Halving: três observações viraram lei
O "ciclo de quatro anos" do Bitcoin se apoia em três pontos no gráfico. Nos três, o topo veio 15 a 17 meses depois do halving; mas a alta encolheu de +2.166% para +91%. Quem opera pelo calendário não tem critério de saída.

A ideia: um fato, uma história e uma amostra de três
O halving é um fato. A cada 210 mil blocos, mais ou menos quatro anos, a quantidade de bitcoins novos criados em cada bloco cai pela metade. Aconteceu em 2012, 2016, 2020 e abril de 2024; neste último, a recompensa por bloco foi de 6,25 para 3,125 bitcoins.
Em cima do fato se pendurou uma história: o "ciclo de quatro anos", com fundo, alta, euforia e queda cronometrados pelo código. O problema não é a história ser falsa. É ela se apoiar em três observações. Com três pontos, quase qualquer padrão parece intencional.
Os três ciclos, lado a lado
Pegamos o Bitcoin no mês de cada halving que cabe na nossa série (a de 2012 fica antes dela) e acompanhamos os 30 meses seguintes, com o preço do mês do halving valendo 1×.

Escala log: a distância entre 1× e 2× é a mesma que entre 10× e 20×. Os pontos marcam o pico de fechamento de cada ciclo.
O relógio, de fato, repetiu. O pico de fechamento veio 17 meses depois do halving de 2016, 17 meses depois do de 2020 e 15 meses depois do de 2024. E depois de cada pico veio uma queda: −76%, −73% e −49%, em fechamentos mensais.
Agora olhe o tamanho. Do mês do halving até o pico: +2.166% no primeiro ciclo, +548% no segundo, +91% no terceiro. Quem, em 2024, fez a média dos dois ciclos anteriores e esperou algo como +1.000% viu o Bitcoin subir menos de um décimo disso.
O calendário acertou o quando e errou feio o quanto. E o quanto é o que decide o resultado.
Por que três pontos enganam
O cérebro completa o desenho. Três altas seguidas de três quedas, em intervalos parecidos, formam uma figura limpa. Mas três repetições não distinguem um ciclo real de três moedas que caíram do mesmo lado.
O corte de oferta é pequeno e conhecido. Depois de 2024, a emissão nova caiu para cerca de 164 mil moedas por ano (3,125 por bloco, uns 144 blocos por dia), algo perto de 0,8% ao ano sobre um estoque de quase 20 milhões. É um efeito real, mas anunciado com anos de antecedência a todo o mercado. Informação conhecida por todos tende a entrar no preço antes.
Há outras explicações para os mesmos pontos. As duas grandes quedas do Bitcoin, em 2018 e 2022, aconteceram em anos em que o banco central americano subia os juros. E, desde janeiro de 2024, existem nos Estados Unidos fundos negociados em bolsa que compram Bitcoin à vista, o que trouxe um comprador novo, com regras de investimento de fundo e não de fé.
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