Topos e fundos: dois em cada três fundos do diário não duram um mês
Contamos os topos e os fundos de 470 ações da B3 de 2006 a 2026 em três tempos gráficos. O diário marca 33 fundos por ano e 65% deles são furados em menos de um mês, no mesmo ritmo de uma série sorteada.

Em 1 minuto
- Tendência de alta, na definição clássica, é uma sequência de topos e fundos cada vez mais altos. Mas quantos fundos existem depende do tempo gráfico, não do papel.
- Em 470 ações da B3 desde 2006, o diário marcou 33 fundos por ano, e 65% foram furados em menos de um mês; no mensal, 1,5 por ano, e 13% furaram.
- Uma série sorteada, sem tendência nenhuma, deu quase os mesmos números. O fundo do mensal dura mais porque chega longe: quando se confirma, o preço já está 23% acima dele.
Ao fim desta aula você vai saber
- Marcar topos e fundos com uma regra, sem desenhar
- Escolher o tempo gráfico pelo número de sinais falsos que você aceita
- Medir quanto custa esperar a confirmação de um fundo
A tese: o fundo que você vê é escolha do seu tempo gráfico
A definição mais antiga de tendência, que vem de Charles Dow no começo do século 20, é também a mais intuitiva: uma alta é uma sequência de topos e fundos cada vez mais altos; uma baixa, de topos e fundos cada vez mais baixos. Quando o preço faz um fundo mais alto que o anterior, a tendência de alta está de pé. Quando fura o último fundo, ela quebrou.
A definição é boa. O que quase ninguém conta é que a resposta depende de onde você olha. O mesmo papel, no mesmo ano, pode ter dezenas de fundos no gráfico diário e um só no mensal. Cada fundo do diário que é furado conta, para quem olha o diário, como "a tendência quebrou".
Para saber quanto isso pesa, contamos.
Como um topo e um fundo viram regra
Para contar, o fundo precisa de uma definição que não dependa do olho. Usamos a mais comum: um fundo é uma barra cuja mínima é menor que a mínima das duas barras antes e das duas barras depois. O topo é o espelho: a máxima maior que a das duas de cada lado. A barra pode ser um dia, uma semana ou um mês.
Repare num detalhe que vai importar: o fundo só existe depois que as duas barras seguintes se formam sem furá-lo. No diário, isso leva dois pregões. No mensal, dois meses. A confirmação sempre chega atrasada, e o atraso cresce com o tempo gráfico.
O teste usou as 470 ações que estiveram no universo líquido da B3 em algum mês de 2006 a setembro de 2026, inclusive 203 que já saíram da bolsa, com os preços ajustados por proventos. Cada fundo só conta se a ação estava líquida naquele mês. Depois de cada fundo confirmado, olhamos se a mínima de algum pregão o furou nos 21 pregões seguintes (cerca de um mês) e nos 63 seguintes (cerca de três meses).
O resultado: o diário marca muito e quase tudo fura
Antes de continuar: No gráfico diário, em 470 ações da B3 de 2006 a 2026, que fatia dos fundos foi furada em menos de um mês depois de confirmada?
a) Uns 15%: fundo confirmado costuma segurar · b) Uns 35% · c) Uns 65%: dois em cada três
Resposta: Uns 65%: dois em cada três. 65,3%. O diário marcou 32,6 fundos por ano por ação, e dois em cada três foram furados nos 21 pregões seguintes. No mensal, só 12,6%.
| Tempo gráfico | Fundos por ano, por ação | Furados em até 1 mês | Furados em até 3 meses | Preço na confirmação, acima do fundo (mediana) |
|---|---|---|---|---|
| Diário | 32,6 | 65,3% | 77,9% | 3,9% |
| Semanal | 6,6 | 37,6% | 56,5% | 9,4% |
| Mensal | 1,45 | 12,6% | 28,5% | 23,1% |
Os topos fizeram o mesmo do outro lado: 32,7 por ano no diário, e 68,1% deles foram superados em menos de um mês; no mensal, 15,9%.
Leia a tabela de cima para baixo e ela conta a aula inteira. Quanto mais curto o tempo gráfico, mais fundos você vê, e mais deles são desfeitos. Quem segue a tendência pelo diário vai ver, num ano típico, cerca de 21 fundos furados num único papel. Cada um parece, na hora, o fim da alta.
O controle: o acaso desenha os mesmos fundos
Se dois em cada três fundos do diário furam, será que eles dizem alguma coisa? Para responder, fizemos o mesmo teste em séries de preço geradas por sorteio: 2.000 séries de 21 anos, com oscilação de 30% ao ano e nenhuma memória, em que cada dia é uma moeda jogada de novo.
| Tempo gráfico | Fundos por ano | Furados em até 1 mês |
|---|---|---|
| Diário, ações da B3 | 32,6 | 65,3% |
| Diário, série sorteada | 30,5 | 65,8% |
| Semanal, ações da B3 | 6,6 | 37,6% |
| Semanal, série sorteada | 6,4 | 37,1% |
| Mensal, ações da B3 | 1,45 | 12,6% |
| Mensal, série sorteada | 1,50 | 14,0% |
Os números praticamente coincidem.
A ideia: Um fundo, sozinho, não é informação. O acaso produz fundos no mesmo ritmo e eles furam na mesma proporção. O que muda o número é o tempo gráfico que você escolheu.
O mecanismo: três forças por trás da tabela
1. O número de fundos é aritmética. Com a definição de duas barras de cada lado, um fundo aparece, em média, a cada oito barras, mais ou menos, em qualquer série com oscilação. O ano tem cerca de 252 pregões, 52 semanas e 12 meses. Daí os 33, os 6,6 e o 1,5. O papel quase não interfere: quem decide é o relógio.
2. O barulho cresce mais devagar que a tendência. A oscilação de um papel cresce com a raiz do tempo; a tendência, se existir, cresce com o tempo. Num dia, o barulho é dezenas de vezes maior que qualquer tendência, e cada fundo do diário é quase todo barulho. Num mês, a proporção melhora. A próxima aula faz essa conta por inteiro.
3. A confirmação custa distância. O fundo do mensal fura pouco porque, quando ele se confirma, o preço já se afastou: na mediana, 23,1% acima do fundo. No diário, só 3,9%. Um fundo longe é mais difícil de furar no mês seguinte, mas também é um aviso que chega tarde.
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