Trinta papéis, três apostas
Cada papel a mais tira menos risco que o anterior, e cinco bancos continuam sendo uma aposta só. Diversificação se conta pelo que pode dar errado ao mesmo tempo, não por ticker.

A ideia: quantas coisas podem dar errado ao mesmo tempo?
"Quantas ações eu devo ter?" é uma das primeiras perguntas de quem monta carteira. A resposta que circula por aí é um número: dez, quinze, vinte. Só que o número de linhas na corretora diz pouco. Oito bancos são oito linhas e praticamente uma aposta.
O que diversifica não é a quantidade de papéis, é a quantidade de motivos diferentes que movem cada um. Esta aula mede as duas coisas com dados reais da B3: quanto cada papel a mais tira de risco, e quanto a escolha dos papéis pesa mais do que a contagem.
Uma palavra antes: volatilidade é o tamanho típico da oscilação de um investimento, em % ao ano. Uma carteira com volatilidade de 25% costuma andar uns 7% para cima ou para baixo num mês comum. Quanto maior, mais forte o sobe e desce.
A curva que cai rápido e depois quase para
Pegamos as 75 ações líquidas da B3 que têm doze anos completos de histórico e sorteamos carteiras de pesos iguais: 3.000 carteiras de um papel, 3.000 de dois, e assim até trinta. Para cada tamanho, medimos a volatilidade média de setembro de 2014 a agosto de 2026.

A linha verde é a volatilidade média para cada número de papéis. A tracejada amarela é o piso: as 75 ações juntas. À direita, quanto do caminho até o piso cada tamanho já percorreu.
Faça a conta com os números da figura. Um papel sozinho oscilou, em média, 38,8% ao ano. Todas as 73 juntas, 23,1%: esse é o piso, o risco da própria bolsa, que nenhuma quantidade de ações brasileiras elimina. O benefício total de diversificar é a distância entre os dois: 38,8 − 23,1 = 15,7 pontos.
- Com 5 papéis, a volatilidade caiu para 26,9%: já foram 12 dos 16 pontos, 75% do benefício.
- Com 10 papéis, 24,9%: 88%.
- Com 12, 90%. Com 20, 95%. Com 30, 97%.
Do primeiro para o quinto papel, você tira 12 pontos de oscilação. Do vigésimo para o trigésimo, uns 0,4 ponto. Cada papel a mais custa atenção (acompanhar balanço, régua, notícias), e a partir de uma dúzia o que ele devolve em risco é quase nada.
Cinco bancos não são cinco apostas
A curva acima é de papéis sorteados. Na vida real ninguém sorteia: as pessoas compram o que conhecem, e o que elas conhecem costuma ser parecido. Veja o que muda quando a escolha é feita de propósito:

Mesmo período e pesos iguais nas três carteiras. A correlação vai de −1 a +1: perto de 1, os papéis sobem e caem juntos.
Os cinco bancos (ITUB4, BBDC4, BBAS3, SANB11, ABCB4) tiveram correlação média de 0,72 entre si e a carteira oscilou 28,8% ao ano. Sozinhos, eles oscilavam em média 32,6%. Juntar os cinco tirou só 12% do risco, porque todos respondem à mesma coisa: juro e crédito no Brasil.
Os cinco setores (ITUB4, VALE3, WEGE3, EGIE3, ABEV3: banco, minério, indústria, energia e bebida) tiveram correlação de 0,28 e a carteira oscilou 17,8%. Menos do que as trinta ações sorteadas (23,5%), menos até do que o piso das 73. Cinco papéis que dependem de coisas diferentes fizeram mais do que trinta tirados de qualquer jeito.
Um teste que dispensa estatística: escreva ao lado de cada posição o que precisa acontecer no mundo para ela subir. Juro caindo? Dólar subindo? China comprando minério? Consumo das famílias? Se duas posições têm a mesma resposta, elas são uma posição com dois nomes. A aula 10 de "Ler o mercado" mostra como medir a correlação entre os seus papéis.
Papéis efetivos: o peso também conta
Mesmo com fontes de risco diferentes, o peso pode desfazer a diversificação. Dez papéis em que um vale 40% da carteira não são dez apostas.
A medida para isso é o número de papéis efetivos: 1 dividido pela soma dos pesos ao quadrado. Com dez papéis de 10% cada, a soma é 10 × 0,01 = 0,10, e 1 ÷ 0,10 = 10 efetivos. Agora um papel com 40% e os outros nove dividindo 60% (6,67% cada): 0,40² + 9 × 0,0667² = 0,16 + 0,04 = 0,20. Então 1 ÷ 0,20 = 5 efetivos. A carteira tem dez linhas e se comporta como cinco.
Onde engana
Na crise, a curva não vale. Os números acima são médias de doze anos. No mês em que a bolsa inteira despenca, quase tudo cai junto, e a diversificação entre ações brasileiras encolhe. A aula 3 mede isso.
Os 75 papéis são os que sobreviveram. Usamos as ações líquidas de hoje com doze anos de histórico. Empresas que quebraram ou sumiram no caminho não entram na conta, e com elas a volatilidade de um papel sozinho seria ainda maior.
Correlação muda. Setores que andavam separados podem passar a andar juntos quando um mesmo fator domina (juro, por exemplo). Refaça a conta de tempos em tempos.
Patrimônio pequeno tem outro limite. Com pouco dinheiro, doze posições viram doze lotes pequenos, com custo proporcionalmente maior. Menos papéis, bem diferentes entre si, é mais honesto do que muitas posições simbólicas.
Na prática
- Conte fontes de risco antes de contar papéis. Escreva o que move cada posição; se sobrarem menos de quatro respostas diferentes, sua carteira é uma tese só.
- Mire algo entre 8 e 12 posições de ações. Abaixo disso, um evento isolado decide seu ano; acima, você paga atenção por pouco.
- Evite duplicatas. Antes de comprar o próximo papel, pergunte se ele depende de algo que você ainda não tem.
- Olhe os papéis efetivos, não a contagem. Se o número está muito abaixo do total de linhas, o peso está concentrado.
No Quantor
Na aba Carteira, o resumo mostra o bloco "diversificação": quantos papéis efetivos você tem e a correlação média entre eles, medida nos retornos diários de 12 meses. Quando essa correlação passa de 0,6, a leitura da carteira avisa que os papéis andam juntos e que a diversificação é menor do que parece. Em Risco e exposição, a divisão por setor mostra de relance se você comprou cinco nomes do mesmo motor, e o peso das 3 maiores posições aparece ao lado.
Diversificação não se conta em tickers. Se conta no que pode dar errado junto.
Voltar à trilha Carteira: construir, dimensionar, rebalancearTodas as trilhas
Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.