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Ler o mercado em 10 leituras · Aula 2 de 9

O medo é o único desconto que a bolsa dá

Desde 2017, comprar BOVA11 com o termômetro em estresse rendeu +26,2% nos 12 meses seguintes; na calmaria, +9,6%. Quase ninguém compra no estresse, porque ele não marca o fundo, marca uma região.

por Vinícius Rosa5 min de leituraatualizada em
O medo é o único desconto que a bolsa dá

A ideia: o medo já vem descontado no preço

Quase todo investidor acha que compra melhor quando o cenário está claro. A série do Quantor diz o contrário: desde março de 2017, comprar BOVA11 (o fundo que replica o Ibovespa) com o termômetro de risco em estresse rendeu, em média, +26,2% nos 12 meses seguintes. Com o termômetro calmo, +9,6%.

Não é sorte. O termômetro não mede quão ruim está o mundo. Mede quanto medo já está embutido no preço. Quando o medo está caro, a bolsa está barata.

A régua responde "para onde". A força, "com que convicção". O termômetro responde outra pergunta: quanto do risco já foi cobrado antes de você entrar.

Como o termômetro é montado

Ele junta cinco medidores de medo. Quase todos são volatilidade implícita: o preço do seguro contra queda, tirado das opções (contratos que funcionam como apólice). Seguro caro é gente pagando muito para não sofrer mais.

  • VIX: o seguro contra queda do S&P 500, a bolsa americana.
  • MOVE: o mesmo seguro, para os títulos do Tesouro americano.
  • VVIX: o preço da proteção contra um salto do próprio VIX, o "medo do medo".
  • VIX Brasil: o seguro contra queda do BOVA11, calculado pelo Quantor com as opções da B3.
  • Crédito: quanto a mais as empresas arriscadas pagam de juro nos EUA.

Cada medidor vira um percentil de dois anos (0 = o mais calmo do período, 100 = o mais tenso) e o termômetro é a média, com 10 pontos extras se a curva do VIX inverter. Abaixo de 30, calmo; de 30 a 60, normal; de 60 a 80, alerta; 80 ou mais, estresse.

A tela de hoje

O termômetro de risco em 29/09/2026, com os medidores marcados

Print da aba Risco em 29/09/2026. Os marcadores são explicados abaixo.

O termômetro marcava 62 (1), zona de alerta. E subiu rápido (4): uma semana antes estava em 35; um mês antes, em 23. A linha ao lado mostra os últimos 90 dias: o medo saiu do calmo e passou do normal em poucas semanas.

Mas a média é só o começo. O VIX (2), o medo na bolsa americana, estava em 16,0, mais calmo que em 71% dos últimos dois anos; o VVIX, em 90, mais calmo que em 86%. Enquanto isso, o VIX Brasil (3) marcava 35,7, mais tenso que em 100% dos últimos dois anos, e o MOVE, o medo nos juros americanos, estava mais tenso que em 90%. A bolsa americana calma e o seguro contra queda na B3 no ponto mais caro em dois anos. Não é medo global chegando aqui: é medo local, somado ao dos juros lá fora.

O que aconteceu depois de cada zona

O Quantor classificou cada dia desde março de 2017 e mediu o BOVA11 nos meses seguintes:

Retorno médio do BOVA11 nos 12 meses seguintes, conforme a zona do termômetro

Quanto mais medo no dia da compra, maior o retorno médio no ano seguinte. Embaixo, a outra face da mesma moeda.

O efeito aparece rápido. Nos 21 pregões (cerca de um mês) depois de um dia de estresse, o BOVA11 subiu em média 4,0%, positivo em 80% das vezes. Depois de um dia normal, 0,3%, positivo em 52%: cara ou coroa.

Por que funciona? Em estresse, quem vende muitas vezes não está escolhendo: é chamada de margem, resgate de fundo, limite de risco. Esse vendedor forçado tem estoque finito. Quando ele acaba, qualquer comprador move o preço. E quem compra no meio do medo exige um desconto maior, que vira retorno depois.

Nos EUA, a calmaria também pagou bem: +15,5% em 12 meses no S&P 500. No Brasil, calmaria pagou menos que medo. Essa assimetria é a que a maioria ignora.

Onde engana

Estresse não marca o fundo, marca uma região. A pior queda em 21 pregões depois de um dia de estresse foi −33%. Em março de 2020, quem comprou no primeiro dia de estresse ainda viu mais 20% de queda antes do alívio. Quem entra com dinheiro de que precisa em três meses sai do jogo antes de a média funcionar.

Queda sem pânico não aparece. Entre maio de 2021 e junho de 2022, o Ibovespa caiu de cerca de 130 mil para perto de 96 mil pontos com o termômetro quase sempre normal. Era a Selic subindo de 2% para 13,75%, não medo. O termômetro mede medo, não mede valor.

Calmaria não é proteção. Saindo de um dia calmo, a pior queda em 63 pregões foi −39%.

Na prática

  1. Leia a nota e depois abra os cinco medidores. Um 37 com o VIX Brasil no p98 não é o mesmo que um 37 com todos no meio.
  2. Trate estresse como hora de parcelar, não de comprar tudo. Três ou quatro parcelas ao longo das semanas em 80 ou mais.
  3. Combine com a régua. Comprar em estresse com a régua em baixa é comprar cedo de propósito, com horizonte de 6 a 12 meses.
  4. Em calmaria, reduza a expectativa, não a posição. O retorno esperado fica mais magro e o risco de tombo, maior.

No Quantor

A aba Risco mostra o termômetro, os 90 dias recentes, os seis cartões dos medidores com o percentil de cada um e o histórico de cinco anos com as zonas. O VIX Brasil tem série própria desde 2011, calculada das opções da B3. Na tela Analisar papel, o bloco "Risco × mercado" mostra como cada papel reage quando o medo sobe.

A régua diz para onde. O termômetro diz quanto do medo você já não precisa pagar.

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.

Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.