opinião sobre o futuro: usa dado que já foi publicado. É isso que a aba Macro do Quantor faz, para o Brasil e para os EUA.
A régua aplicada à economia
Nas ações, o Quantor compara o preço do mês com a média dos últimos cinco meses (a régua EMA-5: uma média que dá mais peso aos meses recentes). Na aba Macro, a mesma régua é aplicada a dois indicadores da economia:
- Crescimento: o IBC-Br, uma espécie de prévia mensal do PIB feita pelo Banco Central, medido em variação contra 12 meses antes.
- Inflação: o núcleo do IPCA, a inflação sem os itens mais voláteis (alimentos, energia, combustíveis), acumulada em 12 meses.
Acima da própria média, o indicador está subindo; abaixo, caindo. Veja a conta com o dado de julho de 2026, o mais recente do IBC-Br quando esta aula foi escrita:

À esquerda, os quatro regimes. À direita, a conta que colocou o Brasil em Slowdown: os dois indicadores abaixo da própria média.
O IBC-Br cresceu 1,31% em 12 meses, abaixo da média recente de 1,40%: crescimento caindo. O núcleo marcou 4,47%, abaixo da média de 4,52%: inflação caindo. Caindo com caindo dá Slowdown.
Repare que a régua não pergunta se 1,31% é bom ou ruim. Pergunta só a direção. Isso vai importar muito na aula 4.
Os quatro, em uma frase cada
- Goldilocks (crescimento subindo, inflação caindo): a economia melhora sem pressionar preços. É o cenário em que quase tudo funciona.
- Reflation (crescimento subindo, inflação subindo): a economia esquenta e os preços vêm junto. O Banco Central tende a subir juro.
- Slowdown (crescimento caindo, inflação caindo): a economia esfria, mas a inflação cede, e isso abre espaço para corte de juro.
- Stagflation (crescimento caindo, inflação subindo): a pior combinação. A economia perde fôlego e o juro não pode ajudar.
Por que essas duas perguntas bastam? Porque o preço de uma ação depende, no fundo, de duas forças: quanto a empresa vai lucrar (o crescimento empurra para cima) e quanto o dinheiro custa (a inflação faz o Banco Central subir o juro, e juro alto faz o lucro futuro valer menos hoje). Os quatro regimes são as quatro combinações dessas forças.
Lendo a aba Macro
Este é o topo da aba Macro Brasil em setembro de 2026:

Print da aba Macro Brasil. Os números nos círculos são explicados logo abaixo.
(1) O regime atual e há quanto tempo ele dura: Slowdown há 2 meses. No canto, "dado de jul/26": o IBC-Br sai com cerca de 45 dias de atraso, então em setembro o dado mais novo é o de julho.
(2) A confirmação. A aba só chama o regime de confirmado quando ele aparece em dois meses seguidos; aqui, desde junho de 2026. Um mês sozinho aparece como "em transição".
(3) As duas setas do regime: crescimento caindo, inflação caindo.
(4) A fita dos últimos cinco anos: cada tracinho aceso é um mês em que o Brasil esteve naquele regime. Slowdown ocupou 23% do tempo.
(5) O que aconteceu depois: nas vezes em que o Brasil esteve em Slowdown, o Ibovespa subiu em média 14,4% nos 12 meses seguintes, e terminou positivo em 88% das janelas. O "n=24" diz de quantos meses sai essa média. As aulas 2 e 8 abrem essa tabela.
Os EUA usam a mesma lógica com outros indicadores: as vagas de emprego criadas por mês (o payroll, em média de 3 meses) e o núcleo da inflação ao consumidor. No dado de agosto de 2026, os EUA caíram em Goldilocks, mas julho tinha sido Slowdown: é o primeiro mês, ainda não confirmado.
Onde engana
Regime não é previsão. Ele descreve o estado de agora. O retorno dos 12 meses seguintes acontece num futuro que pode ter duas trocas de regime no meio.
O regime troca muito. Recalculamos a regra da aba desde 2004 com os dados do Banco Central: em 22 anos, o Brasil trocou de regime 85 vezes, e um terço dessas passagens durou um mês só. Por isso a aba exige dois meses seguidos para confirmar. Mesmo assim, um regime confirmado continuou igual três meses depois em só 47% das vezes.
A amostra é pequena. "n=24" parece muito, mas meses vizinhos compartilham quase toda a janela de 12 meses. Na prática, são poucos episódios de verdade.
Na prática
1. Classifique antes de opinar. Antes de qualquer tese sobre juro ou bolsa, diga em uma frase: "o Brasil está em Slowdown, confirmado desde junho".
2. Olhe a direção, não o nível. Inflação de 4% caindo e inflação de 4% subindo são regimes diferentes.
3. Respeite a confirmação. Um mês em regime novo é aviso, não mudança.
4. Use o regime para calibrar, não para decidir sozinho. Ele diz com que vento você está andando; a régua de cada papel continua decidindo a posição.
No Quantor
Na aba Macro, em Macro Brasil e Macro EUA: o regime atual, a confirmação, a fita dos últimos cinco anos, as peças de cada eixo (inflação, núcleo, atividade, emprego) e a tabela do que cada ativo fez depois de cada regime.
Regime não prevê nada: só diz onde você está, e isso já é mais do que a maioria sabe.
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