Fluxo operacional: lucro não paga conta
Empresas lucrativas quebram e empresas no prejuízo seguem de pé. O que separa uma coisa da outra é o caixa que a operação gera, e o capital de giro que pode engoli-lo.

A ideia: a conta chega em dinheiro, não em lucro
O salário do mês, a nota do fornecedor, os juros do banco: tudo isso é pago em dinheiro. Nenhuma dessas contas aceita "lucro contábil". É por isso que existe o clichê "a empresa quebrou dando lucro". Não é paradoxo: basta vender muito sem receber, ou comprar estoque demais para crescer.
A aula anterior subiu do lucro até o caixa livre. Esta para no meio do caminho, no fluxo de caixa operacional (FCO): o dinheiro que a atividade principal gerou, antes de qualquer investimento. Ele responde a pergunta mais básica sobre um negócio: a operação, sozinha, se paga?
O FCO mostra se o coração da empresa está bombeando. O capital de giro mostra se o bombeamento é de verdade ou de ocasião.
Do lucro ao FCO, em três passos
A demonstração de fluxo de caixa parte do lucro e faz dois ajustes:
1. Soma de volta o que não saiu do caixa. Depreciação, baixas contábeis de ativos, provisões: tudo isso reduziu o lucro, mas nenhum real saiu da conta naquele ano.
2. Ajusta o capital de giro. Capital de giro é o dinheiro preso no dia a dia: estoques, o que os clientes ainda devem (contas a receber) e o que a empresa ainda deve aos fornecedores (contas a pagar). Se o estoque cresce, dinheiro sai. Se o fornecedor dá mais prazo, dinheiro fica.
3. O resultado é o FCO. Dele, a aula 6 subtraiu o investimento para chegar ao caixa livre.
Quando o lucro some e o caixa não

Em azul, o lucro de cada ano; em verde, o caixa gerado pela operação.
De 2014 a 2016, a PETR4 teve prejuízo três anos seguidos; o pior foi 2015, com −R$ 35,2 bilhões. No mesmo ano, a operação gerou R$ 86,4 bilhões de caixa. O prejuízo veio de R$ 84,0 bilhões em outras despesas operacionais, linha onde entram as baixas do valor de ativos, e de um resultado financeiro de −R$ 28,0 bilhões, com juros e variação cambial da dívida. Boa parte disso não saiu do caixa naquele ano. Quem olhasse só o lucro veria uma empresa sangrando; quem olhasse o FCO veria uma operação gerando dinheiro, embora com uma dívida enorme para pagar.
Nos anos seguintes, o padrão continuou: o caixa da operação ficou acima do lucro em todos os anos do gráfico. Em empresas de muita máquina e muita depreciação, isso é normal.
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