Fiscal: o risco que não aparece no IPCA
A dívida do governo não entra no regime nem no preço do supermercado. Ela entra no juro longo, no dólar e no desconto que o mercado aplica a tudo o que você tem na B3.

A ideia: o fiscal não muda o regime, muda o preço de estar nele
A dívida pública é o assunto preferido de quem quer explicar por que a bolsa brasileira "não anda". E ela é um problema real. Mas o jeito como ela chega na sua carteira é indireto.
O IPCA você sente no supermercado. A dívida do governo você não sente em lugar nenhum diretamente. Ela aparece no juro que o Tesouro paga para se financiar, no dólar e no desconto que o mercado aplica ao lucro futuro de todas as empresas.
O fiscal não define o regime macro: define quanto o mercado cobra para você estar dentro dele.
Como a dívida vira preço
Mais dívida é mais título à venda. Para rolar a dívida e cobrir o déficit, o Tesouro vende títulos todo mês. Quanto mais precisa vender, mais precisa pagar para achar comprador. Pagar mais, em renda fixa, significa juro mais alto.
Juro longo alto é desconto maior. O valor de uma ação é lucro futuro trazido para hoje (aula 3). Se o juro dos títulos longos sobe por medo fiscal, o lucro de 2030 vale menos hoje, mesmo que a empresa não mude nada.
O prêmio muda antes do dado. A dívida se mexe devagar, em anos. O medo sobre ela se mexe rápido: uma declaração, um orçamento, uma eleição. O preço reage ao medo, não ao número.
A dívida na régua
A aba Macro aplica a mesma régua a dívida e crédito: o valor do mês contra a média dos últimos cinco meses. Subindo é piorando.

Fundo vermelho: o dado acima da própria média (piorando). Fundo verde: abaixo (melhorando). Os pontos marcam os números citados no texto.
A dívida bruta do governo (tudo o que União, estados e municípios devem, como proporção do PIB) estava em 82,6% em julho de 2026. Um ano antes, 77,2%: +5,4 pontos em 12 meses. Na régua, subindo há 14 meses seguidos.
No crédito, a inadimplência (a fatia dos empréstimos com atraso acima de 90 dias) estava em 4,88%, subindo há 19 meses. Em dezembro de 2020 era 2,16%, a mínima da série no gráfico. Inadimplência subindo é o crédito concedido no passado virando perda agora; aparece no lucro dos bancos e no consumo.
Em 2015, tudo pesou junto
Em 2015, a dívida saltou de 56,3% para 65,5% do PIB em um ano: +9,2 pontos. A inflação passou de 10%, o país perdeu o grau de investimento e o regime ficou quase o ano inteiro em Stagflation.
O Ibovespa caiu 13,3% no ano. Para um estrangeiro, foi pior: o dólar foi de R$ 2,66 para R$ 3,90 no fim do ano, e o Ibovespa medido em dólar caiu 41%. Ali, o fiscal ruim veio junto com o regime ruim, e um piorou o outro.
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