2016: o rali que começou antes da notícia boa
O Ibovespa fez o fundo em janeiro de 2016, com a Selic em 14,25% e a inflação no pico. Quando o impeachment se consumou, o índice já estava 54% acima do fundo. A economia confirmou depois; o preço não esperou.

A ideia
Janeiro de 2016 foi um dos meses mais pessimistas da bolsa brasileira neste século. O país estava em recessão, tinha perdido o grau de investimento em setembro, a Selic estava em 14,25% e a inflação de 12 meses passava de 10%. Havia uma crise política aberta.
Foi exatamente ali que o Ibovespa fez o fundo: 37,5 mil pontos, em 26 de janeiro.
O preço vira quando para de sair notícia pior do que a esperada, não quando sai notícia boa. Esta aula é a outra metade da aula 2: depois de cinco anos de queda lenta, a volta foi rápida, e começou no pior momento possível para quem esperava confirmação.
A virada, marco a marco

Faixas verdes: meses com a régua em alta. A faixa vermelha de 2017 é o susto de maio (aula 4).
Siga os marcos da esquerda para a direita:
- 26/01/2016, fundo: 37,5 mil. Selic 14,25%, IPCA de 12 meses em 10,7%.
- 31/03/2016, a régua vira para alta: o mês fecha a 50,1 mil, 33,5% acima do fundo.
- 31/08/2016, impeachment consumado: 57,9 mil, 54% acima do fundo.
- 19/10/2016, primeiro corte da Selic: 63,5 mil, 69% acima do fundo.
- 15/09/2017, o índice dobra: 75,8 mil.
Nenhuma das notícias que "justificariam" a alta veio antes dela. O PIB de 2016 ainda seria negativo. A alta foi feita com a economia ruim.
Por que o preço anda antes da notícia
O mercado olha para a frente; a economia é medida para trás. O PIB de um trimestre sai meses depois de o trimestre acabar. O preço da ação muda a cada segundo, com base no que as pessoas esperam do futuro. Quando as duas coisas discordam, o preço está falando de outra data.
A inflação virou antes do juro. Veja a ordem dos acontecimentos:

O pico da inflação coincide com o fundo da bolsa. A Selic só cai nove meses depois.
O IPCA de 12 meses chegou a 10,71% em janeiro de 2016 e começou a ceder. Quando a inflação para de subir, o mercado passa a contar com a queda do juro que ainda não aconteceu. E juro menor faz o lucro dos próximos anos valer mais hoje. O preço sobe antes de o Banco Central mexer, porque ele já está precificando o corte.
No fundo, quem queria vender já vendeu. Com o pessimismo unânime, a oferta de ações seca. Não é preciso notícia boa para o preço subir; basta que as notícias parem de piorar.
O medo também mostrou isso. O VIX Brasil, a volatilidade que o mercado cobra nas opções do BOVA11 (o "preço do seguro" contra queda), foi a 52,8 em 7 de abril de 2016, faixa de pânico, e estava em 31,5 no dia 18, logo depois da votação do impeachment na Câmara. Resolvida a dúvida, o seguro barateou.
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