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Cabeça de investidor · Aula 4 de 7

Excesso de confiança: o giro que come o seu retorno

Quase todo mundo se acha acima da média, e quem se acha acima da média opera mais. Os 20% que mais giravam a carteira ficaram cerca de 6 pontos ao ano atrás do mercado.

por Vinícius Rosa5 min de leituraatualizada em trecho aberto
Excesso de confiança: o giro que come o seu retorno

A ideia: todo mundo se acha acima da média

Responda rápido: você dirige melhor ou pior que o motorista mediano?

Em 1981, o psicólogo Ola Svenson fez essa pergunta a estudantes nos Estados Unidos e na Suécia. Por definição, só metade de um grupo pode estar acima da mediana. Veja o que eles responderam:

93% dos americanos se disseram acima da mediana

A linha vermelha é o máximo possível. Os dois grupos passaram dela, um com folga enorme.

Esse é o excesso de confiança: a tendência de superestimar a própria habilidade e a precisão do que sabemos. As aulas anteriores trataram de vieses que fazem você segurar o que deveria sair. Este faz o contrário: faz você mexer no que deveria ficar parado. Mesmo motor, sinal trocado.

O mecanismo: três ilusões

1. Saber mais parece prever melhor. Ler quatro relatórios sobre a Vale deixa você mais informado que quase todo mundo, mas não dá vantagem sobre o preço, porque o preço já reflete o que esses relatórios dizem. O cérebro não separa as duas coisas: sente competência e transforma em confiança.

2. A sorte recente vira prova de talento. Três acertos seguidos parecem habilidade, mesmo que sejam acaso. Quem teve uma boa sequência tende a operar mais, e maior.

3. A tela ao vivo dá sensação de controle. O preço pisca, a cor muda, o botão está ali. Só que quase tudo que se move num dia é ruído, e cada decisão tomada em cima de ruído tem um custo certo e uma vantagem incerta.

O que isso custa: o estudo de Barber e Odean

Os economistas Brad Barber e Terrance Odean acompanharam cerca de 66 mil contas de uma corretora americana entre 1991 e 1996 e ordenaram os investidores pelo giro (quanto da carteira eles trocavam por ano). Os 20% que mais negociavam ficaram cerca de 6,5 pontos ao ano atrás do mercado. O título do artigo, de 2000, resume: operar é perigoso para o seu patrimônio.

No Brasil, o caso extremo foi medido. Fernando Chague, Rodrigo De-Losso e Bruno Giovannetti acompanharam quase 20 mil pessoas que começaram a fazer day trade de mini-índice (um contrato futuro do Ibovespa) entre 2013 e 2015. Entre as que insistiram por mais de 300 pregões, 97% perderam dinheiro.

Seis pontos ao ano parece pouco quando se lê. Em 20 anos, não é:

R$ 100 mil em 20 anos: segurar, girar e perder 6 pontos

Conta ilustrativa com retorno constante. Linha verde: segurar. Amarela: mesmo retorno, vendendo e recomprando todo ano. Vermelha: 6 pontos a menos.

Faça a conta com a gente. R$ 100 mil rendendo 12% ao ano por 20 anos viram R$ 965 mil antes do imposto. Quem segura e paga 15% sobre o ganho só no fim fica com R$ 835 mil. Quem obtém exatamente o mesmo retorno, mas vende e recompra todo ano, paga 15% a cada ano e o dinheiro do imposto deixa de render: rende na prática 10,2% ao ano e termina com R$ 698 mil. São 16% a menos sem nenhum erro de escolha, só por antecipar o imposto. (A conta ignora a isenção para vendas de até R$ 20 mil por mês em ações, que reduz esse efeito para carteiras pequenas.)

Agora some o que o estudo mediu: a 6% ao ano, os mesmos R$ 100 mil viram R$ 321 mil. Dois terços do patrimônio final, gastos em operações que pareceram inteligentes uma de cada vez.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.

Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.