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Small caps e liquidez · Aula 2 de 5

Small cap: o preço de entrada é público, o de saída não

Custo fixo, dívida atrelada ao CDI e pouca gente negociando são três amplificadores empilhados. Eles explicam por que small cap sobe mais e cai mais, e por que o prêmio de risco vem em rajadas, não todo ano.

por Vinícius Rosa5 min de leituraatualizada em
Small cap: o preço de entrada é público, o de saída não

A ideia: três alavancas no mesmo papel

A explicação preguiçosa para o sobe e desce das small caps é "empresa pequena oscila mais". Não explica nada. O que explica é que muitas delas carregam três alavancas ao mesmo tempo: custo fixo alto, dívida que acompanha a Selic e um mercado raso para as suas ações.

Cada alavanca, sozinha, amplifica o resultado. Juntas, elas se multiplicam. Por isso small cap sobe mais e cai mais pelo mesmo motivo, e o prêmio que ela promete chega em rajadas, não todo ano.

Alavanca 1: custo fixo

Custo fixo é o que a empresa paga venda ela muito ou pouco: aluguel das lojas, folha, estrutura. Veja uma empresa hipotética com receita de R$ 100, custo fixo de R$ 70 e custo variável de 20% da receita. O lucro é R$ 100 − 70 − 20 = R$ 10.

Se a receita cai 10%, para R$ 90: o custo variável cai para R$ 18, o fixo continua em R$ 70, e o lucro vira R$ 2. Uma queda de 10% na venda derrubou o lucro em 80%. Se a receita sobe 10%, o lucro vai a R$ 18: alta de 80%.

É a alavancagem operacional: quanto mais custo fixo, mais o lucro exagera cada movimento da receita. E o preço da ação acompanha o lucro, não a receita.

Alavanca 2: dívida em CDI

Empresas menores costumam se financiar com bancos locais, pagando CDI mais uma taxa. O CDI anda colado na Selic. Uma dívida de R$ 500 milhões custa cerca de R$ 10 milhões por ano com a Selic em 2%. Com a Selic em 13,75%, custa cerca de R$ 69 milhões.

A operação da empresa pode estar igual, e o lucro sumir só pela despesa financeira. Com dívida em CDI, o Banco Central participa do resultado. É por isso que a aula 4 trata o juro como o inimigo número um das small caps.

Alavanca 3: pouca gente negociando

A terceira alavanca é a desta trilha. Num papel raso, quando muitos querem vender ao mesmo tempo, o preço precisa descer vários degraus para encontrar compradores. Na alta, o contrário: pouca oferta e o preço dispara.

Os números do Quantor mostram o efeito na oscilação:

Volatilidade e tendência das ações da B3 por faixa de volume diário

À esquerda, quanto a ação típica de cada grupo oscila num ano. À direita, quantas estavam em alta na régua mensal.

Nas 167 ações que giram até R$ 1 milhão por dia, a volatilidade mediana (a oscilação típica em um ano) era de 52%. Nas 52 que giram mais de R$ 100 milhões, 29%. Quase o dobro de sacudida para o mesmo tamanho de posição.

E essa é a alavanca que decide o preço da saída. O preço da entrada está na tela, para todo mundo. O da saída depende de quem vai estar do outro lado no dia em que você precisar vender.

O prêmio: existe, mas não é uma renda

Com tanto risco a mais, é de esperar que small caps paguem mais no longo prazo. Às vezes pagam. O gráfico compara o SMAL11, fundo que replica o índice de small caps da B3, com o BOVA11, que replica o Ibovespa:

SMAL11 contra BOVA11 desde dezembro de 2010, com a Selic embaixo

Os dois começam em 100 em dezembro de 2010. A faixa verde é a janela em que as small caps descolaram para cima. A linha amarela é a Selic.

Entre janeiro de 2016 e junho de 2021, período em que a Selic caiu de 14,25% até 2% (e só começou a subir de novo em 2021), o SMAL11 subiu 298% na cota, contra 211% do BOVA11. Foi a rajada de prêmio.

Mas no período inteiro, de dezembro de 2010 a setembro de 2026, o SMAL11 subiu 56%, e o BOVA11, 167% (no preço da cota). O prêmio veio concentrado em uma janela e foi devolvido em outras. Quem segurou small caps nos quase 16 anos inteiros, esperando o prêmio, terminou bem atrás do índice grande.

Onde engana

A média do índice esconde os papéis. O SMAL11 mistura empresa sem dívida e margem estável com empresa endividada até o pescoço. Selecionar papel a papel pode dar um resultado muito diferente do índice, para melhor ou para pior.

Alavancagem é neutra. A mesma empresa que perde tudo na recessão multiplica o lucro na retomada. O erro não é comprar alavancagem; é comprar sem saber quanto dela você está levando.

O passado recente vende a próxima compra. Em 2021, o retrovisor mostrava cinco anos de small caps batendo o índice. Foi exatamente o ponto de virada.

Na prática

1. Identifique as três alavancas antes de comprar. Custo fixo pesado? Dívida em CDI? Volume baixo? Duas ou três juntas pedem posição menor.

2. Olhe a dívida e o juro juntos. Quanto maior a dívida atrelada ao CDI, mais a Selic manda no lucro. Veja o bloco de fundamentos antes do valuation.

3. Dimensione pela saída, não pela convicção. A convicção escolhe o papel. O volume diário decide quanto dele você carrega. A aula 3 faz a conta.

4. Não trate o prêmio como renda. Small cap paga em rajadas. Entre elas, pode passar anos atrás do índice.

No Quantor

Na aba Macro, o SMAL11 aparece entre os ativos acompanhados em cada regime de crescimento e inflação, ao lado do Ibovespa. Na tela Analisar papel, o bloco Fundamentos e mestres mostra a dívida e as margens do papel, e o cartão da régua traz o volume de 21 dias e a volatilidade. Nos Rankings, a volatilidade e a liquidez são os dois filtros.

Em small cap, o preço de entrada é público; o de saída é negociado no pior dia.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.

Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.