Recência: o último ano vira previsão sem você perceber
Recência é dar peso demais ao que acabou de acontecer. Ela não chega como previsão, chega como descrição — "o mercado está forte" — e é por isso que quase ninguém percebe que está prevendo.

A ideia: a previsão disfarçada de fato
Pense no último ano da bolsa. Se ele foi bom, a frase que se forma na sua cabeça é "o mercado está forte". Se foi ruim, "bolsa não é para mim". Nenhuma das duas soa como previsão. Soam como constatação.
Mas as duas estão fazendo a mesma coisa: pegando os últimos doze meses e esticando para a frente. Recência é a tendência de dar peso demais ao que aconteceu por último, e ela quase nunca se apresenta como aposta. Se apresenta como descrição.
O mecanismo: o que é fácil de lembrar parece provável
Kahneman e Tversky chamaram de heurística da disponibilidade o atalho que a mente usa para estimar chances: em vez de consultar os números, ela mede o quanto é fácil imaginar a cena. O último trimestre tem manchete, conversa, textura. O de cinco anos atrás virou uma linha num gráfico.
O mercado ajuda o viés sem querer. Quase tudo é mostrado em janelas de doze meses: o dividend yield é o dividendo dos últimos 12 meses dividido pelo preço de hoje; o P/L usa o lucro dos últimos quatro trimestres; o retorno dos fundos aparece "em 12 meses". Nada disso está errado. Mas transforma uma janela arbitrária em régua oficial, e o investidor lê a fotografia de um pedaço do ciclo como se fosse característica permanente.
O teste: um ano prevê o seguinte?
O Ibovespa tem retornos anuais medidos desde os anos 1990. Dá para testar a intuição direto nos números:

Verde: ano de alta. Vermelho: ano de queda. Olhe o que vem depois de cada barra grande.
Se a recência estivesse certa, depois de um ano muito bom viria outro bom, e depois de um ano ruim, outro ruim. Separamos os dois grupos:

Amostras pequenas: são só 29 anos. O que elas mostram é a ausência de padrão a favor da extrapolação.
- Depois dos 8 anos de +30% ou mais, o ano seguinte rendeu em média +0,9%. Em três deles veio queda, duas delas fortes: 1998 (−33%) e 2008 (−41%).
- Depois dos 10 anos de −10% ou pior, o ano seguinte rendeu em média +38,6%, com alta em 7 de 10.
- A correlação entre o retorno de um ano e o do seguinte, em 28 pares, foi de −0,37. Se algum padrão aparece, é o contrário da extrapolação.
Não conclua daí que "depois de um ano ruim, compre". Dez casos são pouco, e 2001 e 2002 foram dois anos ruins em sequência. A conclusão segura é mais modesta: o ano passado não serviu para prever o próximo.
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