Preço médio: o número que só existe para você
Ninguém do outro lado da tela sabe quanto você pagou. Mesmo assim, esse número decide o que você acha barato, o que acha caro e quanto falta para "empatar".

A ideia: um número privado mandando no seu dinheiro
O preço médio é o número mais olhado da carteira de quem investe em ações. É o custo de tudo o que você comprou daquele papel, dividido pela quantidade. Ele diz uma coisa só: quanto você pagou.
O problema é que o mercado não sabe disso. A ação não tem obrigação de voltar ao seu preço médio, nem sabe que ele existe. Ainda assim, ele passa a definir tudo: abaixo dele o papel "está barato", acima "já deu", e o objetivo vira "empatar".
O preço médio não é informação sobre a empresa. É informação sobre você. E um número que só existe para você não deveria decidir o que fazer com o seu dinheiro.
O mecanismo: a âncora
Em 1974, Amos Tversky e Daniel Kahneman fizeram um experimento que ficou famoso. Giravam uma roda numerada de 0 a 100, na frente das pessoas, e depois perguntavam que porcentagem dos países da ONU era africana.

O número da roda parecia aleatório e não tinha nenhuma relação com a pergunta. Mesmo assim, puxou a resposta.
Quando a roda parava em 10, o palpite típico do grupo era 25%. Quando parava em 65, era 45%. Esse efeito se chama ancoragem: o cérebro parte de um número qualquer que está à vista e ajusta pouco a partir dele.
Na bolsa, a âncora mais forte é o preço que você pagou. Se você comprou a R$ 27, R$ 12 parece barato. Se tivesse comprado a R$ 2, os mesmos R$ 12 pareceriam caros. A empresa é a mesma, o balanço é o mesmo. Só a sua referência mudou.
O caso: "fazer preço médio" na MGLU3
"Fazer preço médio" é comprar mais de um papel que caiu, para baixar o custo médio e precisar de uma alta menor para empatar. A MGLU3 é o caso mais conhecido da B3. Vamos fazer a conta com um investidor disciplinado: R$ 500 todo mês, de janeiro de 2021 a setembro de 2026, sempre no fechamento do mês.
Um detalhe antes: a Magazine Luiza fez um grupamento (juntou 10 ações em 1), então os preços abaixo estão ajustados. Os R$ 240 de janeiro de 2021 no gráfico correspondem aos cerca de R$ 24 que apareciam na tela da época.

A linha branca é o preço; a amarela tracejada, o preço médio do investidor. A área entre as duas é o prejuízo.
- Foram 69 aportes: R$ 34.500 investidos.
- Em setembro de 2026, a posição valia R$ 14.722: −57%.
- O preço médio caiu de R$ 240,67 para R$ 14,34, mas a ação estava em R$ 6,12. Para voltar ao preço médio, ela precisa subir 134%.
- O mesmo aporte, nos mesmos meses, no Ibovespa, valeria R$ 51.044.
Repare no desenho: o preço médio cai, mas sempre mais devagar que o preço. É uma perseguição que o investidor não alcança enquanto a queda continua. E a queda continuava visível: dos 69 meses, a MGLU3 fechou acima da régua em apenas 17. A régua mensal tinha virado para baixo em março de 2021.
Onde a regra quebra
O preço médio tem dois usos legítimos.
O fiscal. No Brasil, ele é a base para calcular o imposto sobre o ganho de capital e para compensar prejuízos. Você precisa dele na declaração. O erro não é ter o número, é usá-lo como motivo para comprar.
O aporte programado num índice. Quem compra um ETF de Ibovespa todo mês, sem olhar o preço, também baixa o custo médio nas quedas, e o resultado acima mostra por que isso costuma funcionar: um índice amplo se renova, troca as empresas que afundam pelas que crescem. Um papel sozinho não tem esse mecanismo. Aporte em índice é indiferente ao preço; preço médio em papel individual é reação ao preço.
E há o caso em que comprar na queda dá certo. Às vezes dá. O problema é que você não sabe de antemão se está na queda que volta ou na que não volta, e a aula anterior mostrou que, depois de −50%, a chance de voltar ao topo em cinco anos foi perto de metade.
Na prática
1. Esconda o preço médio na hora de decidir. Olhe primeiro a régua, a força e a empresa. O resultado da posição, se quiser, depois.
2. Refaça a pergunta da primeira vez. "Sem posição nenhuma, eu compraria esse papel hoje, nesse tamanho?" Se a resposta for não, o ajuste é reduzir, não aportar.
3. Só aumente posição em papel individual com a régua em alta. Comprar mais de algo que fecha o mês abaixo da própria média é somar dinheiro a uma queda em curso.
4. Defina um teto por papel. Quem faz preço médio na queda vê a posição errada crescer justamente pelo pior motivo. Um teto escrito (por exemplo, 20% da carteira) impede isso.
No Quantor
Na Carteira, o preço médio aparece, porque você vai olhar mesmo, mas ao lado dele ficam a régua e a força de cada papel, o peso na carteira e a concentração nas três maiores posições. A ideia é encostar a informação que decide na informação que emociona. Na tela Analisar papel, a régua mostra o preço em que a tendência vira, um número que não depende de quanto você pagou.
O mercado não sabe quanto você pagou. Só você se importa com isso.
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