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Diagnóstico: a sua carteira em cinco números

O retorno do ano diz pouco sobre uma carteira. Prazo, queda tolerada em reais, peso do maior papel, apostas de verdade e vendas em 12 meses dizem quase tudo, e decidem por onde você segue no curso.

por Vinícius Rosa11 min de leituraatualizada em
Diagnóstico: a sua carteira em cinco números

Em 1 minuto

  • O retorno do ano é o número menos útil para avaliar uma carteira; cinco outros dizem se ela atravessa uma crise.
  • Prazo, queda tolerada em reais, peso do maior papel, papéis efetivos e vendas em 12 meses: cada um aponta para um módulo.
  • Dez papéis em que um pesa 50% são 3,6 apostas, e é isso que cai junto no dia ruim.

Ao fim desta aula você vai saber

  • Calcular os papéis efetivos de uma carteira
  • Converter a queda tolerada em reais e comparar com a carteira de hoje
  • Preencher a ficha do diagnóstico e escolher a ordem dos módulos

A tese: o retorno do ano é o número que menos diz sobre a sua carteira

Pergunte a alguém como vai a carteira e a resposta vem em porcentagem: subiu 18% no ano, está 5% no vermelho. É o número que todo aplicativo mostra primeiro, e é o que menos ajuda a decidir. Ele diz o que já aconteceu, num ano que não vai se repetir. Não diz o que vai acontecer com essa carteira no próximo mês de pânico.

O que diz é a forma da carteira: para quando é o dinheiro, quanto você aguenta perder, quanto pesa a maior aposta, quantas apostas existem de verdade e quanto você mexe nela. São cinco números. Nenhum deles aparece no extrato do jeito que importa, e todos se medem hoje, em dez minutos.

Esta aula mede os cinco, um de cada vez. No fim, você tem uma ficha que diz por qual módulo seguir.

Número 1: o prazo, em anos

Para quando é esse dinheiro? Não a sua idade, mas o ano em que você vai precisar gastar cada parte dele.

O prazo decide quanto da carteira pode estar em coisas que caem. O Ibovespa chegou a 73.517 pontos em 20/05/2008 e só voltou a esse nível em 11/09/2017, nove anos e quatro meses depois. Em 2020 foi rápido: o topo de 23/01/2020 foi superado em 07/01/2021. Ninguém sabe, no meio da queda, qual das duas histórias está vivendo.

Por isso a regra prática do módulo 1 é dura: dinheiro que tem data marcada para os próximos dois anos não vai para a bolsa. Ele vai para a renda fixa com vencimento perto da data, o assunto do curso Renda Fixa com Dados. Anote o número: quantos anos faltam para a parte que está em ações, FIIs e exterior.

Número 2: a queda que você aguenta, em reais

"Quanto de queda você aguenta?" quase sempre recebe uma resposta corajosa em porcentagem. A pergunta útil é em reais, e com tempo: quanto você aguenta ver sumir, e ficar sumido por um ano e meio, lendo notícia ruim todo dia, sem vender?

A conta é uma multiplicação. Pegue o que você tem em renda variável e multiplique pela queda de uma crise real. Com R$ 200 mil e 60% em ações brasileiras, são R$ 120 mil em bolsa. A queda de 46,8% do Ibovespa entre 23/01 e 23/03/2020 levaria R$ 56.160 em dois meses. A de 2008, de 60%, levaria R$ 72 mil.

A ideia: Se o número em reais faria você vender, a sua alocação não é a que está na carteira. É a que você consegue segurar.

Anote o número: o maior valor em reais que você atravessaria sem mexer. O módulo 1 transforma esse número na mistura entre as classes.

Número 3: o peso do maior papel

Abra a carteira e procure a maior posição. Quanto ela pesa no total?

Esse é o número que mede o risco que nenhuma diversificação resolve: a ruptura. Em janeiro de 2023, a Americanas caiu 77% num único dia, depois de anunciar inconsistências contábeis. Quem tinha 5% da carteira nela perdeu menos de 4% do patrimônio. Quem tinha 30% perdeu mais de 23% numa manhã.

E o peso não fica parado. Uma carteira que começou com 10% em MGLU3 no fim de 2015 e nunca foi mexida chegou a ter 95% num papel só: a ação multiplicou por 40 e depois devolveu 91%. O peso do maior papel cresce sozinho justamente quando você está ganhando, e é nessa hora que ninguém olha. Anote o número: o peso da maior posição. Acima de 20%, o módulo 2 é prioridade.

Número 4: quantas apostas você tem de verdade

Contar tickers engana de dois jeitos. O primeiro é o peso. Dez papéis com 10% cada são dez apostas. Dez papéis em que um pesa 50% e os outros nove dividem o resto não são.

Antes de continuar: Uma carteira tem 10 papéis: um com 50% e os outros nove com cerca de 5,6% cada. Na conta dos papéis efetivos, quantas apostas iguais ela equivale a ter?

a) Cerca de 9 · b) Cerca de 6 · c) Cerca de 3,6 · d) Menos de 2

Resposta: Cerca de 3,6. 3,6. Os papéis efetivos são 1 ÷ a soma dos pesos ao quadrado: 1 ÷ (0,25 + 9 × 0,0031) ≈ 3,6. O papel de 50% sozinho vale mais que os outros nove juntos.

A conta tem nome: papéis efetivos, ou 1 dividido pela soma dos pesos ao quadrado. Com pesos iguais, ela dá o número de papéis. Com um papel dominante, ela despenca, porque o quadrado de um peso grande pesa muito mais que o de vários pequenos.

O segundo engano é a correlação, a medida de −1 a +1 de quanto dois papéis sobem e caem juntos. Itaúsa e Itaú andaram juntas com correlação de 0,89: na carteira, são quase um papel só. E a correlação muda na crise. Doze ações grandes da B3 tiveram correlação média de 0,30 em 2019 e de 0,76 entre 21/02 e 23/03/2020. A carteira que parecia ter doze apostas passou a se comportar como pouco mais de uma justo no mês em que isso importava.

Anote o número: os papéis efetivos da sua carteira, e quantos deles são do mesmo setor ou do mesmo grupo. O módulo 2 mostra como contar apostas, não tickers.

Número 5: quantas vendas você fez em 12 meses

Conte as vendas do último ano. Cada troca paga um pedágio pequeno demais para ser notado: emolumentos, a diferença entre o preço de compra e o de venda, o imposto que poderia ter sido adiado. A conta de quanto isso custa por ano cabe numa linha: operações por ano × 2 × custo por ordem. Com 0,5% por ordem, quem troca 11 vezes por ano começa cada ano 11 pontos atrás, quase um CDI inteiro.

E girar muito costuma ser sinal de outra coisa: excesso de confiança. Os 20% de investidores que mais giravam a carteira ficaram cerca de 6 pontos ao ano atrás do mercado. Anote o número: quantas vendas, e quantas delas estavam numa regra escrita antes. O módulo 4 faz a conta do seu giro.

A ficha do diagnóstico

Junte os cinco números:

Número A sua resposta Sinal de alerta Módulo que trata
1. Prazo da parte em renda variável menos de 2 anos 1 (e o curso Renda Fixa com Dados)
2. Queda que você aguenta, em reais menor que a queda de 2020 aplicada à sua carteira 1
3. Peso do maior papel acima de 20% 2
4. Papéis efetivos menos de 5, ou vários do mesmo setor 2
5. Vendas em 12 meses mais de uma por mês, ou fora de qualquer regra 4

Guarde a ficha. Ela volta no fim do módulo 3, quando você testar a carteira nas crises que já aconteceram, e no projeto final.

A ordem dos módulos para o seu caso

  • Não tem reserva de emergência: pare aqui e faça a aula de reserva do curso Renda Fixa com Dados. Depois volte ao módulo 1.
  • Alerta no número 1 ou no 2: módulo 1 inteiro, depois o 3. A mistura entre as classes é o seu problema principal, não as ações.
  • Alerta no número 3 ou no 4: módulo 2 primeiro, depois o 1 e o 3.
  • Alerta no número 5: módulo 4 primeiro, depois o 2 (rebalancear sem girar).
  • Nenhum alerta: siga a ordem, de 1 a 6. O projeto final vai testar se a ficha está certa.

Onde a regra quebra (e onde não quebra)

Cinco números não são uma nota. Uma carteira pode ter dez papéis efetivos e ser frágil, se todos dependem do juro brasileiro cair. A ficha aponta onde olhar; quem decide o que fazer são os módulos.

A queda tolerada mente para cima. Quase todo mundo superestima o quanto aguenta até ver acontecer. Se você nunca atravessou uma queda de 30% com dinheiro de verdade, use um número menor que o que você acha. É mais fácil aumentar a parte em bolsa depois do primeiro susto do que recomprar depois de vender no fundo.

Concentração nem sempre é erro. Quem tem 30% numa ação pode ter uma razão. A ficha não proíbe: ela pede que a razão esteja escrita, e que a perda de um dia como o da Americanas, em reais, caiba no número 2.

Girar pouco não é virtude por si só. Uma carteira parada pode estar parada com o peso errado. O módulo 2 mostra como rebalancear usando o próprio aporte, sem vender quase nada.

O custo de errar

O diagnóstico errado não custa nada no dia. Custa no dia da queda, quando a carteira mostra o que ela era de verdade: um papel com metade do peso, cinco bancos que caem juntos, uma alocação maior que o estômago. Nessa hora, o custo de corrigir é o maior possível, porque a correção vira venda no fundo. Dez minutos com a ficha hoje evitam boa parte desses dias.

Faça a conta

Uma carteira de R$ 200 mil tem nove papéis, com pesos de 30%, 20%, 10%, 10%, 10%, 5%, 5%, 5% e 5%.

  • Quantos papéis efetivos ela tem?
  • Quanto vale, em reais, a maior posição?
  • Se a maior posição cair 77% num dia, como a Americanas em janeiro de 2023, quantos reais a carteira perde?

Resposta. (1) 0,09 + 0,04 + 3 × 0,01 + 4 × 0,0025 = 0,17; 1 ÷ 0,17 = 5,9 papéis efetivos, não nove. (2) 30% de R$ 200 mil = R$ 60 mil. (3) R$ 60.000 × 0,77 = R$ 46.200, ou 23,1% da carteira inteira numa manhã. Se esse número passa da queda que você anotou no número 2, a maior posição está grande demais para você.

A versão prática

1. Meça os cinco números hoje, por escrito. Prazo, queda em reais, maior peso, papéis efetivos e vendas em 12 meses.

2. Faça a conta da queda em reais com uma crise real. Use a de 2020 (−46,8%) e a de 2008 (−60%) sobre a sua parte em bolsa.

3. Marque os alertas na ficha e siga a ordem dos módulos que eles indicam.

4. Refaça a ficha a cada seis meses ou depois de um aporte grande. O peso do maior papel e os papéis efetivos mudam sozinhos.

Teste rápido

Teste rápido

  1. Uma carteira tem 10 papéis com 10% cada. Quantos papéis efetivos ela tem?

    • 1
    • 10 ✓
    • 100

    Com pesos iguais, 1 ÷ (10 × 0,01) = 10. Os papéis efetivos só caem abaixo do número de papéis quando alguns pesam mais que outros.

  2. Você tem R$ 300 mil, metade em ações brasileiras. Qual é a forma útil de responder quanto de queda aguenta?

    • Dizer uma porcentagem, como 30%
    • Multiplicar os R$ 150 mil em ações por uma queda real, como os 46,8% de 2020, e ver se aguentaria perder cerca de R$ 70 mil ✓
    • Olhar quanto a carteira rendeu no último ano

    Porcentagem parece pequena no questionário. Em reais, e durando meses, é o número que decide se você vende.

  3. Doze ações grandes tinham correlação média de 0,30 em 2019 e de 0,76 em março de 2020. O que isso significa para a carteira?

    • Que a diversificação entre ações brasileiras encolhe justo na crise ✓
    • Que as ações ficaram mais baratas
    • Que a correlação não muda

    Na crise, quase tudo cai junto. A carteira de doze ações passou a se comportar como pouco mais de uma, e é por isso que o curso mede apostas, não tickers.

No Quantor

A aba Carteira calcula quatro dos cinco números para você. No resumo, ela mostra quantos papéis a carteira tem e quantos são efetivos, com a correlação média entre eles ao lado. A tabela papel a papel mostra o peso de cada posição. O bloco de risco traz a volatilidade, a pior queda, o pior dia e o VaR, e a exposição por setor mostra quantos papéis dependem da mesma coisa. O prazo e a queda que você aguenta são os dois números que só você sabe. Escreva-os ao lado.

A carteira que você tem não é a lista de tickers: é o que cai junto no dia ruim.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

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