O índice sobe, a ação típica não
O ganho de uma bolsa vem de poucas ações que multiplicam muitas vezes. O índice carrega essas poucas sem precisar saber quais são; dez nomes escolhidos a dedo quase sempre não carregam. É isso que decide entre um ETF e uma cesta de BDRs.

A ideia
Um índice de ações parece uma média: sobe quando "as ações" sobem. Não é bem assim. O ganho de um índice vem de poucas ações que multiplicam muitas vezes, enquanto a ação típica anda pouco ou perde. É a concentração de retornos: o resultado mora na ponta da distribuição, não no meio.
Isso muda a pergunta desta trilha. Se você quer o mercado americano, comprar o índice inteiro (IVVB11) e comprar cinco ou dez BDRs de empresas conhecidas não são duas versões da mesma coisa. O índice carrega a cauda sem precisar saber onde ela está. Uma lista curta, quase sempre, não carrega.
O que Bessembinder mediu
O economista Hendrik Bessembinder publicou em 2018 um estudo com todas as ações americanas listadas de 1926 a 2016, quase 26 mil empresas. Em essência, ele mostrou duas coisas:
- Cerca de 4% das ações explicam toda a riqueza líquida que a bolsa americana criou acima dos títulos de curto prazo do Tesouro americano no período. Os outros 96%, somados, empataram com esses títulos.
- Mais da metade das ações rendeu, na vida inteira, menos que esses títulos, que são a aplicação mais segura que existe por lá.
A razão é mecânica. Uma ação pode perder no máximo 100%, mas pode ganhar 1.000%, 10.000%. Com o tempo, essa assimetria concentra o ganho em poucos nomes.
Dá para ver na B3
Refizemos a ideia com o arquivo do Quantor: todas as ações com preço em agosto de 2016 e em agosto de 2026. Foram 238.

Cada barra conta quantas ações caíram em cada faixa. A mediana é a ação do meio da fila; a média soma todas e divide.
- A ação do meio da fila (a mediana) subiu 39% em dez anos, só no preço.
- A média subiu 188%. A diferença entre as duas é a cauda: algumas poucas ações puxaram a média para cima.
- 99 das 238 terminaram abaixo do preço de 2016. Em 37, a queda passou de 75%.
Agora imagine R$ 1 em cada uma. De onde veio o ganho total?

A curva sobe rápido e depois desce: as que caíram devolvem parte do que as melhores ganharam.
As 10 melhores, 4% da lista, somaram 59% de todo o ganho. Uma ação sozinha, a PRIO3, que multiplicou o preço por mais de 170 vezes, respondeu por 38,5%. As 139 que subiram somaram 113% do ganho, e as 99 que caíram devolveram os 13% de excesso.
E a pergunta prática: sorteamos 20 mil carteiras de 10 ações dessa lista. Em 80% delas, o resultado ficou abaixo da média do conjunto. A carteira típica subiu 107%; o conjunto inteiro, 188%. Quem tem tudo tem a cauda. Quem tem dez, na maioria das vezes, não tem.
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