Viés de confirmação: a tese que fica mais bonita quando o preço cai
Depois que você compra, a tese deixa de ser uma hipótese sobre a empresa e vira uma defesa de você mesmo. Por isso o que faria você mudar de ideia precisa estar escrito antes da compra.

A ideia: a convicção que cresce com o prejuízo
Você estudou a empresa, leu o balanço, comprou. O preço cai 20%. O que você faz na semana seguinte?
Quase todo mundo faz a mesma coisa: procura quem concorda. Lê o relatório otimista, assiste ao vídeo do gestor que gosta da empresa, entra no grupo de acionistas. O relatório que rebaixou a ação fica para depois. Não é que você ignore o argumento contrário; você só procura o favorável com muito mais empenho.
Depois da compra, a tese deixa de ser uma hipótese sobre a empresa e vira uma defesa de você mesmo. Admitir que está errada custa mais que dinheiro: custa admitir que você analisou mal. Esse é o viés de confirmação, e ele dá à aversão à perda e ao preço médio (as duas aulas anteriores) uma justificativa que soa inteligente.
O mecanismo: o teste 2 · 4 · 6
Em 1960, o psicólogo Peter Wason inventou um jogo simples. Ele dizia que a sequência 2 · 4 · 6 obedecia a uma regra secreta. A pessoa podia propor outras sequências de três números e ouvir "sim" ou "não". Quando estivesse segura, anunciava a regra.

À esquerda, os testes que a maioria faz. À direita, os que revelam a regra. Sequências ilustrativas.
A maioria pensa em "números pares somando 2" e testa 8 · 10 · 12, 20 · 22 · 24. Sempre "sim". A convicção cresce a cada resposta e a pessoa anuncia a regra, errada. A regra real era muito mais ampla: qualquer sequência crescente. Quem descobre é quem testa algo que poderia dar "não", como 6 · 4 · 2.
A lição de Wason é seca: teste que só pode confirmar não ensina nada. E é exatamente o teste que fazemos com a nossa tese quando lemos só quem concorda.
O agravante da bolsa: a tela melhora quando o preço cai
Com ações, há uma armadilha extra. Os indicadores mais usados dividem alguma coisa pelo preço. Se o lucro por ação é R$ 1 e a ação custa R$ 10, o P/L (preço dividido pelo lucro) é 10. Se a ação cai para R$ 5 e o lucro publicado continua o mesmo, o P/L vira 5. O mesmo acontece com o dividend yield: o dividendo passado dividido por um preço menor dá um número maior.
Ou seja: quanto mais o preço cai, mais barata a empresa parece na tela, mesmo que nada nela tenha melhorado. Para quem já está procurando confirmação, é o argumento perfeito: "agora está ainda mais barata".
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