Regras contra você mesmo: o processo que substitui a disciplina
Disciplina acaba justamente nos dias em que você mais precisa dela. Por isso as decisões difíceis têm de estar escritas antes, num dia calmo — quando decidir, quanto comprar, até onde deixar crescer.

A ideia: você não vence o viés com força de vontade
Depois de estudar os próprios erros — segurar o prejuízo, ancorar no preço médio, procurar só quem concorda, girar demais, extrapolar o último ano, seguir a manada — a conclusão natural é "preciso ter mais disciplina". É a conclusão errada.
Disciplina é um recurso que acaba, e acaba exatamente nos dias em que você mais precisa dela. Em 12 de janeiro de 2023, com a Americanas caindo 77% num pregão, ninguém estava com a cabeça fria. A solução não é ser uma pessoa melhor nesses dias. É ter decidido antes, quando você ainda era uma pessoa razoável.
Na Odisseia, Ulisses sabia que ia querer se jogar no mar ao ouvir as sereias. Não treinou força de vontade: pediu para ser amarrado ao mastro. Os economistas chamam isso de pré-compromisso: uma decisão tomada com calma que tira as opções do seu eu futuro. Esta aula monta o seu mastro.
O processo em cinco peças
Cada peça responde a um dos vieses da trilha. Todas cabem numa página:

Cada linha é uma decisão que você toma uma vez, por escrito, e não renegocia no meio do pregão.
1. Quando decido: só no fechamento do mês, pela régua. Isso tira a decisão do dia do susto e da manchete. Você passa de umas 21 oportunidades de errar por mês para uma.
2. Quanto compro: pela volatilidade, não pelo entusiasmo (veja a conta abaixo).
3. Até onde deixo crescer: um teto por papel, escrito. Passou dele, a revisão é obrigatória.
4. O que me faria vender: a tese e a falsificação, escritas antes da compra (a aula 3).
5. O que faço com a ideia nova: ela vai para uma lista de observação por 30 dias. Dica de amigo, manchete, papel que "explodiu": tudo espera.
Registrar cada decisão num diário, e revisar o processo em vez do resultado, é o tema da aula "Processo acima de resultado", na trilha Mente de ferro.
As contas do tamanho
As peças 2 e 3 são as que trabalham no pior dia, porque nenhuma regra de saída salva de uma queda num pregão só.

À esquerda, a mesma queda com três pesos diferentes. À direita, o tamanho que iguala o risco de dois papéis.
O teto. Na queda de 77% da Americanas, a conta do estrago na carteira inteira é o peso vezes a queda. Com 3% da carteira no papel: 3 × 0,77 = 2,3 pontos. Com 10%: 7,7 pontos. Com 25%: 19,3 pontos, o tipo de perda que leva anos para recuperar. O evento foi o mesmo para todos. O estrago foi decidido antes, no tamanho.
A volatilidade. Nos últimos cinco anos, com fechamentos mensais, a MGLU3 oscilou 72,6% ao ano e a TAEE11, 16,9%. Se você quer que as duas posições possam doer mais ou menos o mesmo, a conta é 16,9 ÷ 72,6 = 0,23. Para cada R$ 1.000 em TAEE11, cerca de R$ 233 em MGLU3. A convicção decide se o papel entra; a volatilidade decide quanto. (É uma conta de risco, não uma recomendação de nenhum dos dois papéis.)
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