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Dólar, câmbio e apetite a risco · Aula 6 de 8

Ibovespa: o índice de commodities que finge ser bolsa

Uma fatia grande do Ibovespa vende minério, petróleo e aço cotados em dólar. Quando esses preços caem, a bolsa cai e o dólar sobe pelo mesmo motivo, e quem acha que tem duas posições tem uma só.

por Vinícius Rosa4 min de leituraatualizada em trecho aberto
Ibovespa: o índice de commodities que finge ser bolsa

A ideia

Comprar o Ibovespa parece comprar "o Brasil": bancos, varejo, energia, saneamento. Mas uma fatia grande do índice, algo entre 25% e 30%, está em três tipos de empresa: a Vale, a Petrobras e as siderúrgicas. As três vendem produtos com preço em dólar, decidido no mercado mundial.

Isso cria um elo escondido. Quando o minério e o petróleo caem, o Brasil exporta menos dólar, o real enfraquece e o dólar sobe; ao mesmo tempo, as maiores empresas do índice ganham menos e caem. Bolsa e câmbio se mexem pelo mesmo motivo, em sentidos opostos.

O mecanismo em três passos

1. A receita não é decidida aqui. A Vale vende minério de ferro com preço em dólar por tonelada. A Petrobras vende petróleo e derivados com referência internacional. A Gerdau vende aço. Quando o preço de referência cai à metade, o lucro despenca antes de qualquer decisão da empresa.

2. O país vive da mesma receita. Minério, petróleo, soja e carne são uma parte grande do que o Brasil vende ao mundo. Preço alto traz mais dólar para cá e fortalece o real; preço baixo faz o contrário. É um dos ingredientes do fator Brasil da aula 1.

3. O índice acompanha o ciclo. O peso de cada empresa no Ibovespa depende do valor de mercado. Depois de anos de commodity cara, a Vale vale mais e pesa mais; quem compra o índice nesse momento compra a versão mais exposta ao ciclo.

O resultado aparece nos números: desde 2004, em 253 meses, os retornos mensais do dólar e do Ibovespa tiveram correlação de −0,64. (Correlação vai de −1 a +1; −1 seria "um sempre sobe quando o outro cai".) Em janelas de 3 anos, ficou sempre negativa, entre −0,79 e −0,40.

O caso completo: 2011 a 2015

O ciclo de commodities que tinha levado o minério para perto de US$ 190 a tonelada no início de 2011 terminou com o minério perto de US$ 40 no fim de 2015. Veja o que aconteceu no mesmo período, de dezembro a dezembro:

Barras com a variação de VALE3, GGBR4, PETR4, do Ibovespa em reais e em dólares e do dólar, de 2010 a 2015

As ações e o Ibovespa contam os dividendos reinvestidos.

A VALE3 caiu 69%, a GGBR4 77% e a PETR4 71%, mesmo com os dividendos. O Ibovespa caiu 37% em reais. E o dólar foi de R$ 1,66 para R$ 3,96: +138%.

Agora faça a conta do estrangeiro. Ele perdeu na bolsa e perdeu no câmbio ao mesmo tempo: o Ibovespa medido em dólares caiu 74%. As duas quedas vieram, em boa parte, da mesma fonte.

O Ibovespa em reais e em dólares desde 2006

Base 100 em março de 2006. A distância entre as linhas é o câmbio.

A figura mostra os vinte anos. Até 2011, as duas linhas andavam juntas, e o Ibovespa em dólar até subia mais, porque o real se valorizava. Depois, elas se separaram. De março de 2006 a setembro de 2026, o Ibovespa quase quintuplicou em reais (×4,9), mas só dobrou em dólares (×2,05).

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.

Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.