Entrar
Mentalidadepor Vinícius Rosa · 5 min de leitura

O azar de muitos investidores é ter começado com sorte

Sorteei 4.000 carteiras de cinco ações da B3. As que voaram no primeiro ano foram, no segundo, praticamente iguais a qualquer outra.

O pior que pode acontecer com um investidor iniciante não é perder no primeiro ano. É ganhar muito.

Parece estranho. Mas pensa comigo.

Quem perde no começo aprende cedo que a bolsa machuca. Fica desconfiado, estuda, vai com calma. Quem ganha muito no começo aprende outra coisa: que é bom nisso. Que tem faro. Que encontrou o caminho.

E aí aumenta a aposta. Exatamente quando não devia.

Eu vi isso de perto. Nos anos antes de 2008, o mercado brasileiro só subia. Abertura de capital todo mês, dinheiro sobrando, gente comprando qualquer coisa e ganhando. Lembro do pessoal na corretora operando alavancado, sorrindo todo dia. Até os erros davam certo.

Aí veio 2008. As ações líquidas da B3, segurando, caíram 46% naquele ano. O Ibovespa, em pontos, fechou o ano em −41%.

O mercado mostrou quem tinha método e quem só estava com o vento a favor.

Por que a cabeça transforma sorte em talento

O nome técnico é viés de autoatribuição: quando dá certo, foi mérito meu; quando dá errado, foi azar ou culpa do mercado. Todo mundo tem. É a cabeça protegendo a autoestima.

No começo, esse viés é perigoso por um motivo simples: você ainda não tem histórico para comparar. Um ano bom é tudo o que você conhece. Não dá para saber se foi a sua escolha ou se tudo estava subindo.

E o ganho rápido ainda vem com um presente envenenado: a âncora. O primeiro ano vira a régua do que é "normal". Se você ganhou 50%, um ano de 8% parece fracasso. Aí você arrisca mais para voltar ao "normal". Mais concentração, mais alavancagem, menos regra.

Sorte sem método é só um atraso maior para o tombo.

4.000 carteiras sorteadas, ninguém escolheu nada

Eu queria separar sorte de habilidade com números. Então fiz um sorteio. Peguei as ações da B3 com mais de R$ 5 milhões negociados por dia, entre 2006 e setembro de 2026, e montei 4.000 carteiras de cinco ações escolhidas ao acaso, cada uma segurada por 12 meses, sem custos.

Ninguém escolheu nada. Foi sorteio puro. Olha como os resultados se espalharam:

4.000 carteiras sorteadas, 1 ano
Resultado típico (mediana) +8%
1 em cada 10 perdeu mais de −25%
1 em cada 10 ganhou mais de +53%
Bateram o CDI 48%

Leia a terceira linha com calma. Uma em cada dez carteiras sorteadas ganhou mais de 53% no ano. Sem análise, sem estudo, sem método. Se fosse uma pessoa, ela estaria contando para todo mundo que descobriu como investir.

E menos da metade, 48%, bateu o CDI. Dá para ser escolhido pela sorte para cima ou para baixo com a mesma facilidade.

Pensa no que isso quer dizer. A mesma falta de método produziu as duas pontas. Uma pessoa perdeu mais de um quarto do dinheiro. Outra ganhou mais da metade. Nenhuma das duas fez nada diferente. Uma vai sair da bolsa jurando que é cassino. A outra vai ficar jurando que é talento.

As duas estão erradas pelo mesmo motivo: tiraram conclusão de um ano só.

Agora o teste que interessa. Peguei só as carteiras que ganharam 53% ou mais no primeiro ano, as "gênias", e olhei o que elas fizeram no segundo.

  • A mediana delas no segundo ano foi de +9%. Bem perto dos +8% da carteira típica do sorteio.
  • Bateram o CDI em 51% das vezes. As outras carteiras, em 46%.

Praticamente igual. O primeiro ano espetacular não disse nada sobre o segundo. A sorte não deixou herança.

Para quem começou assim, o perigo é óbvio. Ele vai entrar no segundo ano achando que é o investidor dos +53%. Pelo que o sorteio mostrou, o mais provável é que seja um investidor comum, só que agora com mais dinheiro em jogo e mais confiança do que devia. E é justamente com esse tamanho maior que ele vai encontrar o próximo ano ruim.

Um ano só não separa sorte de habilidade

Isso não quer dizer que todo bom resultado é sorte. Quer dizer que um ano só não separa uma coisa da outra.

Habilidade aparece com tempo, com muitas decisões, passando por mercado bom e mercado ruim. Um ano, cinco ações, é pouco demais.

O teste também é de carteiras sorteadas, não de métodos. Ele mostra como o acaso sozinho espalha os resultados. Não diz que nenhum método funciona. Diz que, para acreditar em um, você precisa de bem mais do que um ano bom.

E o raciocínio vale ao contrário, com cuidado: um primeiro ano ruim também pode ser só acaso. Não é motivo para se achar incapaz, nem para desistir de um método testado.

Se tudo subiu junto, o mérito não é meu

  • Quando ganho muito em pouco tempo, a primeira pergunta é: "Tudo subiu junto?" Se sim, o mérito não é meu.
  • Eu não uso o meu melhor ano como régua do que é normal.
  • Eu não aumento o risco porque acertei. Aumento, se for o caso, porque o método se mostrou bom em muitos anos, inclusive nos ruins.
  • Se os meus ganhos vieram só porque tudo subia, eu não tenho método. Tenho prazo de validade.

O mercado não expõe o amador no topo. Expõe no tombo.

Conhece alguém que precisa ler isso?

Aquele amigo que jura que “vai voltar”, o parente que entrou na bolsa no mês passado. Às vezes um texto chega melhor do que um conselho.

WhatsAppE-mailLinkedInX
Veja com os dados de hoje
A régua, o fluxo e os fundamentos de cada papel, atualizados todo dia

Crie uma conta grátis no Quantor para ver, em qualquer ação, a tendência do mês e o que aconteceu com quem seguiu a régua.

Criar conta grátisJá tenho conta
Vinícius RosaVinícius RosaCriador do Quantor. 20 anos de bolsa, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.siga no Instagram · @viniciusrosa_88 ↗

Mais artigos

Todos os artigosIdeias do Quantor

Conteúdo educacional. Os números vêm da base própria do Quantor e descrevem o que aconteceu, não prometem o que vai acontecer.

O conteúdo do Quantor tem caráter informativo e educacional e não constitui recomendação de compra ou venda. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.