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20 anos de B3 em 8 crises · Aula 7 de 8

Americanas: o passivo que não estava no passivo

Em janeiro de 2023 uma das varejistas mais conhecidas do país anunciou um rombo de R$ 20 bilhões e a ação desabou num pregão. O Ibovespa subiu 0,1% naquele dia e 22% no ano. Contra o risco de uma empresa só, a defesa não é a análise nem a régua: é o tamanho da posição.

por Vinícius Rosa4 min de leituraatualizada em trecho aberto
Americanas: o passivo que não estava no passivo

A ideia

Até aqui, todas as crises da trilha foram do mercado: o índice caiu, quase tudo caiu junto, e as ferramentas da trilha (a régua, o termômetro, o caixa) tinham alguma coisa a dizer.

Esta é diferente. Em janeiro de 2023, o problema era de uma empresa só. O mercado inteiro seguiu a vida. Quem tinha aquela ação, não.

Contra o buraco de uma empresa só, a análise não protege e a régua não protege. O que protege é o tamanho da posição. Esta é a única aula da trilha em que a régua não salva ninguém.

O que aconteceu

Em 11 de janeiro de 2023, a Americanas comunicou ao mercado "inconsistências contábeis" de cerca de R$ 20 bilhões. No pregão seguinte, a ação caiu perto de 77%. Em 19 de janeiro, a empresa pediu recuperação judicial, o processo na Justiça em que uma empresa que não consegue pagar as dívidas negocia com os credores sob proteção.

Agora olhe o que o mercado fez:

O Ibovespa diário em 2023, com a data do anúncio da Americanas e do pedido de recuperação judicial

Faixas verdes e vermelhas: a régua mensal do índice. O escândalo aparece como um ponto qualquer no gráfico.

No dia 12 de janeiro, o Ibovespa fechou em +0,1%. O VIX Brasil, o medo medido nas opções do BOVA11, ficou em 22,9, zona normal. O termômetro de risco do Quantor estava em 32, também normal. Em 2023, o índice subiu 22%, de 110,0 mil para 134,2 mil.

Nenhum medidor de mercado piscou, porque o mercado não estava com problema. Uma empresa estava.

Como uma dívida some do balanço

O nome técnico do que estava no centro do caso é risco sacado. Funciona assim:

  1. A varejista compra mercadoria de um fornecedor e combina pagar em, digamos, 120 dias.
  2. O fornecedor não quer esperar. Um banco paga o fornecedor à vista, com desconto.
  3. Daqui a 120 dias (ou mais), a varejista paga o banco, com juros.

Na prática, é um empréstimo bancário: a varejista deve ao banco. Mas, se no balanço a dívida aparece como "fornecedores" em vez de "empréstimos e financiamentos", a dívida financeira parece menor, e os indicadores de endividamento parecem melhores. O passivo existe; só está na gaveta errada.

O ponto mais duro da aula: o investidor comum não tinha como enxergar isso. Balanço auditado, conselho com nomes conhecidos, empresa tradicional. Quando a informação publicada está errada, olhar melhor não resolve.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.

Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.