Momentum: a anomalia que ninguém consegue arbitrar
Comprar o que subiu nos últimos meses é a única ideia do gráfico com décadas de evidência em vários mercados. Ela continua existindo porque cobra caro, de uma vez, quando o mercado vira.

A ideia: o momentum sobrevive porque dói carregar
Das ideias que nasceram olhando gráficos, uma passou em quase todos os testes: comprar o que subiu nos últimos 6 a 12 meses e evitar o que caiu. O efeito se chama momentum. Não é folclore de mesa de operações: é um dos achados mais replicados sobre preços.
Se todo mundo sabe, por que não sumiu? Anomalia que desaparece depois de publicada era só uma oportunidade que os outros copiaram. Anomalia que continua lá por décadas costuma ser um prêmio por aguentar um desconforto que a maioria recusa. No momentum, o desconforto é um crash raro, brutal e concentrado em poucos meses.
Por que o preço tende a continuar
1. A notícia boa é absorvida devagar. Quando uma empresa surpreende no resultado, o preço não salta de uma vez para o valor novo. Analistas revisam as projeções aos poucos, ancorados no que diziam antes.
2. O dinheiro grande entra em parcelas. Um fundo que precisa montar uma posição relevante leva semanas ou meses para comprar sem mexer demais no preço. Isso cria continuidade.
3. Quem chega atrasado estica o movimento. No fim de uma alta entra quem compra porque subiu. É essa camada que prepara a queda forte quando a maré vira.
Juntas, essas forças explicam por que o efeito aparece em horizontes de 6 a 12 meses, e não em dias.
A evidência
Narasimhan Jegadeesh e Sheridan Titman mostraram, em 1993, que comprar as ações americanas que mais subiram em 6 a 12 meses e vender as que mais caíram gerava retorno acima do mercado, e o efeito continuou depois da publicação. Cliff Asness, Tobias Moskowitz e Lasse Pedersen, em 2013, encontraram o mesmo sinal em ações de vários países, índices, moedas, juros e commodities. O prêmio histórico nesses trabalhos fica na faixa de 5% a 10% ao ano, antes dos custos de girar a carteira.
O preço do prêmio: 2016 na B3
O lado ruim aparece na virada do mercado. Depois de uma queda longa, a lista dos "piores" está cheia de papéis destruídos. Quando o mercado vira, eles sobem mais que todos, e quem estava apostando no que vinha subindo apanha. Nos Estados Unidos, em 2009, o fator momentum perdeu perto de 70% em poucos meses. Na B3, 2016 foi o exemplo:

213 ações do arquivo mensal do Quantor, em cinco grupos pelo retorno de 2015. Cinza: 2015. Laranja: 2016. Mediana de cada grupo. Só entram papéis que continuam no arquivo, o que deixa de fora quem quebrou ou saiu da bolsa.
Os 20% que mais subiram em 2015 (mediana de +29%) subiram 13% em 2016. Os 20% que mais caíram (mediana de −69%) subiram 43%. A ordem se inverteu por completo. A PETR4, que caiu 33% em 2015, subiu 122% em 2016.
O momentum ganha pouco e com frequência, e perde muito e raramente. Quem só olha a média nunca entende por que ninguém "arbitrou" esse prêmio.
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