As três demonstrações: você lê na ordem errada
A DRE diz se a empresa ganhou dinheiro, o balanço diz o que ela tem e o que deve, o fluxo de caixa diz se o dinheiro entrou de fato. Quase todo mundo começa pela primeira, que é a mais fácil de moldar.

A ideia: três perguntas, três documentos
Você ouve no jornal que uma empresa "lucrou R$ 30 bilhões no trimestre" e fica com a impressão de que aquilo resume tudo. Não resume. O lucro é só uma das três respostas que a empresa é obrigada a publicar, e é a mais fácil de moldar.
Toda empresa com ações na bolsa divulga, a cada trimestre, três demonstrações. Cada uma responde uma pergunta, e só uma:
- DRE (demonstração do resultado): a empresa ganhou dinheiro no período?
- Balanço patrimonial: o que ela tem e o que ela deve, numa data?
- Fluxo de caixa: o dinheiro entrou de fato na conta?
A DRE é a primeira que todo mundo lê e a que mais depende de escolhas contábeis. Leia na ordem contrária: fluxo de caixa, balanço e, por último, a DRE.
As três, na Petrobras de 2025
Nada disso fica claro no abstrato. Veja as três demonstrações da mesma empresa, no mesmo ano:

Valores em R$ bilhões, das demonstrações anuais consolidadas de 2025. Cada cartão responde uma pergunta diferente.
A DRE é um filme. Soma tudo o que aconteceu no ano: R$ 497,5 bilhões de vendas, menos R$ 351,9 bilhões de custos e despesas, menos R$ 35,0 bilhões de juros, câmbio e impostos. Sobraram R$ 110,6 bilhões de lucro líquido, o que ficou para os donos.
O balanço é uma foto. Mostra a empresa num único dia, 31 de dezembro. De um lado, tudo o que ela tem (o ativo): R$ 1.223,4 bilhões em plataformas, refinarias, estoques, caixa. Do outro, quem pagou por isso: R$ 805,8 bilhões vieram de terceiros (o passivo: bancos, fornecedores, impostos a pagar) e R$ 417,6 bilhões são dos sócios (o patrimônio líquido). Os dois lados sempre somam igual.
O fluxo de caixa é o extrato bancário. As operações colocaram R$ 200,3 bilhões na conta. Os investimentos em poços e plataformas tiraram R$ 86,1 bilhões. O que sobrou, R$ 114,2 bilhões, é o caixa livre: o dinheiro que pode pagar dividendo e dívida.
Por que o lucro e o caixa se descolam
Se as três dissessem a mesma coisa, bastaria uma. Não dizem, por três motivos.
1. Venda não é recebimento. A DRE registra a venda no dia em que ela acontece, não no dia em que o cliente paga. Uma loja que vende em dez vezes lança a venda inteira hoje e recebe ao longo de dez meses.
2. Investimento sai do caixa de uma vez e entra na DRE aos poucos. Uma plataforma custa bilhões no ano em que é paga, mas vira despesa em parcelas, ano após ano, ao longo da vida útil. Essa parcela se chama depreciação: ela reduz o lucro sem que um centavo saia do banco naquele ano.
3. Estoque é dinheiro parado que não aparece no resultado. Comprar mercadoria tira caixa hoje; a DRE só enxerga a mercadoria quando ela é vendida.
Veja o que isso faz com a Petrobras, ano a ano:

Em azul, o lucro da DRE; em amarelo, o caixa gerado pelas operações. O lucro oscila muito mais que o caixa.
Em 2024, o lucro despencou para R$ 37,0 bilhões. O caixa das operações ficou em R$ 204,0 bilhões, praticamente o mesmo de 2023 e de 2025. Em 2020, o lucro foi de R$ 6,2 bilhões, e o caixa, de R$ 148,1 bilhões. Quem olhou só a DRE achou que a empresa tinha quebrado; quem olhou o extrato viu uma máquina de caixa funcionando.
Na Petrobras o descolamento foi a favor: o caixa ficou acima do lucro todos os anos. O perigo é o contrário.
Onde engana
Lucro sem caixa. É o caso perigoso: a empresa mostra lucro crescente, e o dinheiro fica preso em clientes que ainda não pagaram ou em estoque que não gira. Uma empresa pode fechar o ano com lucro recorde e menos dinheiro no banco do que começou. O teste mais barato é dividir o caixa das operações pelo lucro, ano a ano. Perto ou acima de 1, o lucro está virando dinheiro. Abaixo de 0,7 por dois anos seguidos, alguma conta do balanço está engolindo o caixa. Na Petrobras de 2025, a conta dá 200,3 ÷ 110,6 = 1,81.
Banco é outro bicho. Em bancos e seguradoras (ITUB4, BBAS3, BBSE3), dinheiro é a matéria-prima do negócio: o fluxo de caixa operacional mistura depósitos e empréstimos a clientes e diz pouco. Ali, o balanço vem primeiro.
Caixa livre negativo nem sempre é problema. Uma empresa que está construindo fábricas pode gastar mais do que gera por alguns anos. A pergunta é se o dinheiro investido vai render bem, e isso a aula de ROE e ROIC vai mostrar como medir.
Na prática
1. Comece pelo fluxo de caixa operacional dos últimos quatro anos. Compare com o lucro de cada ano.
2. Se o caixa ficar bem abaixo do lucro, vá ao balanço. Procure o que cresceu: contas a receber, estoques. A causa quase sempre está lá.
3. Só então leia a DRE. Use-a para ver a tendência das margens, não para decidir sozinha.
4. Leia sempre as três do mesmo período. Lucro de um ano com caixa de outro não conta história nenhuma.
No Quantor
Na tela Analisar papel, o bloco Fundamentos e mestres mostra lado a lado o lucro líquido, o fluxo de caixa operacional e o fluxo de caixa livre dos últimos 12 meses, além da qualidade do lucro (caixa livre dividido pelo lucro). O Raio-x do lucro mostra receita e lucro ano a ano, e o Preço × lucro mostra se o mercado está acompanhando os resultados. As próximas nove aulas abrem cada uma dessas peças.
Lucro é opinião contábil. Caixa é fato.
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