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Custos, impostos e execução · Aula 1 de 5

Girar custa: o pedágio de cada troca

Custo por ano ≈ operações por ano × 2 × custo por ordem. Com 0,5% por ordem, um setup que opera 11 vezes por ano começa cada ano 11 pontos atrás, quase o CDI inteiro.

por Vinícius Rosa7 min de leituraatualizada em
Girar custa: o pedágio de cada troca

A ideia

"Hoje a corretagem é zero, então posso trocar quando quiser." A frase tem um pedaço de verdade: muitas corretoras zeraram a corretagem para ações. Mas a corretagem nunca foi o único custo. Em muitos casos, nem é o maior.

Cada ordem que você manda paga quatro coisas, visíveis ou não:

  • emolumentos, a taxa da B3 (a bolsa brasileira) sobre cada negócio, pequena mas sempre presente;
  • corretagem, quando a sua corretora cobra;
  • spread, a diferença entre o melhor preço de compra e o melhor de venda na tela. Quem compra a mercado (aceitando o preço da tela na hora) paga o preço de cima; quem vende, recebe o de baixo;
  • impacto, quando a sua ordem é grande para o volume da ação e empurra o preço contra você.

Somados, numa ação muito negociada e numa ordem pequena, ficam em torno de 0,1% do valor. É o custo que a pesquisa do Quantor usa como padrão. Em ações de pouco volume, só o spread costuma ficar entre 0,3% e 1%. E, quando há lucro, entra o imposto, assunto da aula 3.

Cada custo parece pequeno. O que transforma o pequeno em grande é quantas vezes você paga.

A conta de bolso

A regra cabe numa linha:

custo por ano ≈ operações por ano × 2 × custo por ordem.

O "× 2" existe porque cada operação é uma compra e uma venda: você paga na entrada e na saída. "Operações por ano" é quantas vezes você entra e sai. Numa carteira, o equivalente é o giro: quantas vezes, ao longo do ano, você troca o valor inteiro da carteira.

O pedágio anual de cada ritmo

Olhe como os pontos perdidos por ano crescem juntos com o ritmo de operação e com o custo por ordem: quem opera muito e paga caro perde de longe mais. Os ritmos são os medidos nos setups da pesquisa do Quantor.

Os ritmos da figura são reais. Medimos quantas vezes cada setup (regra de compra e venda baseada no gráfico) opera por ano em 437 ações da B3, de 2006 a 2026. Comprar e segurar opera 0,15 vez por ano, quase nada. A régua mensal (uma linha que acompanha o preço; o sinal muda só no fechamento do mês), uma vez. O IFR2 do Stormer, 6,2. O 123 de compra, 11,2. Esses dois últimos são setups populares de curto prazo.

Com 0,1% por ordem, o 123 de compra paga cerca de 2,2 pontos por ano. Com 0,5%, paga 11,2 pontos, mais que o CDI do período inteiro. No teste, ele rendeu +2,2% ao ano.

O que testamos: a conta de bolso funciona?

A conta é aproximada. Para saber se ela serve, comparamos com simulações completas, dia a dia, que pagam custo em cada compra e venda de verdade.

Pegamos uma carteira de rotação (10 ações da B3 escolhidas por um ranking e trocadas conforme ele muda), refeita todo mês de maio de 2011 a setembro de 2026. O giro foi de 4,9 vezes por ano. Subir o custo de 0,1% para 0,5% por ordem é somar 0,4 ponto por ordem. A conta de bolso prevê: 4,9 × 2 × 0,4% ≈ 3,9 pontos a menos por ano. A simulação mediu 4,7: o retorno caiu de +22,0% para +17,3% ao ano. As duas versões pagaram também 2% ao ano de taxa, como um fundo. Com 1% por ordem, a mesma carteira caiu para +11,7%.

Nos Estados Unidos, subir o custo de 0,05% para 0,15% tirou de 1,0 a 1,6 ponto por ano das estratégias que giram de 4 a 6 vezes. A conta de bolso prevê de 0,8 a 1,2. A conta subestima um pouco, mas acerta a ordem de grandeza. Para decidir, é o que basta.

O que quase ninguém sabe. A conta de bolso costuma errar para menos. Numa carteira real, você não troca só as ações que saem. Também reequilibra os pesos das que ficam, e cada ajuste pequeno paga custo. Na simulação da carteira de rotação, a perda medida foi cerca de 20% maior que a prevista. Se a sua conta de bolso já assusta, a real assusta mais.

Vinte anos de pedágio

O custo não aparece no extrato como uma perda. Aparece como um retorno que nunca chega, e os juros compostos fazem o resto.

R$ 100 mil, 20 anos, 12% ao ano

Olhe o valor final de cada caminho no fim dos 20 anos: a diferença para o caminho sem custo é o que cada pedágio anual tirou da mesma rentabilidade bruta de 12% ao ano. Conta ilustrativa, antes de imposto.

Com R$ 100 mil a 12% ao ano, em 20 anos você teria R$ 964.629. Meio ponto de custo por ano deixa R$ 882.058: são R$ 83 mil a menos. Com dois pontos, R$ 672.750. Com cinco pontos, R$ 386.968: R$ 578 mil a menos, mais de metade do resultado.

Um caso: duas pessoas, a mesma lista

Duas pessoas seguem a mesma lista de ações. A primeira revisa uma vez por mês e troca só o que mudou de verdade: umas 10 operações no ano numa carteira de 10 ações, giro próximo de 1. A segunda olha todo dia e troca sempre que uma ação "parece fraca": umas 60 operações, giro de 6.

Com 0,3% por ordem (spread, emolumentos e algum impacto), a primeira paga cerca de 1 × 2 × 0,3% = 0,6 ponto por ano. A segunda, 6 × 2 × 0,3% = 3,6 pontos. A segunda precisa escolher ações 3 pontos por ano melhores só para empatar. Três pontos por ano, todo ano, é uma vantagem que quase nenhum método testado mostrou de forma consistente.

Onde a conta engana

O custo por ordem varia. Depende da corretora, do spread do dia, do tamanho da ordem e da liquidez da ação (quanto dinheiro ela negocia por dia). Meça o seu, não use o do vizinho.

Nem toda troca é ruim. Uma troca que evita uma queda grande pode valer muito mais que o custo. O problema é a troca por ruído, o sobe e desce sem significado.

Resultado passado não garante futuro. Os números das simulações são de 2006–2026; custos mudam.

A versão prática

  1. Meça o seu giro. Some tudo o que vendeu nos últimos 12 meses e divida pelo tamanho médio da carteira.
  2. Estime o seu custo real por ordem. Corretagem, emolumentos e o spread que você costuma pagar.
  3. Faça a conta de bolso. Giro × 2 × custo. Esse é o seu pedágio anual.
  4. Compare o pedágio com o que as trocas trouxeram. Se as trocas não rendem mais que o pedágio, troque menos.

No Quantor

A Carteira registra suas posições e mostra o retorno contra o Ibovespa. É o lugar para contar as suas trocas do ano. Na tela Analisar papel, a régua mensal decide uma vez por mês, no fechamento, e mostra a folga até o preço em que vira: uma forma de não trocar por ruído. Os ritmos de operação desta aula vêm da pesquisa do Quantor, que testa cada setup com 0,1% e 0,25% por ordem.

Teste você mesmo

Abra a Carteira e faça três contas. Quantas compras e vendas você fez nos últimos 12 meses? Qual o seu giro aproximado? Qual o pedágio anual com 0,1%, 0,3% e 0,5% por ordem? Anote o resultado ao lado do retorno da Carteira contra o Ibovespa. O pedágio é maior ou menor que a diferença para o índice?

O que fica

  • Custo por ano ≈ operações por ano × 2 × custo por ordem; a conta erra para menos.
  • Com 0,5% por ordem, girar 11 vezes por ano custa mais que o CDI inteiro.
  • Meio ponto de custo por ano, em 20 anos, tira R$ 83 mil de R$ 100 mil aplicados a 12%.

Para pensar: quanto do seu retorno do último ano foi para o pedágio, e quanto dessas trocas você faria de novo?

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Vinícius Rosacriador do Quantor · professor da AcademyProf. Vinícius RosaCriou o Quantor para ajudar as pessoas a investirem melhor. Trader há 20 anos, engenheiro e programador, autor de O Investidor de Fluxo.

Conteúdo educacional. O Quantor não recomenda compra nem venda de ativos; resultados passados não garantem resultados futuros. Decisões de investimento são de responsabilidade exclusiva do investidor.