Carry: o juro que segura o dólar até não segurar mais
Com o CDI a 13,65% e o juro americano a 4,05%, o dólar precisava subir 9,2% em 12 meses para empatar com ficar em real. Entre 23/10 e 26/10/2026, a PTAX subiu 9,2%. Um ano de aluguel, apagado num pregão.

Em 1 minuto
- Carry é o juro a mais que o Brasil paga para alguém ficar em real: em 26/10/2026, CDI de 13,65% contra 4,05% do juro americano.
- Com esse carry, o dólar precisa subir 9,23% em um ano só para empatar com o CDI. Em 26/10/2026, a PTAX subiu 9,19% em relação ao pregão anterior.
- O aluguel chega todo mês, em gotas de menos de 1%; o risco chega de uma vez. Juro alto também pode ser sintoma de que a moeda precisa ser segurada.
Ao fim desta aula você vai saber
- Calcular o dólar de empate entre o CDI e o juro em dólar para qualquer prazo
- Comparar o carry de hoje com o normal recente, e não com zero
- Explicar por que carry alto não protegeu o real em 2015
A tese: o carry é aluguel, e o aluguel não paga o incêndio
Imagine um investidor estrangeiro. Ele consegue dinheiro em dólar pagando cerca de 4% ao ano, que é o juro de curto prazo americano. Troca por reais, aplica em título brasileiro e recebe perto de 14%. Se o câmbio ficar parado, embolsa a diferença.
Essa diferença tem nome: carry. E ela ajuda a segurar o real, porque para fazer a operação o estrangeiro precisa vender dólar e comprar real. Enquanto muita gente faz isso ao mesmo tempo, o real fica firme.
A ideia: Carry é o aluguel que o Brasil paga para alguém carregar o risco de ficar em reais. O aluguel chega todo mês. O risco aparece de uma vez.
O carry funciona do outro lado também. Para quem mora no Brasil e guarda dólar, ele é o custo de não estar no CDI. Cada ponto de carry é um ponto que o dólar precisa subir só para empatar.
O mecanismo: três forças
1. O juro alto atrai dinheiro, e dinheiro entrando valoriza a moeda. Quanto maior a diferença entre o juro daqui e o de lá, mais gente faz a operação do investidor estrangeiro, e mais dólar é vendido no mercado brasileiro. É o motivo de o real ter sido uma das moedas mais fortes do bloco emergente em 2022, quando a Selic chegou a 13,75% (a aula 1 mostrou o fator Brasil de −11,7% naquele ano).
2. O ganho é pequeno e constante; a perda é grande e rara. O carry rende um pouco por dia. O câmbio, quando anda contra, anda vários meses de carry numa semana. Quem faz a operação está vendendo um seguro: recebe o prêmio todo mês e paga a indenização de uma vez.
3. Todo mundo sai pela mesma porta. Como muitos fazem a mesma operação, quando o humor vira eles desmontam juntos: compram dólar ao mesmo tempo para devolver o empréstimo. A saída coletiva é o que transforma uma alta normal do dólar num salto.
A conta do empate
O jeito mais útil de ler o carry é perguntar: quanto o dólar precisa subir para que guardar dólar empate com ficar no CDI? A conta é
empate = ((1 + CDI) ÷ (1 + juro em dólar))^(meses ÷ 12) − 1
Em 26/10/2026, o CDI estava em 13,65% ao ano e o T-bill de 3 meses, o título curto do governo americano, em 4,05%.
Antes de continuar: Com o CDI a 13,65% e o juro americano a 4,05%, quanto o dólar precisa subir em 12 meses para que guardar dólar empate com o CDI?
a) Uns 2% · b) Uns 5% · c) Uns 9% · d) Uns 14%
Resposta: Uns 9%. 1,1365 ÷ 1,0405 = 1,0923: o dólar precisa subir 9,23% em um ano só para empatar. Abaixo disso, ficar em real rendeu mais.
| Prazo | Alta do dólar que empata com o CDI |
|---|---|
| 1 mês | 0,74% |
| 3 meses | 2,23% |
| 6 meses | 4,51% |
| 12 meses | 9,23% |
| 24 meses | 19,30% |
| 60 meses | 55,47% |
Repare como o número cresce. Em cinco anos, o dólar precisa subir mais de 55% para empatar, porque o carry também é composto (a mesma bola de neve do curso Renda Fixa com Dados, M1). É por isso que o dólar, em 20 anos, subiu 139% contra o real e mesmo assim perdeu feio do CDI (a aula 5 faz essa conta).
Um ano de aluguel em um pregão
Agora o número que dá nome à aula. Em 23/10/2026, a PTAX, a cotação oficial do dólar calculada pelo Banco Central, fechou em R$ 5,0377. No pregão seguinte, 26/10/2026, fechou em R$ 5,5007.
9,23% a alta do dólar que empata com 12 meses de CDI, em 26/10/2026 · +9,19% a alta da PTAX de 23/10 para 26/10/2026, num pregão só · −3,02% a PTAX do dia seguinte, 27/10/2026: R$ 5,3346
Um pregão apagou o aluguel de um ano inteiro. E o mês já tinha mostrado o outro lado: de 02/10 para 05/10/2026, a PTAX caiu 4,55%, de R$ 5,2238 para R$ 4,9859. O carry estava igual nos três dias. O que mudou foi o câmbio, e o câmbio não pede licença ao juro.
Não é um caso isolado. Desde 2004, medindo mês a mês, o carry de agosto de 2026 (10,3 pontos ao ano, ou 0,86% ao mês) foi superado assim:
- Em 105 de 253 meses (42%), o dólar subiu mais que um mês de carry.
- Em 67 meses, subiu mais que três meses de carry.
- Em 6 meses, subiu mais que um ano inteiro de carry num mês só, o maior deles com quase 18%.
O carry quase sempre vence, porque na maior parte dos meses o dólar anda pouco. Mas a média esconde a forma: muitos meses de ganho pequeno e poucos de perda enorme.
Por que comparar com a mediana de 3 anos
O erro comum é olhar o nível: "10 pontos é muito, o real está protegido". Só que o dinheiro estrangeiro compara o Brasil com o que o Brasil vinha pagando, não com zero. Dez pontos parecem pouco para quem se acostumou com quinze.
Por isso a aba Dólar compara o carry com a mediana dos 36 meses anteriores (a mediana é o valor do meio: metade dos meses ficou acima, metade abaixo). Na conta da aba, o carry é a Selic média do mês menos o T-bill.
| Mês fechado | Carry | Mediana de 3 anos | Leitura |
|---|---|---|---|
| Agosto de 2026 | 10,31 pontos | 9,06 | acima do normal: favorece o real |
| Setembro de 2026 | 9,85 pontos | 9,44 | ainda acima, com folga menor |
O carry vem encolhendo desde o começo de 2026, quando estava acima de 11 pontos, porque a Selic começou a cair (de 14,25% para 13,75% entre agosto e setembro) enquanto o juro americano subia um pouco. A mediana, que anda devagar, subiu. A folga entre os dois, que era de mais de 2 pontos, caiu para menos de meio ponto.
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